1
Bibl ioteca
Virtualbooks
GUERRA DOS
MASCATES
JOS DE
ALENCAR
2
Edio especial para distribuio gratuita pela Internet,
atravs da Virtualbooks.
A VirtualBooks gostaria de receber suas crticas e sugestes sobre
suas edies. Sua opinio  muito importante para o aprimoramento
de nossas edies: Vbooks02@terra.com.br Estamos  espera do
seu e-mail.
Sobre os Direitos Autorais:
Fazemos o possvel para certificarmo-nos de que os materiais
presentes no acervo so de domnio pblico (70 anos aps a morte do
autor) ou de autoria do titular. Caso contrrio, s publicamos material
aps a obteno de autorizao dos proprietrios dos direitos
autorais. Se algum suspeitar que algum material do acervo no
obedea a uma destas duas condies, pedimos: por favor, avise-nos
pelo e-mail: vbooks03@terra.com.br para que possamos providenciar
a regularizao ou a retirada imediata do material do site.
www.virtualbooks.com.br/
Copyright 2000/2003 Virtualbooks
Virtual Books Online M&M Editores Ltda.
Rua Benedito Valadares, 429  centro
35660-000 Par de Minas - MG
Todos os direitos reservados. All rights reserved.
GUERRA DOS MASCATES
Jos de Alencar
3
GUERRA DOS
MASCATES
ADVERTNCIA
INDISPENSVEL CONTRA ENREDEIROS E MALDIZENTES
Alinhavou-se esta crnica sobre uma papelada velha, descoberta de
modo bem estrdio.
Ia proceder-se  eleio primria em uma parquia dos subrbios do
Recife. Desde a vspera que o rbula poltico do lugar tinha arranjado
a cousa a bico de pena e conforme a senha; mas era preciso dar
representao e mostra oficial da farsa para embaar uns escrpulos
ridculos do presidente calouro.
Para esse fim um grupo de governistas, com o competente
destacamento policial, acampou na Matriz, onde a oposio, que
tivera o cuidado de meter-se nas encspias, no apareceu.
Na ocasio de comear a encamisada, deu-se por falta da urna de que
ningum se lembrara. Felizmente l desencavaram no fundo do
armrio da sacristia um cofre ou arca de jacarand, que devia ter
servido, no tempo de El-Rei Nosso Senhor, para guardar os pelouros
da vereana.
Havia dentro da tal arca trs antigualhas, dignas de uma memria do
Instituto Histrico. Eram: uma cabeleira de rabicho que naturalmente
pertenceu ao ltimo juiz do povo; uma liga de belbute com
atacadores de prata em forma de coraes, adereo casquilho de
alguma Egria dos tempos coloniais; e finalmente um grosso rolo de
escrita enleado com um cadaro de Lamego.
Sem o menor respeito atiraram essas preciosas relquias a um canto,
onde as descobriu dois dias depois o sacristo da freguesia.
Era este o Sr. Beltro, que ao mister de enxota-ces da matriz
acumulava o ofcio de meirinho do subdelegado, combinao esta que
dava boa suma das habilidades do nosso homem. Sentia ele tambm
suas ccegas pela poltica, e desde certo tempo andava chocando de
longe, como jacar, o lugar de inspetor de quarteiro. At j lhe
4
passara uma vez pela cachola a idia de trocar a opa vermelha por
uma farda azul de alferes da Guarda Nacional; e saindo-lhe a cousa
certa, por que no havia de entrar na lista de eleitores, e pilhar a
subdelegacia?
Cometera o governo de ento o erro gravssimo de no prestar a
considerao devida ao merecimento de um homem dessa marca e a
seus relevantes servios, como fsforo que era e da melhor fbrica.
Justamente ofendido em seus brios, o Sr. Beltro decidiu virar a
jaqueta, pois ainda no se tinha metido em casaca; e desandou em
oposicionista de quatro costados.
Achando os objetos no canto, o grio do sacrista contemplou-os um
instante com um sorriso manhoso e deitou-se a passo de rafeiro para
a casa do escrivo, que era ali o tombo e conselho do partido. Nesse
mesmo dia partiu para a cidade um prprio, levando pesado embrulho
e uma carta com endereo ao redator do rgo oposicionista.
O tarelo escritor andava a tinir com o malogro de sua candidatura.
Ainda garraio em poltica, tivera a ingenuidade de tomar ao srio a
eleio e concebera a louca esperana de furar a chapa do governo,
empresa mais difcil do que a de brocar o Po de Acar.
Foi receber a carta e pular o tarouco do publicista  mesa, onde
cortadas as tiras de papel almao, desandou um artigo em estilo de
bomba, no qual trovejava deveras contra o despotismo que oprimia o
pas.
No outro dia apareceu o presidente com cara de demisso, o que logo
se conheceu pelas cerdas revoltas do bigodinho, que o excelentssimo
esmerava-se em trazer sempre com um torcido dos mais elegantes.
Pudera no! Logo na cama tomara,  guisa de mingau ou chocolate, a
siribanda da folha oposicionista num artigo furibundo, sob a epgrafe -
Ubinam gentium sumus!... Era o tal sobre a eleio.
Depois de uns rasgos eloqentes acerca da depravao do sistema
representativo, e da corrupo que lastra como uma lepra oficial (isso
 l do publicista pernambucano), descrevia o retumbante artigo os
atentados inauditos praticados pelo partido dominante para tomar de
assalto as urnas. Esse partido ento dominante, confesso que no
indaguei qual seria, mas cada um por o que for mais de seu gosto;
assim ficaremos todos contentes, e no haver motivo de zanga entre
conservadores e liberais.
A vai a amostra do tal artigo:
Chegou a ponto a ousadia, a impudncia, dessa horda de vndalos
que no respeitaram as cousas mais sagradas, a santidade do templo,
as cs de uma velhice honrada e a virtude do sexo frgil!
- O honrado capito-mor, o Sr. A***, esse benemrito ancio,
acatado em todos os tempos como um tipo de sisudez e probidade, foi
vitima dos insultos e apupadas dos energmenos, que depois de
5
tentarem contra sua existncia, tiveram a protrvia incrvel de calcar
aos ps a sua cabeleira, esse venerando smbolo da velhice gloriosa
do grande patriota.
No escapou  sanha dos bandidos a ilustre Sr.a D. B***, essa nclita
matrona pernambucana, digna dos melhores tempos de Roma por sua
virtude e austeridade. Talhada no molde de D. Maria de Sousa, a
herona brasileira,  adorada como uma providncia daqueles lugares
por sua caridade inexaurvel. Estando na missa, foi ultrajada sem
respeito  santidade do lugar e ao recato do sexo. E por qu... Pelo
crime imperdovel de ser me de um nosso amigo, o Sr. C***,
oposicionista importante. Para se avaliar quanto sofreu a ilustre
matrona, bastar saber-se que no meio do tumulto caiu-lhe uma liga
de preo, e esse penhor da castidade veio a servir - horresco!... de
joguete  canalha.
No dia seguinte o corpo da igreja onde se fez a eleio, apresentava
aspecto igual ao teatro de uma bacanal. Rolavam pelo cho, de
envolta com aqueles objetos respeitveis, maos de cdulas
arrancados  urna violada, e sobejos da oppara ceia com que
banquetearam a seus janzaros.
E o governo, depois de se debochar nessa orgia, ousar ainda com o
maior cinismo falar em liberdade de voto e pureza de eleio! Infeliz
pas, governado por lacaios a quem servem outros lacaios, e outros,
desde a antecmara at a cocheira.
Um esquisito que havia em Pernambuco, republicano de 1817,
convertido em comendador, ao ler aquele trecho saiu-se com estaque
no era escrito de pena, mas de chuo.
Tinha uma nota o artigo, e assim concebida:
Ficam em nosso poder, onde podem ser examinados, os objetos a que
nos referimos, verdadeiro corpo de delito da saturnal representada
pelos esbirros do governo.
Muitas pessoas foram ao escritrio da folha ver a cabeleira, a liga e o
mao a que aludia o artigo. Entanto era a toda pressa chamado a
palcio o chefe do partido. A conferncia esteve tempestuosa.
O presidente engrilou-se, declarando que estava disposto a fazer
tudo, mas guardadas as aparncias. O chefe bateu-lhe o p; deu-lhe
trs gritos, e acabou por dizer-lhe que no faltavam presidentes para
Pernambuco. Da secretaria ouviu-se a altercao; e horas depois
assoalhou-se que as duas potncias estavam desavindas.
Por este tempo o capito-mor e a matrona, sabendo do artigo,
quiseram protestar. O primeiro assegurava que sua cabeleira de
rabicho h muitos anos fora roda pelos ratos, e lamentava esse
desastre. A segunda, furiosa contra o escritor e disposta a no aturar
desaforos, jurava que tivera sempre sua perna bem grossa e carnuda
6
para segurar a meia sem necessidade de ligas. Ambos declaravam
que no tinham sado de casa no dia da eleio.
Interpuseram-se, porm, os orculos da oposio, e usaram de todos
os meios de influncia para obstar  declarao. Exigiam as
convenincias do partido no se tirasse a fora moral de um artigo,
que produzira grande efeito e dera azo ao rompimento do chefe
governista com o presidente.
O subdelegado da freguesia, cabo da eleio, desmentiu em oficio e
por cartas as acusaes do jornal oposicionista; mas ningum, nem os
seus prprios amigos acreditaram nas asseveraes do homem, que
sabiam capaz de maiores faanhas, useiro e vezeiro nelas. No
obstante, a imprensa do governo desfez-se em elogios 
imparcialidade e moderao do prestante cidado a quem estava
confiada a autoridade do lugar.
Um ms depois, c na corte, o ministro da Justia voltava do
despacho azoado com uma sabatina que sofrera a respeito da eleio
da tal parquia, cuja existncia ele ignorava, pois era homem do Sul.
O oficial de gabinete ouviu no meio de um solilquio trgico estas
palavras inauditas:
- No se pode ser ministro assim!...
Tirando ento da pasta um caderno de papel com o ttulo de extrato
dos jornais, o pimpolho do estadista procurou um lugar marcado 
margem com uma cruz sinistra riscada a lpis. Era nada menos do
que o trecho elo quentssimo do publicista pernambucano.
Expediu-se nesse mesmo dia um reservado ao presidente exigindo
com urgncia informaes a respeito dos fatos escandalosos referidos
pela folha. A oposio em Pernambuco teve logo noticia do que havia,
e compreendendo o partido que podia tirar do incidente, remeteu para
a corte os objetos a que aludira o artigo, a fim de serem vistos por
ALGUM.
Foi portador o nosso jornalista. Chegando  corte fez-me o favor de
procurar como colega, e pedir que preparasse a opinio com um
artigo de minha lavra, confiando-me para este fim o pacote onde
estava o corpo de delito do grande escndalo. H embrechadas de
que ningum se livra: era esta uma das tais.
Atirei o embrulho a um canto muito resolvido a desculpar-me com as
minhas lidas, quando o homem viesse busc-lo no sbado prximo,
para a audincia que esperava. Nesse nterim, porm, caiu o
ministrio; e houve mudana na poltica.
Disseram nas cmaras que, tendo-se agravado os incmodos do
ministro do imprio, este insistira pela demisso, e o gabinete
julgando inconveniente uma reorganizao, resolvera retirar-se. O
pblico ouviu estas explicaes com o mesmo ar do homem da boa
sociedade quando o amigo se desculpa de o no ter visitado ainda,
7
por causa de incmodos de sade. Sabe-se que  uma calva mentira;
mas todos a aceitam e agradecem como uma prova de polidez.
A verdadeira causa da queda do ministrio s muito depois vim eu a
sab-la; e como no me pediram segredo, a vai sem tirar nem pr.
Recebendo o reservado do ministro da Justia, o presidente de
Pernambuco pressentiu que ali andava dedo de mestre; e
desenvolveu um zelo digno dos maiores encmios.  preciso notar
que nessa mesma ocasio o fedelho administrativo fora honrado com
uma particular do ministro do Imprio, na qual o novo Mazarin
insinuara habilmente esta mxima profunda: - Aos reis como s
crianas,  preciso engan-los para seu prprio bem.
Apesar de to salutar advertncia, o presidente porventura j
fascinado pelo irresistvel prestigio do absurdo, tomou ao srio o
reservado. No mesmo dia foi demitido o subdelegado da tal freguesia
com todos os seis suplentes; e o chefe de policia recebeu ordem de se
dirigir imediatamente quela localidade a fim de sindicar dos fatos
graves ocorridos durante a eleio.
Estes atos foram publicados na folha oficial. O chefe governista, que
depois do rompimento resolvera contemporizar, bufou. No primeiro
paquete veio o seu ultimato: A conservao do atual presidente 
uma calamidade. Meus amigos esto sendo sacrificados ao capricho
deste moo enfatuado; e a lealdade exige que eu os acompanhe na
adversidade.
Andava o ministro do Imprio muito desgostoso com os colegas
porque no conseguira fazer o genro baro. A carta do chefe
pernambucano foi um pretexto magnfico. Instou pela demisso do
presidente, o que no obteve, como de antemo sabia; pediu ento
respeitosamente vnia para retirar-se do poder, e foi-lhe
graciosamente recusada. No havia motivo para separar-se de seus
colegas; devia continuar a prestar bons servios ao pas, e juntos
deixarem o governo quando lhes viesse a faltar o apoio do parlamento
do que no havia receio. A sada de um membro do gabinete
isoladamente no era de boa poltica.
Tais foram pelo menos as palavras que o ministro do Imprio trouxe a
seus colegas reunidos em conferncia na casa do presidente do
conselho. O secretrio da Marinha, grumete de primeira viagem,
expandiu-se como uma papoula, convencido de que o ministrio
estava mais firme que rocha, e tinha vida para cinco anos, seno dez.
Qual no foi seu pasmo, vendo que o matreiro do ministro do Imprio
apesar daquelas palavras graciosas, insistia calculadamente pela
retirada, mas a pretexto de molstia; e que o presidente do conselho
anunciava com um riso jmbico a resoluo de acompanhar seu
colega: "Estava cansado e velho; devia passar o fardo a ombros mais
robustos."
8
A bom entendedor meia palavra basta. A trempe do gabinete
manobrava para alijar o colega do Imprio; mas aquela augusta
solicitude manifestada pela solidariedade ministerial, abriu-lhe os
olhos. Soara o buona sera; cumpria se despedirem logo, para no
representarem o papel de D. Baslio.
Assim operou-se a mudana poltica. Mal sabia a essa hora o maroto
do sacristo que ele tivera a honra de servir de pretexto a um
acontecimento to importante! Se o adivinhasse, no limitaria suas
ambies ao modesto lugar de inspetor, que arranjou-lhe o escrivo,
e  patente. de alferes que o novo presidente prometeu-lhe.
Decorreram oito ou nove meses.
A cmara fora dissolvida. O jovem escritor tinha sido eleito deputado,
e estava com assento na cmara. Um domingo por manh recebi sua
visita, em retribuio do carto que lhe deixara  chegada.
Conversamos a respeito de poltica; o autor do artigo sobre a
cabeleira do capito-mor pensava que tnhamos demasia de
liberdade; a imprensa especialmente carecia de um corretivo salutar.
Trouxe-me  memria o embrulho que ainda atravancava uma gaveta
de minha papeleira. Sem advertir que fazia um epigrama ao Ccero
pernambucano, perguntei-lhe:
- Que destino devo dar aos objetos que 1'. Ex.a me confiou? Quer que
os envie  sua residncia?
- Oh! no vale a pena! respondeu com um rubor de primeira
legislatura. A mudana, que se operou na poltica, tirou a estes
objetos sua importncia.
Ao sair encontrou-se a visita com um indivduo esguio, que subia a
escada. O feto ministerial no se dignou abaixar o augusto e
dignssimo olhar para a zumbaia do desconhecido, cujo ar beguino
cheirava de longe a morro de igreja.
Quem havia de ser o sujeito?
O marreco do sacristo, que j foi encaixado na Guarda Nacional
vinha  corte pretender um empregozinho para viver. Servia-lhe at
mesmo o oficio de seu amigo, o escrivo, arriscado a perd-lo por
certo desfalque no cofre de rfos.
- Dizem, acrescentou ele; eu no creio; talvez no passem de
calnias; mas enfim tudo pode acontecer.
Trazia-me o mirfico alferes uma carta de recomendao, que lhe
dava o direito de importunar-me uma hora a contar sua genealogia,
como prlogo necessrio e importante da biografia. Mas nunca um
tagarela caiu-me to a propsito do cu como aquele.
- Sr. Beltro, meus pequenos servios esto  sua disposio; mas
no tenho valimento.  bom que procure os deputados de sua
provncia.
9
- Qual, sr. doutor. So uns ingratos; j estou escarmentado deles.
No viu este que saa quando entrei? Depois que se encarrapitou, faz
que no conhece a gente. No gosto de falar... Mas se no fosse eu,
ele no estaria hoje - senhor deputado!
- Trabalhou a favor de sua candidatura?
O sacristo olhou-me com um sublime gesto de modstia:
- Fui eu que derrubei o ministrio passado.
- Ah!...
O Sr. Beltro tinha em um saguo ministerial travado conhecimento
com o correio do ex-presidente do conselho, que lhe referiu a verdade
verdadeira a respeito da queda do ltimo ministrio.
- Ora, concluiu ele; quem meteu o capito-mor na dana fui eu..
- Ento ele no perdeu a cabeleira na igreja?
- Qual cabeleira, sr. doutor. Aqueles cacarecos velhos estavam
escondidos numa caixa do defunto vigrio, que a tinha metido no
armrio da sacristia. Eu  que arranje: a tramia com o escrivo.
- Pois Sr. Beltro, j vejo que h de ser bem sucedido em sua
pretenso. Um homem de seu talento deve ir longe.
Foi-se afinal o sacristo. Tornando ao gabinete, depois de uma manh
perdida, deu-me a curiosidade de examinar as antigualhas do
embrulho, antes de mand-las para o lixo. O rolo de papel, que o
escritor pernambucano, jurando na palavra do escrivo, qualificara de
mao de cdulas e como tal fora visto por vrias pessoas; era nada
menos do que um tesouro.
Era o manuscrito de uma crnica indita da Guerra dos Mascates.
Devorei o cartapcio e desde logo fiz teno de o tirar a lume,
espanando-lhe de leve as roupagens do estilo, que me pareceram um
tanto poentas. S agora, no remanso destas frias,  sombra de umas
jaqueiras que sem dvida competem com as faias virgilianas, se pde
levar a cabo a grande empresa; e no sei como, l se meteram pela
velha crnica uns cerzidos ou remendos de estofo moderno, que
seguramente lhe tiram seu ar carrana, o melhor sainete do
manuscrito.
Esta advertncia, bem se v que era imprescindvel, para evitar certos
comentos. No faltariam malignos que julgassem ter sido esta crnica
inventada  feio e sabor dos tempos de agora, como quem enxerta
borbulha nova em tronco seco; no quanto  trama da ao, que
versa de amores, mas no tocante s cousas da governana da
capitania.
Pois no lograro seu intento; que o pblico a fica munido do
documento preciso para julgar da autenticidade desta verdica
histria.
Se os tempos volvem como as vistas de uma marmota, e as
figurinhas c do prespio da terra entram para sarem, com os
10
mesmos engonos e geringonas, embora metidas em trajos
diferentes; disso no tem culpa o cronista. L se avenham com o
mundo, que  o titereiro-mor de tais bonecos.
O que se tira agora  estampa forma apenas a primeira parte da
crnica, e bem se pode chamar o Prlogo da comdia, que a seu
tempo, quando houver folga e pachorra, tambm vir a lume.
Tijuca, dezembro de 1870.
S.
NOTA
Sai tardio e j fora de sazo este primeiro volume de uma obra que
podia bem estar a esta hora no rol dos alcaides de livraria.
Tendo entrado nos prelos em 1871, como se v do frontispcio, s
agora 1873 vem a lume, e ainda assim desacompanhado do outro
tomo, que lhe serve de parelha.
A culpa  do autor e ele a confessa contrito.
Poderia alegar em seu favor que logo depois de remetido  tipografia
o original, teve necessidade de ir a Baependi fazer uso das guas de
Caxambu, que lhe eram aconselhadas.
Nem venha o leitor com a sua contrariedade, lembrando que nesse
decurso escrevia ele o Til, para o folhetim da Repblica.
 o Til desses livros que se compem com material prprio, fornecido
pela imaginao e pela reminiscncia; e que portanto se podem
escrever em viagem, sobre a perna, ou num canto da mesa de jantar.
No sucede o mesmo com um romance histrico, e ainda mais em
nosso pas onde as fontes do passado nos ficaram to escassas, seno
muitas vezes exaustas.
Para decrever a nossa sociedade colonial  necessrio reconstrui-la
pelo mesmo processo de que usam os naturalistas com os animais
antediluvianos. De um osso, eles recompem a carcaa, guiados pela
analogia e pela cincia.
O escritor que no Brasil tenta o romance histrico, h de cometer
antes de tudo essa rdua tarefa de recompor com os fragmentos
catados nos velhos cronistas a colnia portuguesa da Amrica, tal
como ela existiu, a separar-se de dia em dia da me ptria, e j
preparando o futuro imprio.
Imagine o leitor a cpia de livros de que tem de cercar-se o autor; o
isolamento a que deve sujeitar seu esprito a fim de identific-lo com
esses rgos do passado; a leitura incessante que lhe  necessria
para saturar-se da antiguidade que se exala dos velhos alfarrbios.
Isto no se faz em viagem, e ainda menos em viagem de terra, pelos
caminhos que temos, e com as pocilgas que s vezes servem de
pouso a por esse interior.
11
Bem saudades levava eu dos meus personagens da Guerra dos
Mascates, com os quais me habituara a tratar, e a quem j conhecia
to bem, que os distinguia de longe pelo gesto ou pelo andar.
Quando, de volta de Caxambu, de novo os procurei, j no eram os
conhecidos que eu tinha deixado; e custou-me a entrar de novo em
sua convivncia.
Este inconveniente, eu o noto todas as vezes que interrompo alguma
obra. Se ela ganha pela reflexo, perde muito da energia e
abundncia que tem o primeiro arrojo da concepo.
A idia de um livro, para aqueles que o escrevem de inspirao, brota
de uma ebulio do pensamento, como a planta do germe que
fermenta no solo.
Essa ebulio traz consigo toda a seiva do livro como no torro em
que vem o broto h o sal da terra, que deve formar o lenho, as folhas
e a flor da rvore.
Uma vez apagada a efervescncia d'alma, sem que o livro esteja
concludo,  muito difcil reproduzir o fenmeno, e nunca ele volta
com a mesma exuberncia e o brilho da primeira expanso.
Malfadada nasceu esta crnica, pois quando o autor se julgava
tornado a ela, arrancou-o a enfermidade para lev-lo outra vez em
triste peregrinao, mas desta vez pelos arrabaldes da cidade.
C ficaram as provas a rever, e os materiais do segundo volume outra
vez fechados na pasta  espera de uma folga, que s veio decorrido
um ano, e depois de profundos desgostos.
Acudir o leitor com o Garatuja, que h poucos dias foi dado 
estampa?
O Garatuja estava feito; faltava-lhe apenas a forma. A cidade colonial
de So Sebastio, eu tenho-a tantas vezes estudado e discorrido por
ela, que j a conheo melhor do que a cidade imperial em que
habitamos.
Foi para mim um andino ao tdio da molstia, essa crnica
despretensiosa, escrita sem esforo nem cuidado, com o maior
desalinho. Outra sorte desejava eu para a Guerra dos Mascates, que
todavia sai mau grado, tanto, se no mais, descuidada na
composio, como na reviso.
Era minha inteno acompanhar este volume de notas, com referncia
 parte histrica da obra, mas sobre faltar-me o tempo, careo da
pacincia para esse trabalho to fastidioso, quanto em geral
desdenhado.
A Guerra dos Mascates  talvez dos fatos da nossa histria colonial
aquele de que nos ficaram mais copiosos subsdios. Temos acerca
dessa grotesca revoluo o informe dos dois partidos, os quais, como
sempre acontece, exageraram cada um por sua conta.
12
Dos personagens, que a histria memorou, o principal  sem dvida
Sebastio de Castro Caldas, governador e capito-general de
Pernambuco, posto ao qual foi promovido depois que deixou o
governo da Capitania do Rio de Janeiro, onde serviu entre os anos de
1695 a 1697.
De seu carter, como dos fatos que referem os cronistas, no
carecemos de ocupar-nos aqui, pois melhor se vero do texto da
obra, especialmente do segundo volume, onde a ao se desenvolve.
Foi este governador muito caluniado, em seu tempo, acabando por
lhe faltarem os amigos e defensores, em qualquer dos partidos; at
mesmo naquele a quem por ltimo se entregara.  a sorte dos
caracteres dbios e perplexos, que dirigindo todo seu esforo a
manter-se em equilbrio entre as idias e os homens, quando uma vez
falseiam, no acham esteio e despenham-se.
Copiando-lhe o vulto histrico, alm de vingar sua memria contra a
injustia e o aleive dos coevos, erigi em vera efgie, para exemplo dos
psteros, a esttua dessa poltica sorna, tbia, sorrateira e esconsa,
que  maneira da carcoma ri e corrompe a alma do povo.
Quanto aos outros personagens, tanto os que vieram  tona da
histria, como os outros que a onda dos acontecimentos submergiu,
no so mais do que os manequins da crnica, semelhantes s figuras
de pau e cera em que os alfaiates e cabeleireiros pem  mostra na
vidraa roupas e penteados.
Se o leitor malicioso quiser divertir-se experimentando carapuas, o
autor desde j protesta contra semelhante abuso e pelos prejuzos,
perdas e danos que dai possam provir a seu livro, o mais inocente de
quantos j foram postos em letra de frma, desde que se inventou
esse gnio do bem e do mal chamado imprensa.
12 de maio de 1873.
13
GUERRA DOS MASCATES
PRIMEIRA PARTE
O PRLOGO
CAPTULO I
A JANELINHA REBUADA DO STO DA CASA NOVA DO PERERECA
A tarde do dia 1 de outubro de 1710 no teve cousa de maior.
Foi uma tarde como qualquer, em fazendo bom tempo. O sol tinha a
cara dos mais dias, a pela volta das quatro horas que seriam ento;
nada mais, a no ser uma carapua de algodo que l as nuvens
haviam encasquetado na cabea do astro para guard-lo de constiparse
com o relento.
E o mais  que assim encarapuado, Febo, como ainda o chamavam
ento os poetas e os namorados, fazia a figura de um Xerxes trajado
 moda de rei constitucional, de casaca e chapu redondo.
O cu estava azul mais ou menos; o mar pelo mesmo teor; levanta-se
a virao e as rvores tinham o verde do costume, misturado com
alguns ramos secos e folhas murchas. Tambm deviam de cantar
pelos arredores alguns passarinhos; no falando das flores que sem
dvida estrelavam o campo.
Agora, se era de cetim o manto do firmamento, e de safira a redoma
do oceano; se as auras suspiravam amores nos seios das boninas, e
arrulhavam saudades as rolas melanclicas, enquanto as aucenas
abriam as suas caoulas cheias de perfumes, no sei eu: que no o
diz a crnica.
Mas por isso no haja queixa. Tome cada um de sedas, pedrarias,
endeixas e fragrncias, quanta poro queira, e v enfeitando e
arrebicando a minha descrio a seu gosto. Eu c prefiro a
simplicidade, que  o mais cmodo de todos os estilos; basta ver que
forra-se a gente ao trabalho de fantasiar, e deixa isso ao leitor.
H nada como aquele modo cho de principiar as histrias da
carocha? - Foi um dia... E cada um que imagine o tal dia  sua feio,
de inverno ou de vero, de outono ou primavera, como lhe saiba
melhor.
Pois era uma tarde... e a janela do sto, na casa do. Perereca, abria
manso e manso fazendo uma fresta, onde se mostrou a medo a ponta
arrebitada do mais lindo narizinho retorcido de que h notcia desde
14
Aglaia, a qual o tinha de primor, valha a fbula, como a graa que era
do chiste e da malcia, donde veio chamarem-na os gregos de
esplndida.
Agora vejo que no se conhece ainda a casa, nem o lugar em que
estava situada, sem falar de outras particularidades, que no deixam
de ser curiosas, com especialidade o dono; pois, e no digo novidade,
se em geral os prdios so cousa de seu proprietrio, tambm donos
h que so acessrios de sua casa.
Estamos no Recife.
Andando a Rua da Praia dos Coqueiros, no bairro de Santo Antnio,
quem ia naquele tempo do Colgio para as bandas das Cinco Pontas,
quase a meio caminho encontrava um vasto edifcio que ficava
fronteiro  barra; ainda a Rua da Mar com sua casaria no se tinha
prolongado at aquele ponto da ribeira.
Larga e baixa, a casa terreira acaapava-se entre o arvoredo do
quintal que a beirava de um e outro lado; mas dava logo nas vistas
pela especialidade da pintura extravagante com que a haviam
lambuzado, pois outra qualificao no quadraria  incrvel borradela.
Tinha cerca de quatro anos o edifcio. Acabada nele a obra de pedreiro
e carapina, quando se teve de passar ao artigo pintura, vieram as
tribulaes para o dono, o digno Sr. Simo Ribas, mascate de peso e
marca entre os principais do Recife.
No sei se j ai por essa monarquia domstica tinham inventado o
governo pessoal, e usavam as calas responsveis meterem-se por
baixo da saia inviolvel. C, no meu alfarrbio, s vejo que houve
muita rezinga e altercao, acabando o bate-barba ou questo de
alcova, como de costume, com o triunfo completo da trunfa, que era
ento, como o coque  hoje, a coroa domstica.
Sabidas as contas, decidira a Sr.a Rufina Ribas que a fachada fosse de
uma cor farfante e para ver-se a lguas, l do alto-mar. Antes de
surdir o navio pelo Lameiro adentro, queria a respeitvel matrona
que sua casa nova entrasse pelas vistas da gente que vinha da santa
terrinha.
Nem por sombras ocorreu ao marido a idia de opor-se  vontade de
sua dona. Era um marido constitucional o Sr. Simo Ribas; e no h
ai ministro corteso, a que ele no levasse as lampas na arte insigne
de fundir-se, como cera, em figurinhas moldadas ao capricho
mulheril. No foram, pois, assomos de resistncia que perturbaram a
paz domstica; ao inverso, proveio tudo de excessos de zelo e
obedincia.
Chamado a conselho o exmio borrador a fim de dar alvitre sobre o
caso, foi de voto que no havia como o zarco, para fazer o gosto 
Sr.a Rufina. Dito e feito: no dia seguinte amanheceu a parede
assanhada com uma crosta do mais coruscante vermelho.
15
Muito ancho de si, o digno mascate j se regozijava de ter uma vez na
a feito as cousas ao agrado da querida metade, quando lhe veio ela
deitar gua na fervura. Esguelhando  parede um olhar impertinente,
espevitou o nariz, torceu o beio, e deu um muxoxo, que erriou os
cabelos ao marido.
Barulh0 no caso: novo apelo ao borrador que gizou a combinao do
verdete com o zarco; e assim, de rezinga em rezinga, chegou-se
quele espalha. fato de todas as cores, onde o azul brigava com o
encarnado, o verde com o vermelho, e o roxo-terra com o amarelo da
oca. Era cousa indescritvel, que o prospeto de algumas tabernas de
hoje ainda no conseguiu imitar.
Nos primeiros dias esteve a casa de mostra aos basbaques e
pasccios que por l iam, para se pasmarem diante daquela
maravilha. Por um ms no se falou no Recife doutra cousa; at que
um dia l apareceu pela manh escrito a carvo, na frente, este
dstico maligno - Perereca.
Lavou-se da parede a tisna, mas a alcunha ficou ai fisgada  casa,
como se a tivessem gravado em bronze. Fora o brejeiro de um rapaz
que, voltando a ave-maria da escola e ouvindo cantar a r numa
toua de bananeiras, lembrou-se da semelhana que tinha com a
frente da casa, e escreveu-lhe o nome na parede. Ao outro dia, antes
que apagassem as letras, sucedeu passarem ai um frade, uma
comadre e um soldado. Leu o franciscano em voz alta, se julgando a
ss, e riu-se: ouviram-no os dois que atinaram com a graa.
Tanto bastou para que ao meio-dia se soubesse em todo o Recife do
acontecido; e, pelo plebiscito do motejo unnime, a casa sarapintada
ficou sendo conhecida pelo nome expressivo de - Casa do Perereca.
Cobria o edifcio um telhado de largas abas e alto cocuruto, que
lanava em cada quina uma ponta de barro com pretenses a figura
de marreca. Nas duas faces laterais erguiam-se as guas-furtadas do
sto, que rasgava duas janelas, uma para cada banda.
Na janela da direita, que durante o dia estava aberta sempre, de
costume estendiam em um cordel passado de uma  outra ombreira
certa colcha de chita de ramagens, que ao sopro do vento
desfraldava-se  guisa de estandarte. Quem tinha a dita de conhecer
a Sra. Rufina Ribas, acertando de passar por aqueles stios e dando
com o espantalho da tal coberta, adivinhava logo que era da garrida
matrona essa janela.
Tinha outro ar e outros modos a janela da esquerda. Comeava logo
por uma latada que lhe haviam armado em volta, e lhe servia como
de capuz, com as ramadas do maracujazeiro, entrelaada pelos
escaques do caramanchel. Dava-lhe isso,  tal janelinha, uns biocos
de freira, mas de freira moa e bonita, que l do remanso do claustro
16
enfia pela grade uma olhadela curiosa e vida do burburinho do
mundo.
Outra diferena vinha de estarem as adufas da direita sempre
cerradas, em horas soalheiras; nisso pareciam-se com o clice de
certas flores e com os clios da juriti, que fecham-se pela muita luz e
s abrem ao doce toque do crepsculo. Todavia no eram elas to
recatadas do sol, que no se descerrassem l uma ou outra vez, na
calma do dia, sobretudo aos domingos, para deixar que entrasse
algum raio fagueiro pela cmara do sto.
No estreito eirado, rente com o peitoril, havia trs vasos de barro
onde cresciam vrias plantas. A mo que reunira ai o alvo bogarim, a
rubra cravina, o goivo amarelo e os bagos escarlates da pimenta, esse
conjunto singular lhe estava denunciando a travessura. Se  verdade,
e eu creio, que a alma imprime nos objetos que a cercam a sua
prpria feio, podia-se ver naquele grupo de plantas o enigma de um
corao.
No seria o alvo bogarim o reflexo da candidez, como as ptalas da
cravina a imagem dos vivos rubores de uma petulante castidade? O
goivo, ali na manso da juventude, no exprimia a descuidosa alegria,
que orvalha de risos at as horas aziagas? E naqueles bagos
vermelhos e brilhantes da pimenta, no havia qui o emblema das
unhas de ncar, habituadas a insinuar no afago o belisco traioeiro?
Afinal de contas, quem sabe se apesar de todas as suas mostras
encantadoras no estava a tal sonsa da janelinha enganando a gente
que passava, como certas moas do tempo de hoje, cujo fraco 
porem-se s vessas; quero eu dizer, e sem malcia, que se
empenham com todas as foras para fazerem-se outras, das que as
criou a natureza.
Assim tosquia-se para fazer cachos, aquela que Deus ornou com a
tnica mais bela, que  uma soberba madeixa. Se no a possusse,
havia de esmagar a cabea com uma trouxa enorme de cabelos
postios. Estufa-se a magra com enchimentos para simular contornos,
como a gorda se espartilha e acocha para figurar de esbelta. E nesse
teor, enganando-se a si e aos outros, vai o mundo a rolar como uma
bola que , levantando estes e abaixando aqueles, mas por fim
esmoendo a todos.
Eis porque no seria caso de espantar, se naquela janelinha to lou
viesse a aparecer uma velha encarquilhada, descobrindo-se afinal que
o nosso narizinho retorcido no passava da ponta fungada do cavalete
setuagenrio de um respeitvel par de culos de tartaruga.
Tudo pode ser.
17
CAPTULO II
A LEBRE NA TOCA E O VEADO NA MOITA
J batia a sombra no peitoril, quando se entreabrira a adufa da
janela, mostrando a ponta retorcida do gentil narizinho.
Dir-se-ia que ele farejava como uma lebre arisca, tal era sua
volubilidade, se no fosse mais natural presumir um olhar, que ainda
se no distinguia, coando pela fresta, a espreitar os arredores. Como
nada aparecia de suspeito, as duas abas correram, escancarando-se
de par em par com arrebatamento igual da timidez anterior.
Assim abrem-se tambm as asas do passarinho, que h pouco titilava
dentro do ninho, e j talha os ares com o vo rpido.
No vo da janela mostrou-se o busto de uma menina; mas o que
primeiro se viu, seno somente, pois arrebatava os olhos todos e a
alma, foi a cabecinha cheia de papelotes, que se enroscavam entre os
anis do cabelo negro. Nunca flores, nem prolas, ornaram uma
fronte fidalga como aqueles crespos de papel.
Trazia a menina os bolsos do avental cheios de gomos de cana,
cortados  feio de chupar; e naquele momento, seus dentes
brancos e polidos como o jaspe mordiam uma talhada, que lhe
arregaava graciosamente os lbios purpurinos. No prazer com que
ela trincava a fibra da cana, sugando-lhe o mel, adivinhava-se o
segredo dessa boquinha faceira.
No era boca para embeber-se na delcia de um beijo ardente, com a
nsia da paixo que imbui uma alma na outra, fundindo-as em
delquios de amor. No o era decerto; mas para trincar um corao,
como se fosse um gomo de cana, ou para esgarar a vida de um
msero amante, como o bagao que segurava entre os dedos, isto
sim: podia-se jurar.
Quem admirou a fina polpa desse lbio e no viu logo as semelhanas
da ptala de rosa cobrindo o espinho, ou do bago da pitanga onde
acaso insinua-se o farpo da abelha? Desses lbios, quando ele,
alguma vez se abrocham em boto, no h fiar; so beijos de morder,
os que eles sabem, caricias que pungem n'alma e a deixam em
piques. Por isso esto sempre a rir, no tanto de alegria, como pelo
gosto de mostrar o dentezinho branco, sutil e afilado como o dardo da
spide que se escondesse em um aljfar.
Mas naquele rosto gracioso, o primor no eram nem a boca brejeira e
os cabelos cacheados, nem os olhos pretos que faziam ccegas no
corao, nem mesmo a covinha da barba, que um poeta chamaria o
ninho das graas. Era... Adivinhem!... Era o narizinho retorcido, que
no meio daquelas gentis feies, parecia um anjo traquinas dentro de
um bero de boninas.
18
Quando encontro um desses narizes arrebitados, j se entende, em
rosto de moa, cuido estar vendo um passarinho, que arrufa-se de
clera e empina a cabea, pronto a lanar a bicada. Reparem bem;
depois digam-me se nesse retorcido gracioso de uma ventinha rsea e
transparente, no est a esculpido na sua mais bela forma o
capricho. E se no sabem o que seja capricho, posso confiar-lhes este
segredo de minha inveno:  um colibri que tem o ninho no corao
de certas moas, e chupa-lhes o mel de todas as flores d'alma.
Chupando os gomos de cana, ia-os a menina dos papelotes
arranjando um perto do outro, em fileiras, sobre o batente da janela;
no cuidado com que o fazia, e certo arzinho lesto, se estava
denunciando o pensamento de uma travessura, de que ela j
saboreava o gostinho.
De vez em quando relanceava um olhar pela praia fronteira do bairro
do Recife, desde o Forte do Matos at  ponte, que unia as duas
margens, e da qual os tetos das casas e arvoredos dos quintais no
lhe deixavam avistar seno a extremidade oposta. Entretanto, se
acontecia farfalharem as folhas com alguma rajada mais fresca da
brisa do mar ou com o arranco de alguma rola assustada, estremecia
a fingida e punha-se alerta.
Reparando nas plantas dos vasos, que formavam seu jardim, o
narizinho arrebitado achou-as lnguidas e tristes com o calor do dia, e
lembrou-se de reg-las.
Foi dentro buscar um moringue d'gua, dos bojudos e pesados como
os costumam fazer ainda hoje; e a custo, erguendo-o com ambas as
mos para vencer-lhe o peso, conseguiu deit-lo no peitoril da janela.
Da inclinando-o, tomava ela os bochechos d'gua, que deitava sobre
as plantas, de bruos ao parapeito para alcanar o vaso.
Uma carria, que tinha construdo o ninho no vo de uma telha, desde
instantes folgava defronte da janela, traando no ar os adejos, como
costuma, a voar e revoar no mesmo lugar.
Convidada pela frescura d'gua, foi esconder-se entre as folhas
rociadas do bogarim, e bebeu uma gota que tremulava dentro da
nvea corola da flor. Invejou a menina dos papelotes aquela
travessura, e sentiu no ser passarinho para faz-la.
Que  isso? Temos novidade?
Ergueu-se rpida a cabea dos papelotes; os olhos vivos lhe
cintilaram de prazer, fitando um objeto, l da outra banda.
Seria acaso um rapazola que desembocava apressado da Rua do
Azeite na da Madre de Deus, e depois de quebrar a esquina, voltando
a cabea para assegurar-se que o no seguiam, deitara a correr na
direo da ponte?
Bem pode ser, porque os olhos buliosos, agora atados, vieram
seguindo passo a passo pela praia o sujeitinho, at passar o arco e
19
entrar na ponte onde o esconderam as casas. Todavia continuaram os
olhinhos caminheiros a andarem pelo ar uma certa vereda que l eles
conheciam de a terem batido muita vez, e que, era eu capaz de
apostar, vinha cair a perto, entre os cajueiros e mangues do areal da
Penha, mesmo naquele claro para onde est olhando agora a curiosa.
Debruada sobre o peitoril, com as mos seguras ao batente onde
apoiava o seio, o pescoo estendido e o ouvido alerta, tinha a menina
o jeito de uma lebre agachada  boca da toca sobre as patas
dianteiras, com as orelhas crespas, de espreita ao perigo. Este no
andava longe.
Atravessando a ponte e seguindo pela Rua da Mar, o garoto ganhara
o arvoredo alm da coroa de areia onde se elevava o convento de
Nossa Senhora da Penha de Frana. Ai parou um instante, com a
ligeira hesitao da esperana que receia um malogro.
Era ele um belo rapaz de dezessete anos; no obstante a pouca
idade, mostrava no gentil parecer tal ardimento, e no talhe bem
composto um donaire firme e resoluto, que imprimiam em sua graa
adolescente uma encantadora bizama.
Com um movimento que parecia habitual alisava um bigode ausente,
o qual apenas se anunciava pela macia pubescncia do lbio superior.
Em falta dos longos plos que repuxasse em momentos de enfado, 
moda dos veteranos, pagavam os cantos da boca fresca e rosada.
Outro sestro que se lhe notava era dar  ilharga, em andando, certa
descada como o soldado que traz espada  cinta e furta levemente o
quadril para no embaraar a marcha. Bem diverso era o instrumento
de que vinha ele armado: sobraava um basto chanfrado de
jacarand com a medida portuguesa de vara e cvado, e trazia s
costas uma burjaca de couro de Moscvia cheia de fazendas e
miudezas, objetos estes de que no se pudera antes desvencilhar com
receio de perd-los; mas naquele momento vingou-se com usura.
- Arre! No est longe o dia em que te hei de meter no fogo!
exclamou atirando a vara ao cho e dando-lhe por cima um pontap;
e o saco foi pelo mesmo caminho e teor.
Vestia o rapaz, ao uso do tempo e de sua condio, jaleco, vstia e
caliles de belbute da mesma cor parda, com meias cruas apertadas
abaixo do joelho e sapatos grossos de couro acamurado, com fivela
de estanho. Pelo trajo via-se que era filho da gente do meio, como se
designava ento a classe que nem era a nobre, nem a mecnica;
mas. ficava entre ambas, e se compunha daqueles a quem o ofcio ou
arte liberal privilegiava com certa iseno. Deste nmero eram os
mercadores de tenda aberta.
Quem, pois, visse passar pelas ruas do Recife naquele tempo o
esperto garoto com a vara embaixo do brao e a burjaca ao ombro,
20
reconhecia-o logo pelo moo de um mascate, ou seu caixeiro de rua e
balco.
E no se enganaria, pois tal era o mister que tinha o Nuno na loja de
seu pai, o mercador Miguel Viana.
Curta foi a hesitao do rapaz. Meteu-se entre as rvores e
aproximou-se sorrateiramente, afastando os ramos para aprochar a
casa. Se do lado da casa-a lebre espiava, de c era o campeiro que
passava sutil travs da folhagem, aspirando as baforadas do ar e
pressentindo um hlito suspeito de envolta com as emanaes da
brisa e os eflvios das flores.
Afinal, de espreita em espreita, l chofraram-se os olhares de ambos,
a modo de plas que se encontrassem no ar e retrocedessem. Como
figurinhas de artifcio tocadas por mola oculta, tomaram de sbito
vria postura. O rapaz, voltando costas  janela, apanhava no cho
um ramo seco e partia-o em pedaos, que lhe serviam para atirar 
copa das rvores, com o disfarce de abater algum fruto. Quanto 
menina, de um pice escondera-se atrs da ombreira da janela,
debulhando nos lbios um riso malicioso, que ralhava com o rubor
derramado pelas faces, da mesma forma que os dedos traquinas
estavam s voltas com os alamares do justilho.
Passado um momento, como o Nuno parecia em verdade ocupado
com as rvores, o narizinho retorcido que se animara a espiar com o
canto do olho pela quina da ombreira, foi a pouco e pouco, de susto
em susto, j ousado, e j trmulo, mostrando-se pela face interior,
at que afinal surdiu fora de novo, embora um tanto arisco e
desconfiado.
A a esperava o fingido moo, que tendo visto de esguelha toda a
mmica, voltou-se de supeto; mas, se ouviu um gritozinho
semelhante ao da carria, no enxergou mais que uma sombra a
desvanecer-se na obscuridade da recamara.
To viva e ligeira como ele, a menina frustrou-lhe a travessura,
escondendo-se de novo.
Duas ou trs vezes repetiu-se a pantomima, e o rapaz sempre
logrado; at que amuou-se, e trepando em um galho d'rvore,
sentou-se de costas para a janela, a balanar as pernas e a repetir a
cantiga de um folguedo muito em voga ento:
Uma, duas, argolinha,
Finca o p na pepolinha;
O rapaz que jogo faz,
Faz o jogo do capo,
O capo sobre o capo,
Conta bem, Manuel Joo;
Conta bem que vinte so;
21
E recolhe este pezinho
Na conchinha duma mo.
CAPTULO III
ENTRAM EM CENA A RONHA E A BILIS DO GOVERNO DA CAPITANIA
Debalde a faceira veio estouvadamente debruar-se  janela; debalde
comeou a espantar os passarinhos com um certo ch dos lbios que
riam-se arremedando um psiu; debalde contrariada pela
impassibilidade do rapaz, tirou do peito uma tosse fingida, que, se
no me engano, acabou por um suspiro mavioso.
No se abalava o rapaz, que era pirracento, seno ardiloso. Mas que
bigode, quando mais buo a pungir, h a que vena em manha e
teima a um narizinho retorcido? Mostrem-mo, se so capazes.
Acaso tocara a menina com o cotovelo na ruma de bagaos de cana,
que alinhara sobre o peitoril, e dos quais se esquecera um instante.
Segurou o primeiro na ponta dos dedos, e zs, fez alvo no rapaz que
no se mexeu. Ao quinto ou sexto tiro todavia, o inimigo inclume,
pois nenhum dos projteis acertara nele, deu sinal de baleado,
tombando de repente para trs.
Rodar sobre o galho como um corrupio, virar no ar uma cambalhota,
e cair de p, em frente da janela, foi para o rapaz negcio de esfregar
um olho. Quando a travessa o procurava no ar, j estava ele quase
embaixo da janela, fazendo-lhe por despique um momo de simulado
espanto.
- H!...
J era tarde para fugir, se  que ela nunca teve tal idia, e no se
deixara muito de propsito apanhar dessa calculada surpresa.
Contudo fez meno de hesitar, enleada no melhor partido; e foi ela
soltar a risada gostosa que lhe estavam provocando os gatimanhos do
moo.
Comeou ento o desafio das risadas e das ligeirezas; porque ela
procurava acert-lo com o bagao de cana, que ele evitava com saltos
e furtadelas de corpo; da as negaas e os enlios de parte a parte,
at que partia o tiro; se errava o alvo, como quase sempre acontecia,
Nuno fazia uma careta:
- Uh! Uh!...
22
E eram gargalhadas da menina e trejeitos do moo, que se divertia
com aquele folguedo apto ao seu gnio trfego e petulante.
Acabados os projteis, meteu a menina a mo no bolso e tirou um
gomo de cana, mas em vez de o jogar, comeou com ele a fazer
foscas ao moo, ora fingindo que o chupava, ora acenando que lho
queria dar em mo.
- Quer? perguntou afinal.
- Atire!
- L vai!
Aparou o moo nas mos o gomo de cana e chupou-o logo: depois
outro e outro at o ltimo.
- No tem mais! dizia a menina virando os bolsos.
- Que pena!
Desde que no havia mais travessuras, sentiam-se os dois enleados;
j no se animavam a olhar um para o outro, nem a trocar palavra.
O rapaz estendia os olhos para o caminho e suspirava; a menina j
no se debruava  janela, e de vez em quando voltava-se para
dentro.
Desse lado da casa havia um tapume tosco e em muitos pontos
aberto pela gente que, para encurtar caminho, atravessava os
terrenos da quinta, na direo dos Mogados. Favorecido pelos hbitos
dos moradores que deixavam essa parte da habitao deserta
naquelas horas, Nuno se aproximara sem despertar a ateno, e
como cada tarde ia conquistando mais terreno, estava ento junto ao
tronco de uma pinheira que lanava os galhos para o telhado.
Lembrou-se de trepar; era uma travessura. Nisso uma voz aguda
chamou do interior:
- Marta!
Correu para dentro a menina, e com pouco voltou, comendo uma
cocada que a me lhe dera, e com a qual se preparava para fazer figa
ao camarada; mas no o viu. Cansada de procur-lo entre as rvores
e despeitada da pea que lhe pregara, ia retirar-se murmurando:
guerra dos mascates 171
- Deixa-te estar, marotinho!
Eis que surge-lhe pela beirada do telhado a cabea do estouvado
rapaz, trepado na pinheira, donde conseguira alcanar com a mo as
travessas ou cachorros, como lhes chamam os carpinteiros. Com o
susto que sofrera e o receio de que descobrissem o rapaz naquela
posio, Marta acenou-lhe com a mo que descesse:
- Um ninho! disse Nuno olhando pelo interstcio das telhas.
- Aonde? perguntou a menina j picada pela curiosidade.
- Aqui.  o da carria!
- Tem ovos?
- Dois!
23
- Ah!...
- Quer?
- No!
Esse no, disseram-no vivamente os lbios de Marta, mas os olhos a
desmenti-los estavam morrendo de desejos de ter o ninho com os
ovos dentro. J este passara do vo da telha para a mo do rapaz que
o mostrava:
- Olhe!
- Que bonito! exclamou a menina com o prazer supremo da criana,
que se atira para o brinquedo e parece meter-se por ele para melhor
o possuir.  talvez por essa veemncia do gozo infantil, que os
meninos quebram logo as tetias de que mais gostam.
- Tome! disse Nuno fazendo meno de levar-lhe o ninho.
- No, no! respondeu Marta com espanto, querendo fugir da janela.
- Ento levo para Isabel.
- Pois sim!
Desconsolado metia Nuno o ninho no peito da vstia, e preparava-se
para descer, enquanto de seu lado Marta arrufada consigo mesma,
olhava  sorrelfa o camarada, com sorriso insosso. O rapaz cogitava
um pretexto para ficar; a menina tinha medo que ele o achasse, mas
sentia que se fosse to depressa.
De repente uma voz de tom imperioso soou perto, que produziu nos
dois o natural espanto e soobro de se verem surpreendidos em
flagrante delito de travessura:
- Que fazes tu a, garoto?
Com estas palavras, ressoou tambm o estrpito de uma brilhante
cavalgata, que se aproximara sem rumor por causa da areia, e estava
agora parada na rua, aqum do canto da casa, onde passava a cena
anterior.
A figura proeminente do troo era um cavaleiro de grande porte e alta
estatura, que ento ocupava o centro na testa do primeiro grupo.
Oraria pelos quarenta anos; tinha olhos pequenos e ornava-lhe o
rosto alvo densa barba cinzenta, fina e macia, que disfarando a
aspereza das linhas inferiores, corrigia-lhe o oval do semblante.
De perfil, porm, acentuava-se a projeo do queixo, bem como a
proeminncia da fronte, que se distinguia sob a aba do chapu de
castor, guarnecido a cairel de ouro. Nessas duas salincias da
fisionomia estava, como em relevo, desenhado um carter.
A pertincia, no a da perseverana como a praticam os nimos
robustos que sabem querer, e sim a da obstinao prpria de
naturezas tmidas, que se aferram ao pretexto; a resistncia da
dvida, alimentada pela ndole da contradio; o molde da parte
posterior do rosto o estava retratando.
24
Anunciava inteligncia a fronte aberta; e todavia a testa bombeada
acusava nesse contorno arredondado do crnio um trao feminino.
Via-se a a frma do talento do detalhe, ou melhor, da maleabilidade
do engenho, que se presta a vrios misteres ao mesmo tempo,
contanto que todos calhem na bitola.
Era nobre e viril o parecer do cavaleiro, especialmente em repouso;
mas desde que se punham em ao suas faculdades, desprendia-se
delas um prurido de atividade sfrega e volbil, que desconcertava a
compostura do semblante, como do talhe. Falava rpido, com a
palavra difusa e a voz estridente; demasiava-se no gesto; e em todos
os seus modos punha tal alacridade, que devia-lhe algumas vezes o
esprito titubear, enleado naquela meada de idas e vindas, de passos
e voltas, em que se comprazia o seu gnio infatigvel.
Casaca de veludo castanho com mangas de bota e guarnecida, como
o chapu, de cairel de ouro; volta de renda, laada ao pescoo, e da
qual lhe caam as duas pontas largas sobre o peito da vstia de cetim
azul com ramagens brancas estampadas; talim de veludo que
suspendia a rica espada; broches de pedraria na presilha do chapu,
nos punhos do camisote e na atadura dos cales de brocado
amarelo: assim vestia o cavaleiro.
Trajo esse para fidalgo de grande estado, novo e aprimorado da
fazenda como do feitio, bem longe de sobressair na compleio bem
proporcionada do cavaleiro, parecia, pelo desleixo com que o trazia
ele, j amarrotado do muito uso.
Tal era Sebastio de Castro Caldas, governador e capito-general de
Pernambuco.
 direita ficava-lhe o Capito Barbosa de Lima, secretrio do governo;
 esquerda o Capito Negreiros, primeiro ajudante-de-ordens. Seguiase
o Tenente Bernardo Alemo, segundo ajudante-de-ordens, com o
alferes Andr Vieira, que mandava o piquete de cavalaria da guarda
do governador; por ltimo quatro criados em libr de seda amarela
com forro verde dobrado nas golas, no canho e ponta das abas,
tendo as armas dos Castro Caldas bordadas no alto da manga do
gibo  guisa de dragona.
Eis a cavalgada que parara no canto da casa, com espanto do Nuno,
que l de cima da sua pinheira, quase encarapitado no telhado,
esgazeava uns olhos donde coava-se atravs do susto o chasco
ardiloso do brejeiro.
25
CAPTULO IV
DO PERIGO DE TIRAR NINHOS DOS TELHADOS NO TEMPO DE EL-REI
NOSSO SENHOR
No momento em que a luzida cavalgada, avanando a passo
moderado, defrontou com a janela do sto, Um ligeiro sorriso
perpassara nos lbios do governador, erriando de prazer o fino
bigode, que sua mo branca e esmerada alisou com um gesto rpido.
Tinha percebido o vulto gracioso de Marta, que destacava no vo da
janela, como a figura de uma slfide na tela escura de exmio pintor.
Ao sopro da brisa as roupas transparentes de gara verde-gaio lhe
flutuavam em torno como asas de gaturamo, especialmente as
mangas soltas, donde se lanavam os lindos braos, imitando lrios
hasteados entre a folhagem. Um justilho preto, curto e chanfrado,
cerrava-lhe a cintura mimosa, que dobrava-se como a haste da flor,
com as inflexes do talhe.
Breve se apagara nos lbios do governador o sorriso, percebendo que
a menina no estava s, mas praticando com algum. Ao ver o
intruso, a posio em que se achava, e a casta de gente que era,
carregou-se-lhe o sobrolho; e por uma leve depresso do lbio
superior, dir-se-ia que mordera um fio do bigode.
Todavia no se alterou em geral a calma de seu porte; e a ligeira
perturbao passou desapercebida para todos, com exceo dos dois
oficiais que ladeavam o governador.
Foi ento que o Capito Negreiros, justamente irritado contra o
temerrio que ousara cair no desagrado do poderoso governador, no
s lanou contra o Nuno aquela apstrofe acentuada com a mais oca
retumbncia de sua voz, porm ficou-o fulminando com a sombria
catadura.
Como no respondesse o rapaz, e estivesse l de seu poleiro a mir-lo
com ares de mofa, arremessou-lhe de novo estas palavras:
- No tens boca, mariola! Que fazes tu ai?
-  um ninho de carria, sim, meu senhor!... respondeu o menino
atarantado.
- Um ninho, grandssimo peralta! bradou o ajudante com suprema
indignao e a mais possante nfase oratria. Um ninho no telhado!...
No nimo do nosso ajudante um crime de lesa-majestade dos
captulos de primeira cabea no produziria tamanho horror, qual
mostrava, e devemos crer que s veras, diante da enormidade desse
atentado inaudito contra a inocente prole da carria e a inviolabilidade
do telhado do Perereca.
26
Em verdade era grave o caso; assassinato em massa e invaso na
propriedade alheia. Se um rei ou um governador se lembrasse disso
para distrair-se, inventando uma guerra ou algum monoplio que
dizimasse o povo na vida e na bolsa, avisaria o nosso ajudante a
excelncia da medida; pois qual  o fim da repblica seno divertir
aos prncipes? Mas quando era um galopim que ousava atacar as
telhas e os ninhos!... Oh! protrvia!...
Arremessou o capito o cavalo contra a cerca no intuito de alcanar o
artelho do rapaz e derrub-lo da rvore; mas este que lhe adivinhou o
plano apoiando-se na beirada, galgou o telhado e se ps a salvo.
- Safa rascada! gritou o brejeiro.
Afastara-se o governador e entretinha-se  parte com o prazenteiro
secretrio, parecendo de todo alheio  cena que ali se passava. Mas
quem o observasse atento, perceberia o olhar rpido que a furto
relanceava para a janela do sto, onde se eclipsara a estrela, com o
aparecimento da cavalgada.
- Desce, biltre!... intimava furioso o ajudante.
Mas o marotinho do rapaz gingava no telhado, bamboleando o corpo e
fazendo-lhe gatimanhos de zombaria:
- Babau, sr. capito! Babau!
- Eu te esbandalho, pedao de um bargante! berrou o ajudante.
- Isca! Isca!.
- Ol, um! Agarrem-me j este espirro de gato.
Apeou-se um dos lacaios para cumprir a ordem, o que
compreendendo o Nuno e vendo a estreiteza do caso, lanou em
torno uma vista indecisa; nisto sentiu que lhe puxavam a aba do
gibo. Voltando-se, deu com a carinha travessa de Marta um tanto
amarrotada do susto, a mostrar-lhe a recmera como um asilo. No
havia hesitar.
Corriam-se as adufas da protetora janelinha, justamente quando
aparecia a cabea do lacaio por cima das telhas. O ajudante estava no
delrio da raiva; se a princpio se mostrava irritado por conta do
governador, agora era pela sua prpria que esbravejava como um
possesso.
- Marau, gambirra, fundilho de Judas, lndea do Co-Tinhoso, fedelho
de Satans!...
Por este jeito vociferou durante algum tempo o ajudante, notvel pela
fertilidade dos eptetos mais pitorescos e originais, com que nos seus
momentos de sanhuda eloqncia ele enriquecia o idioma das
regateiras.
Observando o governador que seu ajudante comeava a exceder-se,
deu de rdea ao cavalo e passou adiante com o secretrio, cujo
eterno sorriso se encrespara com um ligeiro tom de ironia ao ver o
destampatrio do capito.
27
Quando passavam pela frente da casa, abriu-se a porta, e saiu um
homnculo, armado com uma cabea de pitorra e enfaixado em um
quimo de primavera. Desbarretando-se at ao cho, desfazia-se em
cortesias to rasteiras, que mais pareciam dirigidas ao cavalo do que
ao cavaleiro.
- Boa tarde, sr. almotac.
- Aos ps da muito alta plosopia do exmo sl. govelnadol!
A esse tempo por urna fresta da gelosia do meio, a Sr.a Rufina, que
empurrara o marido pela porta, espreitava de dentro.
- No sabe o que acontece? perguntou o governador.
- Sabelei, meu senhol, se a bondade de V. Ex.a concedel-me essa
glaa.
- Capito! disse o governador com os olhos no secretrio.
Este, compreendendo a inteno, tomou a palavra:
- Agora mesmo, ao passar, vimos um galopim que trepou no telhado
de sua casa e entrou pela janela do sto.
Ouviu-se o estrpido da gelosia que batera, e logo uma voz correndo
para o interior:
- Virgem Santssima! No quarto de Marta! Acudam, gentes!... Quanto
ao Sr. Simo Ribas, ficara estatelado com o caso; mas afinal, pondo
as mos na cabea, exclamou em tom pattico:
- Um siclio, aflontando a minha autolidade! Que atlevimento!...
Voltando-se depois a custo, porque as pernas lhe fugiam, disse para a
casa:
- A minha vala, Senhola Lufina!
Entretanto Nuno e Marta espiavam pelas frestas bem conchegados
pelo susto e tambm por esse gozo inefvel de transviver-se em
outro, o que j em criana todos pressentamos com o prazer de
inocente folguedo. Qual, no jogo da manja, no procurava de
preferncia a parceria da menina mais bonita, para atracar-se com ela
no cantinho e to apertados, como se quisessem esconder-se um no
outro?
- Que Caifs to feio que  aquele sujeito! dizia Marta mostrando o
ajudante. Cruzes!
- Ah! se eu tivesse j a minha durindana! dizia Nuno com recacho
militar; voc veria como eu havia de tosar o plo quele barbaas de
centurio. Olhe: v a pequena l abaixo e busque-me o estoque do
pai.
- Deus me livre! Para a mam ralhar-me!...
- Agora sim! exclamou o rapazinho batendo as palmas de prazer.
- O que ? perguntou curiosa Marta, enfrestando o olhar.
- C chega o Vital.
- O primo?
28
De feito entrara na cena do quintal um novo personagem, bem
disposto e elegante cavaleiro, no vio dos anos floridos, pois j
andava nos trinta. Sombreavam-lhe o rosto oval fino bigode e pera
que ele trazia contra a moda do tempo, e destacavam-se com donaire
na tez de suave moreno. Os olhos, tinha-os grandes, cheios de brilho
e ardimento, como lumes, que eram, de um corao bravo e
generoso. Nos cantos da boca, apagava-se o sorriso em uma plica
ligeira, indicio da preocupao constante que absorvia-lhe o
pensamento.
Muita louania dava a essa fisionomia inteligente e ao garboso talhe o
apuro das roupas que trazia com especial gentileza o cavaleiro. De
lemiste com forro de cetim azul era a casaca bem talhada, que
dobrava a gola sobre uma linda almilha de tela alcachofrada, e
espalmava as abas pela anca tio brioso cavalo, mostrando os cales
estreitos de veludo cereja. Colarinhos e punhos de renda de Veneza
atacados com rubis; luvas de pele acamurada; alva pluma de gara
no chapu de castor pardo; borzeguins altos com rosetas de filigrana
de prata, iguais ao tope do chapu e s borlas do florete,
completavam o casquilho vesturio.
Desde algum tempo que o cavalheiro, parado a curta distncia,
observava oculto pela ramada das rvores, a ridcula cena ali
representada pelo Ajudante Negreiros. Aproximando-se afinal, saudou
o oficial com um gesto de mofa.
-  certo, pois, sr. ajudante, que afinal romperam os de Olinda?
- Donde o sabe? atalhou o Negreiros tomando a nova ao srio e j
alvo roado com o prazer de espatifar os do levante.
- Agora vejo que me enganei. Ao chegar, dando com toda esta
azfama da gente de El-Rei, devia pensar que os nobres tinham
assaltado a casa do meu parente Simo Ribas!
- O caso no  para chascos, nem eu sou homem para eles, bem o
sabe o senhor! replicou o ajudante com cenho de ameaa.
- Que se h de fazer  comdia, seno rir dela? Esbarra-se a gente no
caminho com um ferrabrs de espada desembainhada, a esgrimir
contra os telhados, dando caa a um pirralho: e quer o sr. ajudante
que se fique srio como um burlo?
- Sr. Vital Rebelo! exclamou o capito aceso em ira.
- Sr. Ajudante Negreiros! disse o seu interlocutor sem alterar-se,
como se respondesse a uma benvola interpelao.
A ponto sobreveio um lance para atalhar a disputa que prometia
azedar-se; e foi que a janela do sto abriu-se de supeto e dela
espirrou o Nuno acossado por um inimigo que lhe tomara a
retaguarda. Mal saltara o rapaz no telhado, que a Sr.a Rufina
assomara ao postigo, empunhando  guisa de lana um cabo de
vassoura, armado da competente broxa de palha.
29
Convencido de que, na estreiteza do caso, s uma resoluo pronta e
destemida o podia salvar, o mascatinho atravessara de corrida, mais
veloz do que um gato, a aba do telhado at a extremidade da casa, e
a de um pulo, travou os ramos de um cajueiro, donde alcanou
facilmente o cho, e desapareceu entre o arvoredo.
To rpido foi o incidente, que deixou pasmado o Ajudante Negreiros;
mas recobrando enfim o mpeto, arrancou no encalo do fugitivo, e
por certo o alcanara se no lhe atravessasse o passo Vital Rebelo.
- Caminho!
- No se passa.
-  ordem do sr. governador!
- Da parte de El-Rei!
- E quem, estando eu, fala aqui em nome de El-Rei Meu Senhor?
Pronunciara estas palavras Sebastio de Castro, que se aproximara
advertido da altercao.
- Falo eu, disse Rebelo com um tom respeitoso e digno; e falo a V.S
a quem El-Rei ps de governador nesta capitania para reger-lhe os
povos e guardar-nos os forais; que no para montear os filhos de
seus vassalos como caa bravia.
Pareceu o governador um instante perplexo ante aquela resposta,
onde ressumbrava no s a altivez dos brios, como a conscincia de
um direito; logo, porm, replicou em tom moderado e conciliador:
- Talvez tenha razo, Sr. Vital Rebelo; mas se algum excesso houve,
que eu no creio, da parte de nosso ajudante, foi somente no zelo
com que se emprega no servio de El-Rei Meu Senhor e da nossa
pessoa.
Cortejando com a mo a Vital, voltou-se para a comitiva, com estas
palavras:
- Vamos, senhores, que de sobra j nos demoramos.
Desfilou a cavalgada pela frente da casa onde o digno almotac, ainda
engasgado com o caso que lhe acontecera, gritava pela vara para
intimar a sua autoridade ao malfeitor.
CAPTULO V
TRS CANDIDATOS  GLRIA, UM RABISCA-PAPEL, UM FERE-FOLHA
E UM ROEDOR DE UNHAS
Ao tempo em que Nuno escapava-se da embrechada, outro mancebo
pouco mais idoso que ele assomou na extremidade da ponte que
ento ligava ao Recife a Ilha dos Pescadores, onde era o bairro de
Santo Antnio.
30
J no existe aquela ponte construda no tempo da dominao
holandesa pelo Conde Maurcio de Nassau. Em 1737 a reformou o
Governador Henrique Lus Pereira Freire, que teve a engenhosa idia
de levantar ao longo dela dois renques de pequenas lojas para os
quincalheiros, donde provinha ao real errio boas propinas.
Desabando esta segunda ponte em 5 de outubro de 1815, foi
substituda por outra que chegou aos nossos dias.
Vinha o rapaz do Porto das Canoas onde acabava de desembarcar.
Representava ele maior idade do que os 26 anos que tinha; era de
mediana estatura e compleio fornida. Por cacoete ou vicio de
conformao faziam as espduas uma leve corcunda, que o privava
de apresentar o rosto bem de face; o olhar do interlocutor encontrava
um semblante escorregadio e resvalava por ele sem o penetrar.
Caminhava com um piso miudinho, mas indeciso, imprimindo 
marcha certa sinuosidade. Percebia-se, reparando-lhe nos
movimentos, que antes de abrir o passo hesitava em avanar; e que
andando vacilava constantemente, como um pndulo, entre a direita
e a esquerda.
Ao mesmo tempo os olhos quase redondos e espantadios
enfrestavam-se pelas pestanas de uma  outra banda e faziam um
como crivo de olhadelas rpidas e sutis. Dai lhe viera o apelido de
Pisca-Pisca por que era mais conhecido do que pelo prprio nome de
Cosme Borralho. Nesse estrabismo artificial estava o cunho do rapaz.
Em tudo vesgava ele; na vista, no andar, na fisionomia e at na fala.
Ressentia-se a voz de singular desafinao, pelo que ora saia-lhe
machucha, ora menineira.
Seu trajo compunha-se de roupeta, vstia, cales e pegas, tudo
preto, muito rapado e j cerzido em vrios lugares. Mas a escova lhe
espoara escrupulosamente o fato, e os fios mais desbotados do estofo
pareciam retintos de fresco a bico de pena. O mesmo esmero se
notava no velho casquete surrado e nos grossos sapates de couro
alaranjado.
Indicava esse vesturio um de tantos moos que ento escreviam
para os tabelies do pblico, judicial e notas, e a se amestravam na
rabulice. O povo chamava-os pela alcunha expressiva de fuinhas de
cartrio, que lhes assentava s mil maravilhas.
Enterravam-se no sombrio aposento como em um buraco. Desde
crianas, curvados sobre o telnio e afeitos  busca dos autos e
papis velhos, adquiriam certa inflexo e prolongamento de pescoo
acompanhado de furtivos esgares que lhes davam em verdade boas
mostras do animalejo furo e bisbilhoteiro.
Saiam-lhe do bolso da vstia um rolo de papel cheio de garatujas e as
ramas compridas de duas ou trs penas de ganso, matizadas de
vrias cores. Semelhante garridice, nico vislumbre de vaidade
31
naquela figura sombria e estrambtica, a inspirara o carinho da
profisso, que de ordinrio cria os melhores operrios do esprito
como da matria.
De quando em quando por um gesto rpido passava pelos beios a
unha polegar da mo direita e a esfregava com sofreguido ao peito
da roupeta. Parecia dominado da idia de umedecer a coroa do dedo,
a fim de tirar pelo atrito uma ndoa de tinta, ali permanente desde
muitos anos.
No era pela gola, que atacava a gordura do casco, nem pelos
cotovelos roados no bufete de escrever, que ia-se a roupeta do
Pisca-Pisca. Vinha-lhe a runa do peito, onde trabalhava a unha
impertinente. Homem de recursos, pusera em prtica todos os meios
de vencer o terrvel cacoete. Chegara at a amarrar  cinta o dedo
rebelde; porm quando a unha lhe comeava a comer, e era
justamente no meio de suas cogitaes, l se ia o atilh. Ao dar f de
si, o escrevente via com desespero o brejeiro do dedo tocando viola
no peito da roupeta.
No momento em que o avistamos sob o arco do Bom Jesus, vai ele
sem dvida muito preocupado; pois o atrito atingiu sua maior
velocidade. Com efeito, assim atravessou a ponte, e j saia em Santo
Antnio, quando o Nuno esbarrou-lhe a passagem.
- Vem de Olinda, Cosme?
- Agora chego.
- Quando estoura o negcio?
- De qual negcio fala voc, Nuno? retorquiu o escrevente
envesgando um olhar que fez ziguezague  direita e  esquerda e veio
cair sobre o bolso da vstia, onde aparecia o rolo de papel.
- Vamos c! disse o mascatinho puxando o fuinha pela aba da
roupeta.
- Pois no estamos bem aqui?
- Nada, que no me faz conta me bispem os tais malandros! Se me
pilham!...
Assim falando, puxava o Nuno ao companheiro pala baixo do primeiro
olhal da ponte, que a mar deixara em seco.
- Ento no sabe que negcio , hem?
- Podia jurar que no!
- Ora! Quer-se fazer de bom. Pois olhe, aqui est tudo cheio da nova;
desde Fora de Portas at Arrombados no se fala seno do levante
que os de Olinda pretendem fazer.
- Muito h que se rosna a este respeito; mas so boatos que do em
nada. H certa gentinha enredeira que inventa estas cousas para ter
de que mexericar.
- Desta vez a cousa  sria, digo-lhe eu, Cosme; que tambm vou
meter-me na dana. Oh! se vou; hei de ensinar a uns certos
32
marrecos, inclusive um barbado c do meu conhecimento! Tomara j
ver tudo no sarilho.
- No acredite nessas caraminholas, Nuno. Que lucraro os de Olinda
com o levante?
- Ento voc est muito atrasado. O plano  empolgar o marmanjo
do Sebastio de Castro como se fez h tempos com o Xumbregas, e
recambi-lo para Lisboa com uma queixa a El-Rei.
- E conseguem l isto? No h de sair como pensam. Os do Recife so
gente de peso, mercadores ricos, e tm por si o melhor povo da
capitania.
- E os nobres ento? No foram eles que conquistaram ao flamengo
esta terra'
- Assim apregoam; e contudo, pensando bem, Nuno, que valeria a
terra, se no fossem os mercadores que a tm enriquecido? Mas
nenhum como o Sr. Miguel Viana.
- O pai tem juntado boa chelpa, no h dvida; mas tirante disso no
serve para mais nada. Eu c  que no estou pelo ajuste. Em
comeando a guerra, ho de ver para quanto presta este fedelho,
como dizia o mono h pouco.
- Quem? perguntou curioso o fuinha.
- Aquele focinho de caititu do tal de Negreiros... Mas isto c  comigo.
- Ento, vistos os autos, est voc aborrecido de mascatear e prefere
a milcia!
- Pois  minha paixo! No sei por que j no atirei no mangue esta
burjaca.
Assim  a sorte. O que voc rejeita, outros invejam. Eu, verbi gratia,
eu que h sete anos garatujo do Matias, para ganhar uns magros
tostes... se pilhasse um arranjozinho de mascate, nalguma loja...
Bem podia voc, Nuno, se quisesse, arranjar-me em casa de seu pai
para o lugar que vai deixar.
- Est dito; voc toma conta da albarda, e o pai ganha na troca,
porque fica com um bom latago! Vamos a isto; eis a o surro!
Para fazer ao vivo a entrega do fardo, o Nuno chimpou com ele no
toutio do Cosme, que titubeou.
- Arre l! As cousas fazem-se com jeito. Voc primeiro deve falar de
mim ao velho; e para inquiries ele pode tir-las do Capito Miguel
Correia e Padre Joo da Costa, o da Recoleta. Ambos ho de
assegurar que eu dou conta da obrigao, como se fosse devoo.
No h tarefa que me meta medo; e para remate, fui sempre pelos do
Recife.
J no o escutava o Nuno, que esguardava na ribeira do Recife
alguma cousa. Reparando nessa distrao, voltou-se o Pisca-Pisca e
logo percebeu-lhe a causa.
33
Havia daquela banda do bairro uns muros de quintais com serventia
para a praia. O sol, transmontando, projetava larga sombra ao longo
da parede. A, na zona opaca, um sujeito ia e vinha em continuo giro,
a no ser que o interrompia acercando-se do muro e gesticulando,
como se estivera com ele em prtica animada.
- O Lisardo!...
Murmurou o escrevente este nome com um meio sorriso de mofa,
pronto a se transformar de sbito em sorriso de prazer. Tudo neste
rapaz era assim dplice. Nos olhos, como nos lbios, sua alma s
apresentava-se aos outros de perfil, para que no lhe vissem a
divergncia das duas faces.
- Psiu!... Psiu!... fazia no entanto Nuno agitando a mo.
-  debalde!... acudiu o Pisca-Pisca zombando.
- Vamos bulir com ele?
- J vai sendo tarde, e tenho de voltar a Olinda antes de Trindades.
- Qual! para o escurecer ainda falta muito. Toca a avanar... Lana
em riste. Arranca!
Vergou-se o petulante rapaz enristando a vara como se fora um
virote, e empurrou para diante o escrevente em rota batida. Assim
atravessaram rapidamente a ponte, e contornando a praia, foram sair
no lugar onde arruava o solitrio passeador.
Era tambm um rapaz; e parecia no ter ainda vinte anos. Ia e vinha
ao longo do muro, repetindo em tom soturno palavras sem nexo.
Acompanhava o trabalho mental uma gesticulao enrgica. Todo o
corpo concorria para aquela mmica, desde a cabea que pontuava a
frase at ao p que batia a cadncia.
Tinha entre os dedos alguma cousa que se lobrigava confusamente no
meio do gesto pattico. Quando parava para conversar com o muro,
percebia-se ento perfeitamente que era um prego enferrujado.
Servia-lhe de estilete para gravar na calia da parede as rimas de
uma dcima em cuja composio suava o jovem rcade.
Ali na pgina aberta desse lbum dos meninos de escola liam-se j
algumas palavras alinhadas no fim de um risco..
_______________ nascer
_______________ instante
_______________ inconstante
_______________ sofrer.
O stio no era dos mais apropriados para a poesia. Alm da sua j
suspeita posio nos fundos dos quintais, vizinhava com a praia suja e
coberta de cisco. Havia ali uma transfuso de cheiros terrestres e
marinhos, capaz de asfixiar a mais robusta inspirao. Alguns velhos
cascos de navios, que desmanchavam para lenha, ali amontoavam-se
na vasa, fechando o horizonte.
34
So os poetas uma espcie de caramujos, ainda mais admirveis que
os outros; pois estes apenas levam consigo a casa, e aqueles nada
menos do que um mundo, no qual vivem. No se admirem pois, que
apesar de tudo no estancasse a veia potica do nosso rimador. Ele
tinha l na sua cachola, de sobressalente, uma tal proviso de flores,
de matizes e de perfumes, que debalde o assaltavam as impresses
exteriores.
Naqueles olhos tudo eram prados; naquele olfato tudo recendia a
jasmim.
Estava o sujeito muito apurado a escrever a deixa do seu quinto
verso, quando desastradamente apareceram Nuno e Cosme no
cotovelo que formava a praia. A areia solta, abalando os passos,
permitiu que se aproximassem, antes que os pressentisse o outro.
Sempre estabanado, anunciou o caixeiro sua vinda de uma maneira
estrepitosa. Arremessou com fora o surro, que foi esbarrar nas
canelas do poeta.
- Rende-te, cavaleiro das beldroegas!.
O susto que teve o camarada, surpreendido por aquela imprevista
surtida, no se imagina. Todo o indivduo foi abalado, como se dentro
dele puxassem um cordel para fazer danar cabea, braos e pernas
de arlequim. Logo, porm, que tornou a si do choque, comps nos
lbios um sorriso de bondade extrema para saudar os recmchegados.
- Que maricas!... exclamou Nuno a rir-se. Quero ver como te aviars
agora com a guerra.
- Que diz voc, Nuno? Pois temos guerra?
- No acredite!... soprou o Pisca.
O caixeiro levantou com a ponta do p o balote, pondo-o a prumo
para lhe servir de tamborete.
- Pois no sabes? Vai haver um levante dos de Olinda; e leva tudo a
breca.
- Quem lhe disse, Nuno? Ser srio?
- No leva trs dias a arrebentar'. Quem disse foi o Tunda-Cumbe.
- O Manuel Gonalves? acudiu o Pisca-Pisca.
- Voc bem sabe a gana que ele tem aos nobres, por causa da sova
que lhe pregaram.
Houve um instante de silncio.
O poeta cismava:
- Estou bem avisado com estas brigas. Ou Ceres ou Vnus!
Resmungava o escrevente:
- Diabos me levem se entendo este mascatinho a cortar na scia do
pai. Entretanto Nuno, lobrigando no muro as palavras escritas pelo
companheiro, exclamara:
- Oh! temos rima?
35
Frustrada a esperana de apreciar a obra do Lisardo, apanhou na
areia uma casca de marisco e ps-se a garatujar naquela pgina do
lbum popular, onde o galopim soberano exerce a liberdade da
gaiatice.
CAPTULO VI
COMO EM TODOS OS TEMPOS SE FORMAM OS PARTIDOS
Lisardo estava sucumbido.
Era ele mancebo de vinte anos; tinha uma cabea grega em talhe
rabe. Os cabelos castanhos anelados caiam-lhe sobre as espduas,
moldurando o belo semblante.
Seu gibo verde era do melhor veludo de Alcobaa, mas j bastante
usado; os cales apenas de belbute de algodo cor de azeitona.
Contrastava, pela novidade e frescura, a vstia escarlata, embora
feita de uma serafina bem ordinria.
Semelhante anomalia no trajo, no a deve estranhar quem sabe como
viviam os rimadores daquele tempo. Se algum no se recorda, leia
Nicolau Tolentino, o gro-mestre da ordem dos poetas mendicantes
do sculo XVIII. Que soma de engenho se no despendia ento para
arrancar dos ricos uma propina que hoje se obtm com uma simples
folha de papel e a epgrafe subscrio?
Foi o Nuno quem reatou o fio  prtica interrompida.
- Ento, Lisardo, ficou voc ai to murcho. Tudo isso  medo?
- Ou cousa que se parece! acrescentou o fuinha piscando.
- Bem sabem vocs que eu no sou para estas cousas. A culpa, se h,
minha no ; mas de quem me fez assim.
- Fique voc descansado, que o ponho sob minha guarda, tornou o
mascatinho em tom de importncia.
- Estava eu bem aviado! respondeu o poeta sorrindo.
- De uma cousa porm ainda no cogitaram vocs, e me parece a
principal, observou o escrevente.
- V dizendo!
- Demos que se embrulhem as cousas ainda mais do que j esto e
haja realmente um levante. Notem bem que eu no asseguro;  uma
simples suposio.
- Com a breca!... Asseguro eu, exclamou o Nuno.
- Pois sim; caso aparea o barulho, cada um de ns h de tomar seu
partido. O do Nuno j se sabe; h de ser o da famlia.
- Quem lhe disse?
- Assim parece.
36
- V-lo-emos. E voc, Lisardo, por quem h de ser?
O poeta estremeceu; tinham-lhe tocado na tecla.
- Eu?... Vejo o caso bem intrincado. Todo o meu indivduo desde a
raiz dos cabelos at a pontinha dos ps devia ser pelos senhores de
Olinda, pois so eles que abrigam e mantm este fsico. O verso l na
cidade  moeda corrente: paga o jantar na mesa dos Cavalcantis e
Figueiredos, e de vez em quando rende um vesturio que o dono j
no usa, porque desmereceu na cor, mas que ainda faz sua vista c
no Recife. Os senhores mercadores so excelentes pessoas...
- Todos reconhecem!... atalhou o escrevente.
- Mas destas bandas os sonetos e dcimas no valem um ceitil. Podia
correr o bairro todo que no acharia por eles dez ris de cominho.
- Menos essa! interrompeu Nuno. Sei eu de certa pessoinha que tem
seu fraco por umas rimas, especialmente por certo acrstico... hem!
certo acrstico...
E piscou o olho para o companheiro.
Perturbou-se o poeta, e acrescentou logo para disfarar:
- Os senhores mercadores, como  de razo, preferem Mercrio a
Apolo e as nove irms.
No escapou ao fuinha nem a aluso de Nuno, nem o vexame de
Lisardo.
- Mas afinal de contas, disse ele, em que fica voc?
- Sim; dizia que todo eu estava em Olinda; mas c me ficou por meus
pecados neste Recife um bocadinho do tal eu, que pelos modos pode
tanto, se no for mais do que o resto, no obstante ser este um quase
todo. Ora, por mais que eu faa para desatar este n daqui, creio que
antes de o conseguir, primeiro me romperia a mim. Portanto o seguro
 concertar-me com as duas vontades, para que me deixem ficar
neutro na contenda.
- E caso no queiram elas estar pelo ajuste?
- Por que no, se bem nem mal fao a qualquer das duas?
- No gosto de ser leva-e-traz; mas olhe que j em casa do capitomor
um destes dias se cochichou: "Tenho notado que o Lisardo vai
muito pelo Recife." Bem entendido, contaram-me, que eu no ando l
pela casa desses senhores. Mas no cartrio sabe-se de tudo.
- Pois se no houver outro meio que melhor acomode as cousas,
nesse caso vencer a fora maior.
- A barriga? perguntou o Cosme com uma mmica expressiva.
- Barriga no passa de vasilha: fora  a fome; mas vence a do
corao, por maior. Seno vejam: ainda no jantei hoje; e contudo
estou bem contente de minha vida.
- Assim pende voc decididamente para o Recife! concluiu o Cosme.
- Se no houver outro remdio?
37
- Pois ento, atalhou Nuno, erguendo-se de um salto, comigo se h
de haver o Sr. Lisardo de Albertim, poeta d'gua doce, que me anda
esgravatando versos no monturo para garatuj-los nas paredes! Est
entendendo?...
Aquele pequeno repouso de uma natureza impetuosa devia ter breve
sua exploso. Enquanto o macio poeta o contemplava maravilhado, e
o escrevente lhe espreitava os movimentos por detrs de uma cara
sonsa, o caixeiro prorrompeu:
- Que esto ai vocs embasbacados a olhar-me? Cuidaram que por
ser filho de mascate, e dos grados, havia de entrar na scia? Pois
enganaram-se, digo-lhes eu. Se fosse com outra gente, nada mais
natural que ajudar os seus... Regra do Mateus! Mas com a tal
mascataria... Pensam lazer neste Pernambuco com os filhos o mesmo
que l na santa terrinha fizeram seus pais deles, que os empurraram
para c, no poro de um navio, com uma rstia de cebolas e um par
de tamancos! Vejo cavalos que nascem da mesma besta, e uns so
marchadores, outros choutes; uns levam albarda, mas outros tm
arneses de veludo! S o filho de mascate  que h de ser mascate por
fora! Uma figa!... Este muro falar, se me virem mais regatear!
Neste ponto de sua vigorosa alocuo avistou Nuno o pacote, e
travando-o com mpeto, imprimiu-lhe tal rotao que o arremessou na
praia.
- Vai-te, perseguio! Assim hei de eu fazer a todas as drogas que me
carem nas mos, e tambm aos donos e vendedores das ditas!
Animou-se o poeta a introduzir uma palavra no meio daquela
impetuosa loqela:
- Mas...
- Olhe! Eu no sou versista como voc... No tenho veia para a
cousa; mas cada um se arranja como pode. J fiz um mote para mim;
h de ser minha divisa nesta guerra! Vejam!...
Agarrando os dois cada um pelo brao, levou-os o caixeiro ao muro
onde riscara o Lisardo suas rimas. Enchera as linhas o Nuno, tendo
cuidado, para lhes dar igual comprimento, de graduar a letra. Saiu a
seguinte composio, que se remete aos modernos fabricadores de
poemas em todos os metros:
Para mascate no valia a pena nascer
No suporto mais um instante!
Oh!... sorte inconstante!
Arre! que estou cansado de tanto sofrer.
- E mais  que tem seu jeito! exclamou o fuinha exttico ante a obra.
Voc d para poeta, Nuno!
- Ento, que diz  quadra, Lisardo?
O poeta estava horrorizado:
- Quadra!... Quadrada seria a sandice se a escrevesse de outra forma!
38
- As que voc tem mandado  mana Belinha, s pateta, no so
melhores!...
- Nuno!... modulou o Albertim em dois tons, sustenido e bemol, ao
mesmo tempo que lhe indicava com o olhar a presena do escrevente.
- Ora! Que bem me importa?
Felizmente Cosme naquele instante parecia muito apurado a reler a
bela produo de Nuno, a qual decididamente lhe dera no goto. Era
de jurar que nada percebera, pois mostrou-se inteiramente alheio ao
caso. Se porm as observaes fossem cousas corpreas, o bucho do
escrevente j estaria to bojudo, que o no pudera ele decerto conter
no cs das bragas.
Seguira-se naturalmente uma pausa no dilogo. Os nossos camaradas
formavam ento um tringulo, cujo vrtice era o Cosme ao p do
muro. Quando este se convenceu que estava de todo passado o
episdio do namoro, voltou-se para os companheiros:
- Lisardo, voc h de ensinar-me tambm a fazer a minha quadrinha.
 bom a gente saber de tudo.
No o atendeu o poeta, que estava ruminando, mas em prosa desta
vez. Ao cabo saiu-se com esta:
- Oua, Nuno; sou mais velho que voc dois anos; e portanto estou
no caso de lhe dar conselhos, como  dever dos mais idosos para com
os mais moos.
- Que apoquentao do diabo! gritou o Nuno. E todos eles a daremme
com a matraca!... Muito moo, muito moo!
- Voc no pode tomar nesta contenda as partes de ningum mais,
seno daqueles com que esto os seus. No lhe parece, Cosme?
O fuinha atento  altercao foi surpreendido por aquela interpelao
direta, da qual bem desejava fugir. Mas Nuno de seu lado voltara-se
para ele esperando seu alvitre: fora era d-lo.
- Eu, sim, eu, quero dizer... pensando bem, entendo que... voc (para
o poeta) ... voc (para o caixeiro) tem razo.
- Est ouvindo? exclamou Nuno.
- Estou!... O Cosme concorda comigo!
- No h tal.
- Justa... mente!... disse o fuinha gaguejando e escandindo a palavra
de modo a enderear cada slaba a um dos companheiros.
Tinha o Cosme esse hbito de gaguejar nas ocasies difceis.
- A primeira ptria, continuou o poeta sentenciosamente,  a nossa
casa; pois est mais junto de ns. Traz-nos dentro dela toda a
meninice, como nos traz no ventre durante nove meses aquela que
nos deu o ser. Que se diria de uma criana que rasgasse por vontade
o seio materno para sair  luz antes de tempo? Pois este  o caso do
filho menor que abandona a casa de seu pai.  um mau filho: e Deus
lhe retira a bno.
39
Tais palavras ditas com sinceridade e energia no deixariam de
comover o caixeiro em outra ocasio; mas naquela tarde estava ele
tocado da fria guerreira.
- Por que no fazes tu outro tanto do que dizes?
- Bem atirado! murmurou em aparte o fuinha.
- No tenho casa, nem pai, Nuno! respondeu o poeta com sorriso
merencrio.
- Mas tem l em Olinda quem lhe agasalha, e no obstante.
-  diferente!
- Qual diferente! Diga que o corao lhe puxa de c!...
- Ele o confessou! acudiu o Cosme.
- Pois corao, tambm eu tenho, que bem me puxa, e a arrebentar.
- L para Olinda? replicou Lisardo pasmo.
- Para l mesmo!... Ah! voc no sabe ainda, que lhe no contei. Pois
o almotac no teve o descoco de me dizer ontem quando lhe falei de
casar com a filha, a Marta, que eu ainda era um crianola, e que havia
de contar ao pai para ele ralhar comigo!...
- Ora essa!... ponderou Cosme, e acabou a frase com um jeito que fez
rir a um dos olhos, o do lado do poeta, e choramingar o outro, que
pusera ao servio de Nuno.
- Tambm voc madrugou! disse o Lisardo.
- Com os seiscentos! Ando nos dezoito anos!...
- Dezesseis, Nuno!...
- Que seja! J me nasceram todos os dentes, tenho mais um palmo
de altura do que este carrapeta do Cosme!
- Nem tanto! replicou o escrevente empertigando-se.
- E no sou um homem?. . . Que me falta?... Barba?... No 
essencial; o Camaro tem a cara lisa como uma melancia e j est
maduro!
- E o primo, o grande Camaro, dizem que era o mesmo. Nem um fio
na cara; na cabea, sim, com fartura.
- Com isso que nos conta, Nuno, mais me enche voc de razo. Se o
seu cuidado est c no Recife, no  pelo caminho de Olinda que h
de chegar.
- Isso depende do modo de caar de cada um. Voc, Lisardo, vai se
chegando devagarinho para no espantar a rola. Eu c atiro de longe,
em campo aberto. O Perereca tem de haver-se comigo, e mais o pato
choco do governador, com o seu ajudante. A p, na estacada,  lana
ou  espada, com o ferro na gorja os obrigarei a restituir-me a dama
de meus pensamentos. Sempre desejei uma guerra; e a queixa que
tenho de minha me  no me haver parido no tempo dos
holandeses. Aquilo, sim,  que foi tempo!
- Com esta me vou! disse a rir o escrevente.
- Mas voc, Cosme, ainda no disse por quem ? Olinda ou Recife?
40
- Eu sou por ambos!
- Como pode ser isso?
- Se cada um de vocs vai para sua banda, que remdio seno
dividir-me por ambos? Eu c no tenho quem me prenda a estes ou
queles, e nada espero de uns nem de outros. Pelo meu gosto
deixava a terra. Mas vocs podem precisar de mim, e ento careo de
estar em posio de lhes prestar.
Dois apertos cordiais cerraram ao mesmo tempo na mo que o Cosme
levantava para enxugar os cantos dos olhos, umedecidos por um
lquido humoral que em anatomia se chama lgrima.
CAPTULO VII
ENCANTOS QUE TINHAM PARA O NOSSO POETA UMA SAIA
REMENDADA E DUAS CANELAS COR DE AZEVICHE
Seriam 5 horas da tarde.
Os dois companheiros se tinham ido; ficara o poeta de novo solitrio
na erma praia. Com pouco levou ele a cabo a dcima principiada.
Repassaudo-a ento uma e muitas vezes na memria, tratava de a
limar com uma pachorra horaciana.
Nesse trabalho, avanara contornando a praia na direo de Fora de
Portas. A desdobrava-se um painel encantador. Na cpula, dossel
magnfico de ouro franjado a prpura; embaixo, uma alcatifa imensa
de chamalote azul recamada de brancos lises. No centro, um peristilo
majestoso formado por grupos de elegantes colunas e rematado em
ogiva pelas verdes arcadas.
As tintas deste deslumbrante painel dava-as o sol no ocaso, o mar em
bonana e os ramalhetes dos coqueiros, que ensombravam a formosa
ilha desse nome, tambm chamada do Nogueira. Esse bero gracioso
de palmeiras,. com as oscilaes que a brisa da tarde imprimia s
longas hastes e aos frondosos penachos, parecia embalar-se no seio
das ondas.
Aqum apareciam as ribas arenosas onde brinca o travesso
Capiberibe tecendo lindos meandros e cingindo as quintas pitorescas
do Monteiro. Finalmente pelo mar estendia-se o negro cordo do
recife. Enroscando-se pelos abrolhos e cobrindo-os de grossos rolos
de espuma, davam as vagas aquele dorso grantico feies de enorme
serpente do mar, preposta  guarda das formosas hesprides de
Pernambuco.
Passava o Sr. Lisardo de Albertim em face de todos estes primores da
palheta divina, sem os ver sequer. No  isso de estranhar em
41
poetas, anomalias de carne e osso que fazem o desespero dos
fisiologistas e dos alfaiates.
Mais deliciosos que todos esses lanos de vista sobre o mar, achava
ele uns tabuleiros de mata-pasto que bordavam a areia nessas abas
da povoao, destacando sobre as faxinas das cercas vizinhas.
Aquelas varinhas ligadas com embiras tinham especial encanto para o
nosso poeta, que enfiava por elas uns compridos olhos e deleitava-se
na contemplao... do que, no sei eu; mas ali no havia seno umas
galinhas a ciscar, umas goiabeiras encarquilhadas e umas panelas de
borco no terreiro.
Pior foi quando bruxulearam entre a faxina as dobras de uma saia
azul de algodo tecido na costa da Mina, em frica. Nunca vesturio
de baile, apontoado por mos francesas e recheado de meia dzia de
ninharias parisienses, com esdrxulas designaes, objeto da
pasmaceira da gente do tom, teve no salo do Cassino poder igual ao
daquela saia, para excitar em to alto grau as emoes de um poeta.
Aquele azul era celeste; uns gadanhos de carvo e gordura o
tisnavam aqui. e ali, mas eram justamente esses laivos que traziam
presa a alma do mancebo. Tinha a saia um remendo de serafina;
quando o percebeu, ele no se pde conter que no soltasse uma
exclamao de jbilo e ficasse em um xtase indefinvel.
Assim, agachado entre o mata-pasto, com os olhos naquela bendita
apario esteve bom pedao. A saia tinha-se entrouxado perto das
marmitas; e pelo movimento destas, assim como pelo chiar do
punhado de palha e coaxar d'gua, parecia haver ali uma lavagem de
panelas.
De repente o poeta comeou a tremer; batia-lhe o corao com
palpitaes violentas.
Dera causa a essa repentina comoo um novo incidente. Observara o
Lisardo que dois tornozelos pretos e suas competentes canelas
moviam-se debaixo da tal saia, na direo da cerca, onde havia uma
portinha para o mata-pasto, bem defronte do nosso rimador. Em
sobressalto, lanou ele os olhos ao redor para ver se o espreitavam e
escondeu-se por trs das moitas.
A faxina da porta entreabriu-se. Uma preta de meia-idade, que tinha
jeitos de cozinheira, estirou o pescoo pela fresta e olhou para fora.
No vendo o que esperava ia a recolher, quando ouviu rumor na
moita e cuidou ver um vulto agachado. Logo aps soou um psiu
baixinho, e logo outro mais alto; afinal animou-se a aparecer o nariz
do poeta e a mo do mesmo acenando.
Poupo ao leitor os trejeitos, negaas e requebros que de parte a parte
se trocaram os dois antes de chegarem finalmente  fala.
- Est bom, s moo, acabe com isso que eu tenho que fazer.
- Ento, Benvinda...
42
A lngua do poeta tremia como folha de bananeira.
- Ento, voc falou?...
- Pois ento! No falara!...
- E ela que disse?
- Que sim.
Aqui teve o Lisardo um soluo que de todo embargou-lhe a voz. S a
muito custo recobrou a fala, no a natural, mas uma sumida e
fanhosa, que era pena ouvir.
- Deveras, Benvinda? Ela disse que sim? ...
- Disse, s Lisardinho.
- Como foi que voc falou? Onde estava ela?
- Meio-dia, quando ela veio no quintal apanhar goiaba, eu cheguei
devagarinho e perguntei assim: "A menina Belinhas sabe?... S
Lisardo, aquele moo que lhe manda os versos, tem um segredinho
para dizer  menina."
- E que fez ela ento, Benvinda? Conte-me tudo, tintim por tintim.
Deu uma risadinha gostosa e ficou vermelha que nem um tomatinho;
depois deitou a correr para a cozinha.
- E no respondeu?
- Nem palavra.
- Mas ento como disse voc... Ah! Benvinda, que no imagina o mal
que me fez.
- Espere l, moo, que ainda no acabei. Quando ela chegou na porta
da cozinha, voltou-se, chamando pelo meu nome, e bateu trs vezes
com a cabea, assim!
- Adorada Belisa! murmurou Lisardo engalfinhando as mos e pondo
os olhos no cu.
De repente assaltou-o a dvida:
- Mas, Benvinda, est voc bem certa que ela consentiu!
- Pois, moo, a menina  lagartixa para bater com a cabea  toa?
- Quem sabe se ela queria dizer Outra cousa! Talvez voc no
percebesse bem.
- Pois eu no sei o que fao? S Lisardinho em casando com a
Belinhas, me pe forra logo, no  assim?
- Antes disso mesmo. Olhe; eu tenho um planozinho em que ando
cogitando h dias. Vou mandar um memorial em verso ao Duque de
Cadaval, pedindo a vara de meirinho do serto que est vaga. Em
apanhando o provimento, como espero, trato logo de vender o ofcio
por boas patacas; e ento pode contar com a alforria. Se quer,
empenho-lhe os meus sonetos, que j andam em cento e quarenta.
- Nada; no precisa; basta que prometa!
- Dou-lhe minha palavra.
- Ento j se v que eu hei de tratar do meu benefcio, fazendo que
s Lisardinho fale c  menina. Escute: no tardam trindades. V-se
43
chegando aqui pelo lado da casa, encostado  ltima janela, e espere
um instantinho, que eu vou arranjar tudo.
- Agora mesmo? exclamou o poeta espavorido.
- J;  aproveitar a ocasio, enquanto as velhas esto ocupadas
fazendo fartns l dentro, porque esta noite ai vem cear muita gente.
Se no for hoje, ningum sabe quando ser.
- Mas pode ela no gostar!...
- Deixe por minha conta.
- No, o melhor ...
O dilogo foi interrompido por uma voz pachorrenta que chamava em
escala cromtica:
- Benvinda!... Benvinda!... Benvinda!...
O Lisardo quis meter-se pela terra adentro s de ouvir aquele
chamado. preta acudiu s pressas, acenando-lhe de longe que fosse
para o lugar aprazado.
Comea agora um quarto de hora que eu desisto de historiar; um
livro era mnimo espao para descrev-lo. O clebre quarto de hora
de Rabelais, em que a barriga cheia curtia o martrio da bolsa vazia; e
aquele outro chamado quarto de hora de pontualidade que, a ttulo de
cortesia, suportam os convidados de certos jantares marcados para as
quatro e postos s sete; nada disso se compara ao transe referido.
Quero ver contudo se por meio de uma imagem dou ligeira idia.
No h quem no tenha visto voar no seu terreiro uma pena de
galinha. Ludibrio do vento, o sutil objeto sobe e desce, vai e vem,
foge e torna, avana e recua, gira sobre si, pra e move-se, para
afinal esbarrar-se contra algum obstculo.
Pois em vez de pena, imaginem um rapaz enamorado; e ajuntem em
alta dose os tremores nervosos, os sbitos calafrios, os suores
gelados, de mistura com os repetidos fogachos; e tero uma idia do
que foi o tal quarto de hora de espera para o nosso Lisardo.
Afinal o encontramos na parede do oito, uma braa distante da
janela, e oscilando ainda como uma pndula entre o desejo de ficar e
o mpeto de fugir.
De repente a banda mais prxima da rtula entreabriu-se; dois dedos
mimosos enfiaram pela gelosia, e um olhar negro e aveludado filtrou
das estreitas frestas como um esguicho de mil centelhas miudinhas,
desferidas por todos os lados. Viu Lisardo o enxame de fascas e ficou
deslumbrado e quedo.
Vo-se acabando aquelas antigas rtulas que escondiam to guapos
amores; se algumas ainda restam pelas grandes cidades, j perderam
o suave perfume de castidade que dava a essas flores recatadas um
arzinho de violetas. Agora a rtula ser canteiro de arrudas e
mentruzes.
44
Muitos inventos modernos se introduziram em compensao: os vus
de fil, os crepsculos artificiais, as mscaras de cetim, as gazes
transparentes e outros engenhosos sistemas do ver e do no ver; mas
a rtula, c para mim, h de sempre deixar saudades. Uma linda
moa atravs da gelosia  a imagem das mais belas criaes de Deus,
a flor entre a folhagem, a estrela entre o azul.
Mas nada como o encanto que a rtula dava ao olhar! Quando se
movia brandamente embalada por mo descuidosa, parecia que
estava peneirando aqueles relanos d'olhos em um p sutil. Se Deus
me concedesse pulverizar uma estrela e pass-la por um crivo bem
fino, pudera eu pintar a trepidao graciosa de uns olhos negros por
entre a rtula.
Esquecia-me advertir. Olhos para rtula deviam de ser negros. Os
azuis, querem-se lmpidos, serenos e desnublados, como os puros
cus de uma alma anglica. Os outros, castanhos, pardos, verdes ou
gzeos, que arranjem-se como puderem e melhor lhes for; porm,
escusam de ter saudades da rtula.
Eram pois uns olhos negros, do mais belo negro, que se coavam pela
rtula do oito.
A princpio derramaram-se em torno; mas logo recolheram para se
atirarem ao mancebo, como uns punhados de alfinetes. Devia de ser
assim realmente, porque o pobre Lisardo sentiu o rosto a fervilhar.
To flexvel antes, qual folha de cana, estava agora o nosso poeta
estatelado  parede e rijo como estafermo. Fincava as costas ao
muro, a ver se podia sumir-se por ele adentro; os olhares
esparramados pelo mato fora tinham jeito de disparar; e de certo
houveram j deitado a correr por a alm, caso no estivessem
amarrados ao poste.
Os olhos negros e os dedinhos brancos cuidaram que os no tinha
percebido o poeta. Abriu-se um cantinho  rtula; tornou logo a
cerrar, rangendo de leve; buliu a aldraba devagarinho; enfim ouviu-se
um rufo mavioso de unhas rosadas no gradil.
Estes rumores significativos mais espavoriam o poeta. O rspido som
do gatilho de um arcabuz que lhe apontassem ao peito, no lhe
causara por certo maior pavor.
CAPTULO VIII
A DESTRA E A SINESTRA DO HOMEM EM MAISCULO
SEPARANDO-SE do nosso poeta, os dois companheiros se dirigiram
para o lado da ponte.
45
Cosme tinha destino, embora no lhe fizesse conta confess-lo.
Quanto ao Nuno, esse aproveitava a companhia para pautear, e ter
um pretexto de demorar-se fora da loja.
- O que voc disse, Nuno, no passa de brincadeira? insinuou o
Cosme.
- Pois ainda duvida? No tarda a estralada, e se no andarem com
isso depressa, eu c darei jeito  cousa.
- De que modo?
- Ainda no sei; mas hei de achar.
- Em verdade nunca faltam meios de barulhar as cousas; o acomodlas,
sim,  o difcil.
Nesse ponto do dilogo, o Nuno deu um salto, arregalando os olhos
para a ponte. Sem mais ambages, quebrou a esquina e barafustou
pela rua afora, deixando surpreso o Cosme, mas contente, porque o
forrava ao trabalho de se desvencilhar dele.
O que assim espantara ao caixeiro era a cavalgada do governador,
que j de volta das Cinco Pontas, atravessava para ir ao Forte do Mar,
como costumava.
Vinha Sebastio de Castro pensativo; o que no deixava de inquietar
ao secretrio e ajudante, os dois braos do governo da capitania,
colocados  direita e esquerda do excelentssimo toro.
No ser fora de propsito esboar aquelas figuras de ministros
coloniais; at mesmo porque podem servir para o paralelo com as
ilustres caritides modernas, que a andam em quadros de apoteoses.
Alto, bem apessoado, o Capito Barbosa de Lima florescia, apesar dos
anos que lhe tinham despovoado a fronte, sem fanar a rosada
frescura do agradvel semblante, nem estancar o perene sorriso que
manava dos lbios suasivos, como fio de um favo; e ele o tinha na
palavra insinuante.
Dos olhos pequenos e redondos lhe escapavam as chispas de um
esprito a cintilar, como lentejoula que era do seu engenho superior e
adestrado no manejo dos negcios. A cavalo, as pernas mais
compridas do que exigia a justa proporo do corpo dariam a outro
postura ingrata, seno ridcula; mas o secretrio com tal jeito
conduzia esse trambolho, e tamanha seduo crescia em torno de si,
que lhe esqueciam a prorrogao das gmbias, para somente verem a
afabilidade das maneiras.
As moas, que todas tm no mindinho sua unha de Dalila e gostam da
juba para a tosquiarem, todavia achavam bonita a calva do
secretrio; e os rapazes invejavam-lhe a estatura pernalta, a que se
atribua o ter galgado tanto pela escada da fortuna. Quanto aos
homens bons da governana da terra, velhos e moos, nobres e
plebeus, todos  uma o afagavam e todos o queriam por
companheiro. Razo tinham eles, pois era cavaleiro de boas manhas,
46
como se dizia ento: e pagava os defeitos de que ningum est
isento, com prendas de que poucos se ornam, ainda mais em vida de
tamanha porfia como a tivera.
Fazia contraste com essa feio prazenteira a fosca e sombria
carranca do Ajudante Negreiros, coberta de lvido pergaminho e
crivada por espesso molho de cerdas.
Dentre a barba hirsuta destacavam os grossos lbios de nina boca
flcida e lorpa que estava debuxando na balofa carnosidade a gula
insacivel de todos os apetites. Se h nos traos fisionmicos uma
expresso, essa boca fora talhada, no s para inchar a palavra,
arrotando petulncias e indigestos improprios, como para atolar-se
no tarro da sensualidade.
Nesse homem de plo hspido e couro adiposo, ressumbrava certa
expresso e gesto suno, que chegava algumas vezes at o grunhir. O
tronco parecia Digenes puro, mas lardeado de D. Quixote, e trufado
com Aretino. O todo afogado em grosso unto de Tartufo, mas com
uma rija cdea de Cato, que formava os folhos do grande pastelo
de carne e osso.
O antagonismo dos elementos agregados no indivduo o traziam em
tamanha anarquia, que se lhe desarticulava o pescoo a cada instante
em torcicolos e trejeitos, como se a cabea lutasse por despegar-se
do corpo estranho ao qual por engano a tinham ligado. Desse cacoete
lhe proviera uma volta do congote, que o tornava um tanto corcunda.
Os que mais de perto conheciam o ajudante tinham-no em conta de
homem s direitas, e fiavam tudo de sua inteireza. Tambm disso
damos testemunho; mas era para lamentar que a natureza no
tivesse virado ao avesso to excelente pessoa, mostrando-a antes
pelo forro.
Descendia o ajudante do ilustre Andr Vidal de Negreiros, do que
muito se enfatuava; e havia arranjado para seu uso um extenso
rosrio de nomes, que apregoavam sua antiga e remota linhagem.
Ao avistar a cavalgada  boca da Rua da Moeda que saa na Ribeira,
volveu D. Sebastio um olhar ao Ajudante Negreiros, e perguntou-lhe
com ar que se no era, bem parecia distrado e indiferente.
- No  na Rua da Moeda que mora o mercador Miguel Viana?
- A mora, sr. governador, acudiu o ajudante atento ao menor gesto
de D. Sebastio. E se V. Ex.a concede, vou-me j  casa dele agarrar
o mariola do filho!
- Em casa do Miguel Viana? perguntou o governador no tom do maior
espanto.
- Pois que  o pai do bigorrilhas!
- Ah!
- O sr. governador no sabia?
47
- Deixe em paz o moo, Negreiros, tornou D. Sebastio esquivando a
resposta.
- Em paz o quero eu, atalhou o ajudante com um regougo de riso,
mas  no Forte do Brum, aos tirantes de uma pea de 64. No h
como isso, para amansar o lombo desta canalha de birbantes.
- Tamanho rigor no pede o caso. Uma rapazia de moo brejeiro...
Basta que o pai lhe passe um repelo e lhe traga tente as rdeas.
- Aquele?... No toma caminho, a no ser o do pelourinho, onde certo
vai parar, se no o amarrarem  carreta e sem demora.
- Se o mandassem a Lisboa estudar, no cuida o ajudante, que se
havia de fazer gente? Lembre ao mercador, como cousa sua; ver que
ele abraa logo o alvitre. V, v ter com o homem.
Falara D. Sebastio com a habitual volubilidade; mas na leve
resistncia que despontara atravs da ltima rplica, percebeu o
Ajudante Negreiros o pulso da vontade oculta, que  semelhana da
odalisca de um serralho, nunca se mostrava a rosto descoberto.
Quando porm o fidalgo, sobre despedi-lo com a palavra e o gesto,
voltou-se de todo para o secretrio, impedindo assim qualquer
rplica, compreendeu nosso ajudante que a ordem era peremptria, e
rasgando uma cortesia com a cabea inclinada a tocar as orelhas do
cavalo e o chapu desbarretado at a garupa, separou-se da comitiva
para enfiar a Rua da Moeda.
Pouco faltava  comitiva para enfrentar com a Rua do Azeite em cuja
esquina ficara de planto o Cosme, depois da escapula do Nuno,
esperando a passagem do governador para fazer-lhe a sua
reverncia.
Respondeu o fidalgo  zumbaia do escrevente com um sorriso
animador, e  meia voz disse para o Capito Barbosa de Lima:
- A est um rapaz de recado, que bem merece ser aproveitado.
- J tinha pensado nisso, respondeu o secretrio que nem vira a sonsa
figura do escrevente. Consta que  de nimo cordato; ainda que o
suspeita o almotac de pender para os de Olinda.
- Que mal vem da? perguntou o governador com um sorriso melfluo.
Lembrou-se o capito que tambm ele, antes de tom-lo o
governador a seu servio, andara extraviado e fora do bom caminho,
tendo sido um dos mais respingados entre os do partido olindense.
Com o barrete na mo, e o espinhao reverencialmente curvo,
acompanhou Cosme a cavalgada at que a viu sumir-se por trs da
Madre de Deus. Arrancando ento um suspiro que lhe estava entalado
na garganta, deitou-se o rapaz a trote na mesma direo da
cavalgada, para atravessar a ponte e ganhar a outra banda donde j
podia estar de volta, se no lho estorvasse o trapalho do Nuno.
Seguindo de longe o governador, embalava-se o escrevente em
fagueiras esperanas, e sentia l dentro do corao umas ccegas
48
deliciosas. Parecia-lhe que sua estrela ia enfim raiar do seio das guas
turvas que se estavam encapelando.
A ocasio faz o homem, como o choco faz o pinto; sem ela, o homem
 um ovo goro.
Tal era o conceito em que se embebia o esprito do nosso escrevente,
pouco potico, se o quiserem, mas profundo na filosofia, no a
especulativa, que se deleita em chilras utopias, mas a prtica e slida,
que  a verdadeira cincia da vida.
Chegado  outra banda, encaminhou-se o Cosme  casa do almotac,
onde esteve de cochichos com a Sr.a Rufina, na janela do canto.
Do que ai o levou, e da espcie de comrcio que havia entre a
matrona e o escrevente, saberemos a seu tempo; sendo que neste
momento mal pudemos acompanhar o rapaz na disparada em que
vai, j de volta para o Recife.
Ei-lo que enfia pela Rua da Cadeia, e chegado  casa que procurava,
encostou-se  ombreira da porta, encolhido para que no 
avistassem de dentro; assim ficou a espreitar pelas fasquias da
rtula:
Na cmera servida por essa porta achavam-se em palestra animada
duas pessoas, uma cuja voz fornida retumbava pelo teto, e outra de
fala submissa embora rouquenha.
O sujeito do verbo alto trazia as vestes dos recoletos, e esquadriava o
pavimento de tijolo com umas pernadas, que nada tinham de
eclesisticas, e mais pareciam guinadas de espadachim. As vezes
parecia que a batina o tolhia, e dava-lhe tal safano acompanhado de
um trejeito da boca e dos olhos, que bem se via quanto lhe custava a
arrastar aquele trambolho. Se no fora a utilidade que lhe prestava,
com certeza j o houvera lanado s urtigas.
O rdego padre tinha a cabea batida; o rosto largo, olhos redondos e
lbios carnudos, que estavam denunciando a temulncia da carne no
castigada convenientemente pela abstinncia, e menos pela disciplina.
Apesar do freio de santarro com que ele havia bridado o caro
moreno, e do cuidado com que lhe amansava a braveza, no raro
mostrava-se ao natural a catadura, e via-se ento que era homem de
dar e tomar, como se dizia no serto.
E no serto deixara o Padre Joo da Costa, no tempo que por l
andara, memria de suas proezas. Entre outras cousas dizia-se que
na festa de uma freguesia, apresentara-se no largo, e puxando da
faca, arremetera contra uni pimpo para lhe bifar a rapariga com
quem estava; e conseguiu, porque era o frade faquista de fama, e o
outro sentiu bater-lhe a passarinha. Tomando ento a moa de
garupa, saiu o fragueiro do reverendo pela povoao afora, mui ancho
de si.
49
 verdade que estas e outras anedotas vinham de Olinda, onde o
Padre Joo da Costa era abominado, como a alma da conspirao dos
mercadores, e o esprito daninho que o estimulava contra os nobres e
moradores da terra. Convm portanto dar a tais murmuraes o
devido desconto da paixo partidria, to acesa naqueles tempos.
O outro personagem era homem de seus trinta anos, bem fornido de
carnes, com uma dessas construes macias, que se podem bem
comparar na arquitetura humana aos edifcios de pedra e cal, slidos
e elegantes. Tinha bela presena; e uma compostura, a que dava
realce a galhardia marcial, rara em um mercador, como ele era.
- Oua o que lhe digo, Sr. Miguel Correia. Antes de trs dias decide-se
a cousa.
- Pois eu aposto, Padre Joo, que ainda no  desta vez!
O frade soltou uma risadinha:
- Veremos! Amanh  noite em casa do Miguel Viana h de mudar de
parecer!
- Qual! Os mecos so espertos!
- So! So!... No h dvida!
Destas frases ditas em tom claro e compassado, pilhou o escrevente
algumas palavras. Infelizmente botando-se o Miguel Correia para a
janela, no pde ele escutar o mais. Bateu ento  rtula
devagarinho, como quem acabasse de chegar.
- Ah!  voc rapaz? disse o mercador levantando o postigo da rtula
que era de bater. Entre!
Enquanto arredava a porta .para dar passagem ao gaguinho, voltouse
para anunci-lo ao frade:
-  o Cosme Borralho, Reverendo!
- Bem aparecido, moo, disse o Padre Joo; j sei que nos traz
alguma nova importante!
- O reverendo e mais o Sr. Miguel Correia diro, respondeu Cosme
com modstia.
Sacando ento do bolso da sotaina o mao de papis, escolheu um
cheio de garatujas que apresentou aos dois. Logo apoderou-se o frade
do manuscrito e acercou-se da janela para o decifrar.
- H!... h!... fazia o reverendo, durante a leitura. Bravo!... Que
malandros!
Exultava o gaguinho por baixo da sonsa, vendo o efeito que produzia
o papel. Quanto ao mercador, depois de ter debalde tentado soletrar
as garatujas do escrevente por cima do ombro do frade, achou mais
proveitoso consultar as reverendas bochechas; e como elas se
espraiavam em riso gostoso que serpejava enroscando a papada,
tambm o bom do mercador se ps a gargalhar, esfregando as mos
de contente.
- Aposto que so obras do matreiro do entrevado?
50
- Foi o licenciado que o escreveu ainda esta manh, respondeu
Borralho.
- O Davi de Albuquerque? perguntou o mercador.
- Grande ronha!... Tem mais peonha por dentro do que lhe sai por
fora das chagas do corpo! prosseguiu o reverendo tornando  leitura.
O mercador tentou segunda entrada nos gregotins do manuscrito,
porm debalde.
- timo!... continuava o Padre Joo.
- Boas noticias, hem?... Bem dizia eu que o Borralho era um rapaz de
truz. Mas ento as cousas vo bem?...
- As maravilhas, Sr. Miguel Correia, futuro procurador do Senado
recifense! exclamou o frade com nfase, terminada a leitura.
Arrufou-se o mercador de prazer, como um peru de roda quando o
garoto rapaz lhe assobia no terreiro.
- Qual!...
- Digo-lho eu. O ms se no acaba sem que tenhamos pelouros
abertos neste Recife.
- Pois j to prximo?... tornou o Miguel. Pelo que vejo este papel 
algum arranjo que os ps-rapados nos propem?
- Este papel?...
Um riso desdenhoso borrifou a respeitvel belfa do frade, que inchou
as bochechas, para soltar a palavra retumbante com a nfase do
costume.
Aqui para ns, leitor, o reverendo preparava-se para representar o
papel de tribuno, que  o apostolado poltico; e por isso no perdia
ensejo de pr os pontos  sua eloqncia.
- Este papel?...  o mane, thecel, phares da orgulhosa Olinda!...
Como Babilnia cair para no se levantar mais, a famigerada cidade!
Este papel?...  o documento da conjurao que tramam os fariseus
deste Pernambuco, contra a autoridade do Rei, na pessoa de seu
governador, a quem trabalham com danada teno por deitar fora da
terra, a fim de porem a governana na mo de seus apaniguados,
embora se derrame o sangue de inocentes, contanto que satisfaam
ao seu nefando propsito de abater esta Sio do Recife, o que tenho
f no ho de consegui-lo...
O reverendo tomou flego, e enroscando no dedo ndex o fim do
longo perodo  maneira de carapito, outra vez encheu os foles da
bochecha para apontuar devidamente o fim daquela rajada de
eloqncia.
- ... jamais!...
Saiu o gaguinho dos biocos humildes e silenciosos em que se metera,
para manifestar por modos significativos sua admirao  oratria do
Padre Joo. Piscando os olhos de entusiasmo, e batendo a cabea
como o lagarto, animou-se a murmurar  meia voz:
51
- Nem o Padre Vieira!
Lanou o frade ao gaguinho o olhar de proteo com que hoje em dia
o ministro na Cmara afaga os ntimos que engastam em 'apoiados" e
"muito bem" as prolas, por ele desfiadas na tribuna.
Entretanto passava o Miguel Correia um momento bem atribulado. De
todo aquele soberbo jacto da reverendssima eloqncia, no tirara o
seu bestunto seno uma cousa; mas essa de arrepiar.
Era o tpico de sangue derramado to junto ao nome do Recife. Ora,
havia no digno mascate invencvel repulso por tudo quanto atentava
contra a integridade da pele humana, e sobretudo da que lhe forrava
o indivduo.
No se conhecia ainda naquele tempo a causa de semelhante
fenmeno. Medo; nem por sombras podemos conjeturar que o
sentisse um homem da polpa do Sr. Miguel Correia Gomes, capito no
tero dos brancos, e escolhido pelos mascates como um de seus
cabeas, para levar a cabo a grande empresa em que se haviam
empenhado.
Atualmente, abenoado progresso, qualquer estudante de Medicina
explicaria de uma maneira clara e decorosa aquela esquisitice,
diagnosticando uma afeco nervosa. Fique pois assentado que o Sr.
Correia, bem apessoado de corpo, era, no obstante a fartura de
msculo e fvera do seu todo, um organismo essencialmente nervoso.
Tal frouxido produziram nele as palavras referidas, que as pernas
faltaram ao tronco; os ombros afundaram sob a cabea; e o homem
se aboborou sobre o tamborete.
CAPTULO IX
COMO A CONSPIRAO, POR MAIS RODEIOS QUE FAA, VAI SEMPRE
DAR NA RTULA DOS OLHOS NEGROS
Afinal recobrara o mascate a fala. que eles so capazes de praticar
estas
- Deveras, Padre Joo, voc julga maldades?...
- Capazes eram, e de mais, se os deixssemos! Mas eles que faam o
levante, e lhes mostraremos!
- Um levante?... conseguiu balbuciar o Correia com a lngua perra.
- Pois ento, homem!... No est aqui a cpia do manifesto que
contam remeter para Lisboa, com o governador?
- Virgem Santssima!
- De que se espanta voc?
- Ah! padre, que desgraa!
52
- Diga que fortuna!
O mascate no tugiu; porm a cara agalgada retorquiu por ele com
uma eloqncia irresistvel.
Que mais desejamos ns, os do Recife? Que os fariseus de Olinda
ponham em prtica seus perversos intentos! Ento o senhor
governador acreditar no que lhe havemos dito; e far respeitar a
vontade de El-Rei, capturando os mais famosos entre os tais
fidalgotes de meia-cara.
- Mas o levante?
- O levante, abate-se! respondeu com fleuma admirvel o padre.
- Mas quem? O padre, com os seus congregados da Madre de Deus?
- Nada; l isso  da sua competncia, Miguel Correia, e dos outros da
militana. Ns os acompanharemos com as nossas preces...
- Sim; bem fechados no convento!
- Porque assim o exige o meu santo ministrio, que por gosto estaria
a frente dos nossos guerreiros, para bater a brecha em Olinda.
- A brecha!... A brecha!... Pois olhem: comigo no contem! gritou
Miguel Correia furioso a medir de uma  outra ponta a comprida sala
com uma desencadernao de passos inconcebvel. No  l por
medo; mas eu no posso ver matar aos meus semelhantes. No fim de
contas sou cristo, antes de ser mercador; e uma vila de mais ou de
menos na terra no  razo para se estar a gente a comer como ces
esfaimados!
Tendo neste solilquio enrgico feito sua declarao de voto, o
nervoso mascate barafustou pela casa adentro, meio peremptrio de
impedir a rplica do frade e assim melhor se convencer da verdade do
prprio dito.
O reverendo o acompanhou com um olhar de zanga:
- Se todos forem deste jaez, estamos aviados.  cada um ir tratando
de arrumar a trouxa e deixar a terra aos senhores dela. Perder a
melhor ocasio!
- O reverendo, ento, acredita que os de Olinda fazem o levante!
- Pois este papel? perguntou o padre surpreso.
- Andr de Figueiredo, bem sabe o reverendo, que  de todos o mais
empenhado contra o Recife. Foi ele quem encomendou o manifesto ao
licenciado Davi de Albuquerque, que o ditou, e eu tirei a jeito esta
cpia, quando o passava a limpo.
- Ento?
- Olhe, sr. padre, pelo voto dele, amanh j se punha o motim na
rua; mas  que a melhor gente est em dvida por causa do velho
Capito-Mor Joo Cavalcanti. Ento se emprazaram para um dia
destes em casa do dito, a fim de acordar-se no melhor.
- Pelo que vejo, ainda no  negcio resolvido! Que pena!
53
- Agora, uma cousa me parece a mim, que ao reverendo sem dvida
j lembrou. Se o governador, sabendo do manifesto, mandasse
prender alguns...
-  verdade; ocorreu-me h pouco. tima idia. Vou j tratar disto!
Ergueu-se o padre e despedindo o rapaz foi em procura do Miguel
Correia no interior da casa. Conseguiu explicar-lhe o novo plano ou,
como se diria atualmente em linguagem parlamentar, a ltima fase da
questo olindense.
O mercador apoiou com entusiasmo a emenda substitutiva. O
expediente da captura efetuada pela tropa de guarnio, em nome de
El-Rei, alm de no atacar os nervos do capito do tero, podia ser
um poderoso tnico, livrando-o dos constantes sobressaltos em que
vivia.
Assentaram pois de comunicar o plano aos amigos que se ajuntavam
quase todas as noites na calada do mercador Viana; e como j
estavam a pingar trindades, foram de passeio se encaminhando para
ali. A companhia de ordinrio comeava a reunir-se com o escuro;
porm o Miguel Correia tinha suas razes para chegar cedo.
Puseram-se os dois a caminho pela praia fronteira  Madre de Deus,
quando os apanhou o toque de ave-maria. Depois de recitada a
orao, deram-se mutuamente as boas-noites e, continuando o
passeio, foram sair nas imediaes da Rua da Moeda. Os quintais
separados formavam um beco estreito por onde se entrava da praia
para a cidade. Houvera ali outrora uma pequena porta, fabricada
pelos holandeses, mas j em runas.
A um dos lados da travessa estava o outo com a rtula dos olhos
negros. O Miguel Correia estendendo os olhos naquela direo, viu
cousa que o ps alerta. A gelosia estava entreaberta; e prximo da
janela, encostado  parede, havia um indivduo gesticulando. Tornouse
pensativo o homem; e seu companheiro teria reparado na
torvao, se no fosse uma figura de retrica das mais retumbantes,
e cujo efeito naquele momento ensaiava o padre sobre o mascate,
pensando que este o escutava.
Quem era o indivduo da rtula, j o sabemos. Ainda ali est onde
ficou, o nosso poeta; mas parece que no perdeu seu tempo, o
magano. Quando o deixamos, estava ele em suores frios por causa
de uns rebates de unhas rosadas que vinham da rtula.
Isso, porm, nada era  vista do que tinha de vir. De repente
escapou-se dentre as persianas aquele som mavioso, que s tm duas
cousas neste mundo: a brisa no seio da rosa e o hlito nos lbios de
uma moa.
Um suspiro!... Haver na mulher outra expresso que se lhe
compare? O olhar  a centelha; o sorriso a corola resplandecente; o
54
beijo a polpa deliciosa. Nada, porm, como essa fragrncia melodiosa
a destilar no seio da flor celeste, que se abre n'alma da virgem.
Felizmente para o Lisardo caram do sino do Carmo as primeiras
badaladas de trindades. O beato amante logo se ps em atitude de
cumprir com o dever religioso; nunca ele se desbarretara com
tamanha presteza, nem rezara com tanto zelo como nesta ocasio.
Tambm a gelosia se recolhera ao batente; e um silncio respeitoso
derramou-se por aqueles lugares j de si pouco ruidosos.
Quando se desvaneceram ao longe pelos ares as ltimas e gemedoras
percusses do bronze, o Lisardo levou o arrojo ao ponto de voltar o
canto do olho para a rtula, prestes a retir-lo com velocidade de
relmpago. Continuava cerrada a gelosia. Esta observao reanimou o
mancebo, que se meteu a falar entre si.
- Com certeza ela no volta mais; foi rezar junto das velhas. Portanto
posso me ir escapulindo. Que mais fao eu aqui? Podem bispar-me e
depois... Ela mesma talvez no goste, e tanto que j recolheu-se.
No acabara; rangeu de leve o gonzo da rtula, que se entreabriu; e
os olhos negros comearam de novo a cintilar de modo que faria crer
estavam apostados com a estrela da tarde,  qual luziria mais.
Lembrem-se daqueles moldes feitos em velho papelo, que as
rendeiras pregavam outrora na almofada com espinhos de macaba,
e faro idia justa da figura do meu pobre Lisardo cosido  parede por
aquele molho de crivos.
Instante depois, ressoou ali um canto suave. Os olhos negros
falavam:
- J est escurecendo; so horas de ir para dentro!...
Foi este aparte proferido com certa lentido pachorrenta de quem
procura um pretexto para retardar o cumprimento da obrigao; com
o mesmo vagar comeou a rtula de fechar-se, e o Lisardo imvel.
Quando cuidava ele ouvir o correr do trinco, abriu-se de novo a banda
da gelosia, e os olhos negros se puseram -  janela, mas desta vez
zangados, porque diziam:
- Ah! tambm... J me vou!...
Estiveram pouco tempo; de repente dali partiu um grito de susto, e a
rtula puxada batera com fora o batente que a repeliu:
- Ai, Jesus!... Um homem!...
Comeando na janela continuou a voz no interior:
- E eu aqui sozinha!
Entraram os olhos negros a jogar o esconde-esconde. Iam-se
chegando  rtula, e de repente furtavam-se com uma timidez cheia
de feitios.
O medo e o acanhamento outra cousa no  seno medo de certas
ninharias; desaparece como por encanto quando se acha em face de
outro maior.  capaz ento de ir at a petulncia. Se os olhos negros
55
sabiam disto, no posso afirm-lo; mas que os olhos negros so
melhores fisiologistas do que os doutores arvorados em mestres de
tal cincia, no haja dvida.
Assim foi que o Lisardo, vendo a moa ter medo e vergonha dele, se
encheu logo de certa importncia. A coragem a pouco e pouco lhe
aqueceu o nimo; despregou-se a lngua do palato e recobrou alguma
flexibilidade. Teve d dos olhos negros, lembrando-se da aflio que
neles havia de produzir sua audcia.
Tossiu o nosso Lisardo; afinou de leve a garganta, e com o gesto mais
arredondado, entrou a recitar para umas estrelas defronte:
DCIMA!
disse ele com voz de epgrafe e prosseguiu:
Entre um morrer e viver
Que me assalta a todo instante,
Traz-me sempre uma inconstante
S constante em meu sofrer.
Quando me cuido morrer,
D-me Belisa uns carinhos;
Torno  vida aos bocadinhos,
Eis logo me deita uns olhos
Que o foram, mas j so molhos
De enfados por entre espinhos.
Apenas comeou o recitativo, os olhos negros bruxulearam atravs da
gelosia, e foram a pouco e pouco se enfiando tanto pelo gradil, que j
se via junto deles uma testa branca de leite e um narizinho afilado do
mais puro tipo pernambucano.
- Ai, ai!... murmuraram no fim os lbios que se adivinhavam em uma
sombra rsea por entre o crepsculo da rtula.
Compreendeu Lisardo que este monosslabo suspirado era a resposta
eloqente  sua dcima; e que devia ele, para travar o dilogo,
replicar. Mas no se tendo preparado, ficaria em seco, se lhe no
ocorresse uma lembrana feliz. Repetiu os versos com um acionado
mais correto.
Desgraadamente desembocava pelo beco o Miguel Correia com o
padre. Ao espanto da rtula que fechou-se de repente, percebeu o
poeta a causa. Com tal cara de estatelado ficou ele, que o Miguel
Correia sentiu uma agastura no estmago, e coseu-se ao reverendo.
Mas, a distncia suficiente, voltou-se com um gesto mal-encarado e
escarrou duas vezes.
- Que lhe parece aquele sujeito encostado  rtula, Padre Joo?
perguntou ao frade em dobrando o canto.
- No reparei, no, homem. Mas ento desconfiou de alguma cousa?
56
- Eu sei!. .. Se a menina estava na rtula, o caso no  para graas. 
preciso que indague disto?
- Quer voc meu conselho? No indague de cousa alguma.
- Essa  boa. Ento se a rapariga andar de namoricos pelo quintal, eu
no devo curar disso?
- Para qu? respondeu o frade com um riso magano. Se por fora
voc tem de casar, no  melhor que ignore o mais? O que olhos no
vem, corao no sente. O Viana ajustou dar-lhe a mo da menina
quando ela entrar nos vinte anos; e eu,  preciso que saiba, j me
preparei para abenoar o consrcio e trinchar o peru das bodas.
Portanto, que mais quer o amigo?
- Quero saber a casta da mulher que levo para casa.
- L Isto nunca h de saber, nem que viva com ela cem anos.
- Mas em todo o caso sempre ser bom advertir o pai.
- Disso me incumbo eu, como capelo da casa.
CAPTULO X
TEM O LEITOR A INESPERADA FORTUNA DE SE AVISTAR COM UMA
NINFA OLINDENSE
Enquanto passavam no Recife estas cenas, outras do mesmo drama
se desdobravam na prxima cidade.
Era Olinda ento a princesa daqueles mares. Reclinada sobre os
verdes outeiros, ainda olhava ela com desdm a nova povoao que
surgia-lhe aos ps longe em uma nesga de terra sfara. Ainda sorria
altiva aos esforos da humilde serva, que tentava quebrar o preito e
obedincia devidas  legtima suserana.
E tinha razo. Olinda, a fidalga, a cidade nobre e de mais antiga
linhagem naquelas partes, seno em todo o Brasil, conservava nos
princpios do sculo XVIII a flor de sua beleza. Incendiada embora em
1630 pelos holandeses, renascera das cinzas e aumentara com o novo
influxo que recebeu a capitania depois de restaurada. Quem, pela vez
primeira, a avistava do mar, emergindo do seio das ondas,
compreendia como a absurda tradio de seu nome tanto se
vulgarizou. Realmente era para exclamar: - Oh!... linda, linda cidade!
O outeiro se elevava como um triclnio romano voltada a cabeceira
para o sul, e os ps estendidos pela dilatada campina. A, nesse leito
voluptuoso, se recostava a americana cidade. Suas ruas subiam as
encostas e serpejavam pela esplanada, a cavaleiro do mar. Era este
um dos encantos de Olinda, e que raras cidades possuem.
57
De ordinrio o viajante que chega no v logo seno o vulto indeciso
das cidades; a sua feio est no interior das ruas e praas para
conhece-la  preciso atravessar a orla de trapiches ou quintais que lhe
formam a crosta. Com Olinda no era assim; a faceira, garbosa de
sua formosura vinha ao encontro do viajante e abria o seio para
recebe-lo. Quem se aproximava de suas ribas alcantiladas, logo via do
primeiro lance o corao da cidade bem como o fluxo e refluxo da
vida no centro da povoao.
Provinha esta singularidade do corte abrupto da montanha pelo lado
do mar. Parecia que a cidade fora fendida a meio pelo desabo da
eminncia. Tinha esse aspecto alguma cousa de cnico que
redobrava-lhe o encanto; como nas vistas do teatro, o ponto visual
era no foco do sitio representado.
Outra graa especial de Olinda era a garridice campestre com que ela,
cidade nobre, se adornava. Os campanrios erriados de suas belas
igrejas, assim como os tetos vermelhos dos edifcios, surgiam de um
macio de verdura. No havia grupo de casas que no tivesse uma
cintura de ramagem e flores. O campo e a cidade, como dois amantes
se uniam em apertado abrao. A civilizao, assim vestida 
americana, tinha uns ares de louania e gentileza que a
embelezavam.
Dizem que to bonita era Olinda de longe, quanto feia e incmoda
dentro. Se essa tradio nasceu de gente invejosa, filha das outras
terras, ou de algum cronista vendido aos mascates,  cousa
impossvel j de averiguar-se. Mas em todo o caso no desabona a
cidade; h belezas para serem admiradas de longe; outras se querem
vistas de perto.
Infelizmente, aquele vio da altiva formosura no tardava se
desvanecer. L estava ao sul, numa orla de praia, a minguada
povoao de pescadores, que fora crescendo desde a invaso
holandesa; e devia em breve dominar essas regies.
Tinha Olinda todas as superioridades. Situao magnfica, ares
saudveis, gua em abundncia, terreno frtil, e vegetao opulenta;
esses eram os dons da natureza, aos quais o homem juntara outros:
as tradies da primeira colonizao, os edifcios bem acabados, e os
meios de defenso.
Recife era uma ponta de areia, estril, despida de arvoredo, ftida e
doentia, sem outra gua potvel alm da pssima fornecida por
cacimbas. A prxima Ilha de Santo Antnio estava nas mesmas
condies. Mas havia ali um ancoradouro, porta aberta ao comrcio. A
indstria, que j se estreava para um dia se apoderar da civilizao e
subjug-la, devia arrastar a populao do alto das verdes e risonhas
colinas s praias sujas, e infetas do Mosqueiro.
58
Assim, a pouco e pouco minguou a seiva  altiva cidade; suas casas
foram desamparadas; tornaram-se ermas as ruas; e o cadver da
formosa Olinda permaneceu como seca mmia entre a verdura das
rvores e as palmas dos coqueiros, nicas de suas galas antigas que
no desbotaram ainda hoje. Para consolo dessa velhice prematura
fizeram-na beata: deixaram-lhe a supremacia espiritual.
Quando a vi de primeira vez, transiram-me o silncio e melancolia
que a habitavam. Pareceu-me penetrar o vasto mbito de um templo
cristo. Tal era o profundo abatimento de Olinda, que no podiam
reanim-la a inexaurvel jovialidade e o habitual rumor da colnia
acadmica, ento para ali rejeitada.
Naquela tarde de 11 de outubro de 1710 resplandecia Olinda entre os
fulgores do ocaso. A rsea vez das nuvens refletia na branca fachada
dos edifcios, e algumas chispas do ltimo raio do dia abrasavam os
coruchus das torres. Ao meio da rua principal que se prolonga pelo
dorso da montanha, e ento como hoje se chamava de So Bento, do
mosteiro situado em frente, sobressaam as outras duas casas nobres,
da melhor aparncia naquele tempo.
Tinham sobrado ambas, com janelas de sacada, revestidas de altas
cortinas de rtulas, pintadas de vermelho. A primeira, mais larga e de
cinco portas, pertencia ao Capito-Mor Joo Cavalcanti, pessoa da
melhor nobreza de Pernambuco. A outra, de trs portas somente, era
da propriedade e residncia do Capito Andr Dias de Figueiredo,
morador dentre os principais de Olinda.
Na primeira sacada da ltima casa percebiam-se entre as gretas da
rtula, por onde coavam-se as derradeiras rstias do sol cadente, dois
vultos que pareciam de mulher; e o eram de feito. Estava sentada em
cadeira e mais recolhida, uma j revelhusca; a outra, moa e
formosa, em estrado e pendida para a sacada, a fim de aproveitar a
claridade; pois trabalhava na trama de uma bolsa de retrs.
- No se amofine com isto, menina! dizia a matrona.
- Pois, tia, no me hei de queixar de minha sorte, que me fez donzela
e casada, sem que o seja nem uma, nem outra? No me perteno a
mim, que sou de quem me disse o corao; no me perteno ao meu
marido, que dele me tem separada. Ah! soubera eu do que me
esperava, que no teria consentido! Afinal de contas ele  meu esposo
e eu devia acompanh-lo...
- Que diz voc, Leonor?... Queria ento ajuda-lo na guerra que faz
aos nossos?
- Quem fala disto, senhora? Sou to boa pernambucana, como a que
melhor for; e tambm, lhe juro, ningum se desvela tanto de amores
por esta Olinda, onde nasci e me criei, e parece que tudo me conhece,
porque brincamos juntos, quando era eu criana; e vai a ponto que
59
viver fora daqui, creio que no  mais viver, e sim morrer-se em vida
aos poucos.
- Se pensa por esse teor, de que se arrepende ento?
- Eu sei, tia? Tenho c uma cousa comigo a dizer-me que se no
fossem ao Sr. Vital Rebelo, logo na mesma noite em que nos
desposamos, a intimar-lhe para morar em Olinda, ele se no havia de
agastar; e depois com o tempo, pedindo e rogando, como era meu
dever, tudo alcanaramos dele. E agora!...
Curvou Leonor ainda mais a cabea, dando ao colo alvo e flexuoso
uma ondulao de cisne, a fim de esconder da tia a lgrima cristalina
que tremia nos clios e veio a cair no regao. Mas a voz no a pde
esconder; viera aquela ltima palavra rociada de prantos.
- Est bom, tornou a senhora; console-se que breve tudo isto acaba.
Em vencendo ns aos tais mascates...
- Contanto que lhe no faam mal! replicou prontamente a moa.
- Disso lhe dou fiana, menina; basta ser seu marido e meu sobrinho.
- Mas quando acabar?
- Qualquer destes dias.
- Ah! Deus lhe oua, tiazinha de meu corao, exclamou a donzela
esposa, erguendo ao rosto as mos juntas para o cu.
Nesse movimento as madeixas do cabelo castanho descaindo para as
espduas mostravam em toda a pureza natural o belo semblante de
Leonor. Entre a lmpida alvura coavam uns reflexos de luz rosada que
anunciavam a aurora da esperanada ventura.
D. Severa lanou-lhe um olhar de castel.
- Ai! Quem me dera outra vez aqueles bons tempos em que as damas
e donzelas sabiam arrostar os perigos e davam aos senhores homens
o exemplo do herosmo? Tambm por isso eram mais respeitadas e
queridas do que so hoje, que vivem encostadas ao canto que nem
traste velho e fora de uso. Se no era outra cousa bem diferente das
de agora uma fidalga, ainda mesmo do tempo de minha av, que
pelejou em Porto Calvo com D. Clara? E por sinal que atravessou dois
holandeses com uma s lanada!
- Jesus!... Que mulherzinha!
- E eu sou capaz de outro tanto; o ponto  me acompanharem.
- Ui! tia no se lembre disto. J estas cousas andaram to baralhadas
sem ns mulheres andarmos a s voltas, quanto mais se nos
fssemos tambm meter com elas? Ento  que ningum mais se
entenderia; por fora que havia de vir muita desgraa, sem contar a
que j estou prevendo de me ver casada e descasada to sem graa e
de repente!
- No digo! Para choramingas e rezas  que servem hoje as mulheres.
Se fosse uma dama do bom tempo, que se apartasse como voc,
Leonor, de seu esposo para seguir a seus parentes, em vez de ficar
60
em casa a fazer meias ou bolsas, punha-se em campo com seus
acostados e gente d'armas; e havia de no menos vencer o inimigo 
ponta de espada, do que render o esposo com um bote de lana, que
no com um requebro d'olhos.
- Nossa Senhora me defenda de tal tentao!
- Ai, saudades!... Aquilo  que era viver! continuou D. Severa
entusiasmada. A gente sempre adorada, cavaleiros de todas as partes
que cercavam a dama de seus pensamentos, e bastava um aceno
para que eles fossem ao fim do mundo, e isso s em troca de um
sorriso de longe em longe, ou quando muito de uma flor, de modo
que assim a formosura de uma fidalga podia chegar para fazer a
tantos felizes; e no  como hoje, que vive fechada dentro de casa
para um s, e este mesmo nem com ela se importa!... Ai, tempos,
belos tempos dos torneios, das justas, das cruzadas! Tempos de
constncia em que a gente no se dava de esperar dez, vinte, trinta
anos, que seu esposo voltasse da Palestina!  para se comparar!...
Aqui vejo-me obrigado a dizer alguma cousa sobre o fsico da Sr.a D.
Severa de Sousa, para que o leitor no se deixe ir a suposies
arriscadas!
Tinha a fidalga cinqenta anos bem puxados: os cabelos, ainda no
grisalhos, mas de um preto ruo, trazia-os ela em diadema enastrado
de fitas verdes, amarelas e escarlates. Nas faces, onde a natureza ps
aquele doce pomo rubescente, que nossos pais com propriedade
chamaram as mas do rosto, havia outra variedade de fruto, duas
nozes.
Formavam estas salincias em conjuno com o queixo no menos
proeminente a triangulao da beleza de D. Severa, que se contava
no rol das ninfas olindenses. E no era vaidosa, no. O nosso amigo
Lisardo que tinha entradas no Parnaso e privava com as musas, lhe
dedicara h tempos um madrigal neste gosto:
Onde vais correndo assim?
Pergunto  Flora chorosa.
Diz-me a deusa: "Busco a rosa
Que fugiu do meu jardim."
Acode amor: "Oh! no penses,
Que volte a ser flor mimosa,
Cllia, a ninfa mais formosa
Entre as ninfas olindenses.
Ah! poetas, poetas. Por que vos deu a natureza um estmago?... Sem
essa vscera exigente no sereis forados, vs, os sacerdotes do belo,
a cantar as Donas Severas de todos os tempos; e a incensar as
61
torpezas de ambos os sexos, que por ai pululam corno rs, neste
grande charco, chamado mundo!
Observava Leonor com um arzinho zombeteiro o entusiasmo
cavalheiresco da tia, e o sorriso que lhe brincava nos lbios j
abrochava para soltar algum remoque inocente, quando uni tropel de
cavalo soou na rua, que a distraiu. Enfiando o olhar pela fresta da
gelosia, teve um sobressalto e se arremessou de encontro  rtula
com irresistvel impulso.
- O que ? 0 que ? perguntou D. Severa estendendo o longo
pescoo, que no madrigal do Lisardo devera representar o pednculo
da rosa.
CAPTULO XI
O PRIMEIRO SANGUE DERRAMADO NA FAMOSA GUERRA DOS
MASCATES
Um cavaleiro bem parecido e trajado com lindas roupas, que descia a
rua na direo da Misericrdia, fora causa do sobressalto da moa.
Quase fronteiro  janela, o fogoso cavalo em que montava caracolouse
voltando rapidamente sobre os ps; e durante um momento lutou
o mancebo, que mostrava ser excelente escudeiro, para subjugar o
animal. Nesse tempo o tinha visto Leonor, que se lanara para a
janela.
Decerto percebera ele o vulto da moa e a reconhecera, porque fitou
nela um olhar expressivo acompanhado por um gesto rpido.
Entreabrira a mo direita erguida; e um pequeno objeto, mais alvo
que as rendas do punho, apareceu na palma. Logo aps, dando de
rdea ao cavalo, seguiu a passo pela rua adiante.
- No  nada, tia, disse Leonor ainda trmula, sem retirar os olhos
das restas.
Mas no se  ninfa debalde. A esperta da D. Severa no pudera ver j
as feies do cavaleiro, mas admirando-lhe o talhe airoso que
moldava a casaca de lemiste, induziu pela perturbao da sobrinha
quem era o guapo mancebo.
- Sonsa! Cuidas que no o conheci?
- A quem, senhora?
J livre da surpresa, a moa volveu os olhos em torno como se
procurasse alguma pessoa.
- A quem mais, seno a teu marido que passou neste momento! Pior
 se me queres fazer de boneca!
- Bem vi um cavaleiro, mas se era o Sr. Vital Rebelo no digo, porque
no reparei; estava olhando para outra cousa.
62
- E o susto que voc teve?
- Ah 1... Cuidei que me tinha cado o fio da seda, respondeu a moa
mostrando o novelo.
- Estes olhos no me enganam!
- Est bom!
Dizendo isto com um tonzinho de arrufada, Leonor se absorveu
completamente no trabalho, apesar de estar quase escuro. A matrona
continuou:
- Agora, porque nega voc, no sei. No  to natural que seu
marido, vencido de saudades, quebre os protestos de esquivana e
espie as ocasies de ver sua esposa e senhora? Assim praticava-se
antigamente. As damas encerradas em seu castelo viam s vezes
passar um cavaleiro misterioso, de viseira cada; ou ento  noite
calada, pelo claro da lua, ouviam alguma serenata embaixo da sua
torre. Batia o corao  castel: "Quem ser?" perguntava baixinho
para a aia. E ficava naquele sobressalto da dvida, se porventura
seria o esposo que tornava, ou algum outro cavaleiro enamorado de
sua beleza, que neste vai e vem da esperana  que estava o maior
gosto. Qual era naquele tempo o marido que depois de uma ausncia
entrava em casa, como hoje, to sem graa, que a gente j sabe o
dia e hora em que chegam e a cara que trazem?
- Mas, ento, nesse tempo as esposas viviam sempre ausentes, ou
ainda pior, desquitadas de seus maridos?
- Pois a estava a galanteria, menina! Amarrem um ao outro, como
uma caamba na corda, duas criaturas, e agora vejam que
aborrecimento no  este de se aturarem a todo o instante, que por
fim de contas ambos j se sabem um ao outro de cor e salteado; e de
mais a mais, est-se vendo que a gente no pode receber as finezas e
requebros dos cavaleiros, mesmo nas barbas do homem?... No tem
jeito nenhum. Como era, sim, que. os maridos nunca perdiam o garbo
de namorados, e as damas viviam at morrer sempre requestadas
com mil gentilezas. Minha bisav tinha setenta anos quando D. Jorge
de Albuquerque, num torneio aqui mesmo. nesta Olinda, l no ptio
do palcio, com o punhal na gorja, obrigou trs cavaleiros a
confessarem que ela era um bogarim.
- Por causa dos cabelos brancos? observou ingenuamente Leonor.
- Fosse pelo que fosse. Ainda h quem ouvisse falar do quanto era
formosa ento; e dizem que em mocinha se pareceu comigo.
As observaes sensatas de D. Severa suscitam uma reflexo curiosa
a respeito da semelhana entre os costumes cavalheirescos, na parte
conjugal, e os atuais costumes realistas. Exceo feita de algumas
circunstncias mnimas, e substitudos os torneios pelos bailes, as
serenatas pelos presentes, parece que o fundo  o mesmo.
63
Escutava Leonor a matrona somente com o ouvido esquerdo, porque
o direito o tinha ela alerta ao menor rumor de fora. De repente a
conchinha cor-de-rosa, meio oculta pelas madeixas castanhas, ardeu
com sbito rubor. O som da pata de um cavalo batera ao longe o cho
duro e seco da rua.
- Ai, querida tia, me conte do torneio. Ento D. Jorge de
Albuquerque...  o donatrio, o filho de D. Brites, o que pelejou na
ndia, no , tia?... Mas ento ele atirou a luva por minha tatarav!...
No ? Como havia de ficar a dama toda cheia de si!... As cores...
Quais tinha D. Jorge?... Eram negras as armas, sem dvida? E o
mote?...
Tais perguntinhas caram sobre a matrona como um enxame de
abelhas, e a atordoaram um instante; recobrando logo seu ar solene e
cheio de dignidade, comeou D. Severa a narrao pitoresca das
cenas do torneio, em que fora sua bisav proclamada o bogarim de
Olinda.
Entretanto se aproximara o tropel, que cessou de repente por baixo
da janela. Se D. Severa estivesse menos preocupada com as
reminiscncias cavalheirescas da famlia, no lhe escapara decerto
nem essa circunstncia, nem o curioso ponto de malha que a sobrinha
apesar do escuro acabava de inventar.
Julgo conveniente dar s minhas amveis leitoras, se as tiver, a
explicao desse ponto elegante, porque estou certo a no
encontraro em nenhum jornal de modas.
Faz-se volta sobre a mo direita, enfia-se a agulha sutilmente pela
fresta da rtula; um cavaleiro na rua amarra um bilhetinho na agulha
e estica o retrs; colhe-se ento docemente a volta, e de novo
tranando as malhas, remata-se o ponto de laada. H atualmente
muitos outros pontos de croque mais em voga; porm nenhum to
elegante como aquele.
Muito antes de terminar D. Severa o episdio da bisav, tinha Leonor
rematado seu ponto; e sentindo a fazer-lhe ccegas no seio um
papelzinho dobrado, tornou-se inquieta e desassossegada. Nem mais
escutava a narrao daquela famosa aventura do bogarim, que to
viva curiosidade lhe despertara pouco antes.
Afinal se no pde conter:
- Eu volto j, tia D. Severa; um instantinho, enquanto arranjo meu
toucado que se desmanchou, no sei como.
- Pois juntas iremos.
- Para que ter esse trabalho? No me demoro nada. Espere a tia.
- Porventura, Leonor, quer voc esconder de mim alguma cousa?
- Eu?.. . Esconder!. .. Ora que lembrana esta agora da tia!
- Pois est voc com tantas partes por uma cousa -toa!
- J no digo nada; a senhora tia faa como for de seu gosto.
64
- Venha ento para a alcova se compor.
- No  mais preciso; aqui mesmo arranjarei.
Contrariada, Leonor alisou os cabelos com as pontas dos dedos e deu
pelo aposento alguns passos a esmo, indecisa sobre o que havia de
fazer, e ao mesmo tempo impaciente de tomar uma resoluo.
Soaram passos no corredor; entrou um escravo com uma candeia de
garavato para acender o lampio da sala; e logo em seguida o dono
da casa, que naquele momento chegara da rua.
Representava o Capito Andr de Figueiredo ser homem de trinta e
sete anos; toda a sua pessoa respirava exuberncia de energia e
arrebatamento, que dizia com a organizao musculosa e o adunco
perfil.
Ao entrar, dardejou um a outro canto da sala, olhos que no
buscavam somente, mas iam j cheios de iras para afrontar o objeto
procurado. Reconhecendo que estavam ss as duas senhoras, sofreou
um tanto os mpetos; e se dirigiu para elas dando as boas-noites.
- Traz-nos alguma boa nova, Capito Andr?
- Nenhuma, senhora prima.
- Disso j eu sabia que era bem escusado perguntar-lhe, porque nada
havia de saber. Os homens de agora assim  que nos tratam, de
resto. J se foi o tempo da galanteria, em que as damas eram as
primeiras consultadas sobre os negcios; e no se saiam por isso os
cavalheiros mal das empresas, antes no sei que diga, que muito
melhor do que hoje em dia, e a prova ai est na nossa terra.
Aproveitou Leonor o ensejo para ganhar furtivamente a alcova. Como
de costume crepitava na cantoneira aos ps da Virgem a luzinha da
griseta de prata, que era a devoo da moa, l por uma certa
promessa que fizera.
O bilhete que tantas ccegas lhe fizera, continha poucas palavras:
Senhora, que esposa no devo chamar quem se roubou ao Juramento
que a fizera minha. Foroso  que vos veja e fale pela derradeira vez.
Se de todo ainda no se apagou em vosso corao aquele afeto, que
j vos mereci, e antes nunca o merecesse, por vosso bem e meu
sossego, interceda ele em meu favor para que obtenha de vossa
crueldade, essa merc.
Devorou a moa com os olhos primeiro, depois com um alvio de
beijos, a carta; e cerrando-a entre as mos cruzadas, levantou para a
Virgem uma prece eloqente, ainda que muda. Outro pensamento,
porm, a reclamou; desejava responder; e as dificuldades lhe
ocorriam  mente.
Atualmente, no h mocinha de dez anos - outrora se chamavam
meninas s de vinte - no h, dizia eu, bonecrinha de carne e osso,
65
que no tenha sua papeterie com papel de vrios tamanhos, desde o
de palmo para cartas de negcio at o de polegada para os
bilhetinhos aucarados. E no s papel como sobrecartas, fechos
emblemticos, lacres perfumados, penas diamantinas, areia de ouro,
enfim todo o arsenal de ninharias indispensvel  cincia epistolar, a
mais transcendente e sublime deste sculo.
A bem dizer, a carta  a mais poderosa alavanca do progresso: nem o
jornal lhe chega. Quem se propusesse a estudar sua fisiologia e
sistemar as espcies de que so principais a carta de empenho, a
circular dos candidatos, a de crdito, a de namoro, de felicitao, de
cumprimentos, a reservada, reservadssima e confidencial, escreveria
uma bela obra, um livro prtico, dos mais justamente apreciados na
atualidade. E faria fortuna o autor, principalmente se o governo lhe
ficasse com a metade dos exemplares, no intuito de promover a
colonizao.
No tempo desta histria, a cincia epistolar estava ainda no embrio.
Cada casa, e das fidalgas e abastadas, era mobiliada com um tinteiro
nico, mas respeitvel.
Esse traste importante, acompanhado dos seus acessrios, o areeiro,
duas penas de ganso e uma hstia ou obreia encarnada, estava
debaixo de chave e sob a guarda imediata do dono da casa, como o
responsvel pela honra e segurana da famlia.
Lembrou-se, portanto, Leonor da resposta por escrito, somente para
reconhecer a impossibilidade em que estava de usar dela. O outro
meio, mais corriqueiro, o dos recadinhos, bem sabia ser impraticvel,
assim de repente, em uma casa onde a traziam espiada. Sfrega,
correu os olhos por todos os cantos e mveis do aposento,
procurando um meio, ou pelo menos uma inspirao.
Com a cabea inclinada em atitude pensativa, engastando entre os
dentes de prola a unha rosada do polegar, e estremecendo de
impacincia, estava encantadora a donzela. Dir-se-ia que ela
esperava tirar da coroa daquele dedinho mimoso o fio do enigma,
como costumava puxar com os dentes a ponta da linha para
desembaraar a meada.
Eis que desperta com um pulinho de contentamento. Estende o seu
leno de batista sobre o donzel, e tirando uma agulha de bordar do
aafate de costura; picou a veia azul do brao esquerdo.
Uma gota, e da mais fina prpura, borbulhou na tez alva e acetinada.
A molhando a mido a ponta da agulha, pde escrever na cambraia
estas palavras: amanh na cerca.
Machucou o leno na mo, que mal o escondia, e disfarando esta
entre os fofos da saia, voltou  sala onde encontrou ainda em
conversa animada D. Severa e o capito. As outras senhoras da casa
estavam sentadas em roda de D. Lourena, respeitvel matrona
66
pernambucana, que muito se avantajou nas letras e virtudes. Era
irm de Andr de Figueiredo, e viva.
Achando j reunida na sala a famlia,  qual esperava antecipar-se,
hesitou a moa; a resoluo porm no se fez esperar. Acercou-se do
grupo, dizendo:
- Quem me d um lugar?
E sem esperar resposta:
- Est bom; tenho meu estrado.
Encaminhou-se ento para a janela com o pretexto de arrastar o
estradinho em que estivera sentada  tarde. Do primeiro lance viu ela
parado em frente da casa um vulto. Observando que no reparavam,
abriu rapidamente a aldraba da rtula e arremessou o leno.
Ao voltar-se de todo para melhor empurrar com o p o estrado, viu
em frente Andr de Figueiredo, que se aproximava dela:
- Sabe quem andou hoje por Olinda, Leonor?
- Como posso saber, eu que daqui no saio nunca? respondeu a moa
trmula.
- O Vital Rebelo!
- No disse eu? acudiu D. Severa.
- Bem minha tia teimava que o tinha visto! continuou Leonor.
- Que ter ele vindo buscar? perguntou D. Lourena.
- No sei; mas queira Deus no seja o que suspeito! replicou o
capito com surda voz de ameaa.
- Que vem fazer? acudiu D. Severa. Pois, Lourena, no tem ele
destas bandas a dama de seu corao?
- Tomara eu que me ele deixe sossegada! balbuciou Leonor.
Plida e demudada, foi a moa tomar lugar na roda das senhoras,
disfarando para esconder seu terror. Mil vezes arrependida do que
fizera, bem desejava, se fosse possvel, resgatar com um ano de sua
vida aquele momento de irreflexo. Quantas desgraas talvez no ia
causar a sua imprudncia?
CAPTULO XII
ONDE SE ENCONTRA NOTCIA DO SOF QUE TIRAVA O SONO AO
GOVERNADOR
Era noite cada.
Iluminou-se a rua com o claro dos fachos agitados pelos pajens, que
precediam os nobres cavaleiros e suas damas.
Das bandas da Misericrdia e Varadouro, retroava o cho com o
estrupido de animais que se aproximavam; e com pouco levantou-se
67
debaixo das sacadas o burburinho que produz o vozeio soturno de
muitas pessoas.
Eram bandos de cavaleiros, que chegavam acompanhados de seus
pajens, e alguns precedidos de palanquins, onde vinham as donas e
filhas dos nobres moradores de Olinda, para o sero quotidiano das
casas do Capito-Mor Joo Cavalcanti.
Ficavam estas casas  direita e parede-meia das outras em que
morava o Capito Andr de Figueiredo; eram, porm, mais vastas e
avantajadas, assim na forma da construo, como no custo das
alfaias e mveis que a adereavam.
Ocupava dois teros da frente a pea principal, a casa do sof, larga
sala em quadro, com as paredes revestidas no tero inferior de
almofadas de brasilete e o resto de colgaduras de pano de rs.
De meia volta em abbada, era o teto pintado a fresco, com tarjas
douradas que cercavam os vrios painis ovais dispostos em simetria
pela precinta e representando episdios guerreiros da descoberta de
Olinda, ou frutos e aves de Pernambuco.
No centro do teto, em obra de talha, via-se enroscada uma serpente,
mastigando nas presas a corrente donde pendiam uma grande
lmpada de prata cinzelada com sete luzes, que bastavam para
esclarecer o vasto aposento.
s quatro janelas rasgadas para a rua correspondiam trs portas de
comunicao interior, sendo a entrada pela cmara da direita donde
se descia ao vestbulo, e ficando  esquerda, ao longo da parede, o
sof.
 noite de ordinrio conservava-se fechada a porta larga do fundo,
que era do oratrio; salvo quando se tinha de festejar algum santo de
particular devoo da casa, como era o Evangelista, seu padroeiro; ou
quando celebravam-se casamentos e batizados de pessoas da famlia.
Nos quatro ngulos da ampla sala desciam at a meio da parede
trofus com lambeis volantes, em cuja apiciadura ressaltavam
suspensos  cornija quatro escudos em metal com os brases de
aliana que o capito-mor tinha o direito de trazer e eram os dos
Coelhos, Barros, Sousas e Bezerras.
De jacarand preto, trabalhado a torno, e de sola vermelha com
pregaria de metal amarelo, era toda a moblia. Nos espaldares das
cadeiras coroados pelo elmo aberto em obra de talha, esculpira destro
artfice o escudo das armas do capito-mor.
A essa casa concorriam regularmente todas as noites os moradores
principais de Olinda, parentes pela maior parte ou aderentes do
capito-mor, para colher informao das cousas da governana e
andamento da repblica; e tambm combinarem os melhores alvitres
na estreiteza em que se achavam, com os negcios da terra bem
68
intrincados, e o governador to desviado do bom caminho pelo mau
conselho dos que o cercavam.
Era Joo Cavalcanti naquele tempo o chefe da grande famlia
Cavalcanti, que em Pernambuco data da fundao da colnia, e
provm de troncos nobilssimos; pela linha materna saram da estirpe
dos Coelhos e Albuquerques, flor da fidalguia portuguesa, e pela linha
paterna remontam a Arnaldo Cavalcanti, que se aliou na casa dos
Mdicis, a mais ilustre de Florena; de cuja linhagem nasceu Filipe
Cavalcanti que se passou a Pernambuco, nos primeiros tempos da
povoao.
De grandes posses, senhor de muitos engenhos, vivendo  lei da
grandeza, com todos os regalos da vida; bravo, corts e generoso,
embora presumido de sua fidalguia; liberal at  prodigalidade, de
bolsa aberta sempre para quem a ele recorria: era de razo que
tivesse o capito-mor grande squito no s entre os moradores
nobres, como na gente mida da terra.
No havia, entre os mazombos insignes daquele Pernambuco, outro
mais acatado do que este, e to poderoso; pois s com os seus
escravos e os acostados de seus engenhos, sem falar das suas
ordenanas e dos inmeros sequazes que tinha pelos povoados, podia
levantar da noite para o dia um bom tero de tropa mais decidida,
seno melhor armada, do que a milcia do governador.
Mazombo era o ttulo popular que tinham naquela poca os principais,
entre os nobres pernambucanos. A histria, que nos conservou o
vocbulo, hoje caduco, descuidou-se de transmitir a origem; de modo
que, a no ser o precioso manuscrito desta crnica, no poderia o
Instituto Histrico, apesar de profundas e sbias investigaes,
assentar opinio segura em to escabroso assunto.
Tinha a destruio dos Palmares divulgado boa cpia de nomes
africanos, empregados pelos negros na sua repblica. Zambi
chamavam ao cabo supremo, a quem todos obedeciam; e muzambi,
eram os grandes oficiais, do servio do maioral, e seus ministros.
Por desprezo, entraram os mercadores portugueses a alcunharem os
nobres pernambucanos de mazombos, como para inculc-los de
cabecilhas de negros, querendo com isso lanar-lhes o labu de gente
de cor.  peco esse de nossos irmos, tine mais tarde inventaram
com a mesma inteno o epteto afrontoso de p-de-cabra.
Repetiu-se o que sempre sucede em tais casos. Os filhos de
Pernambuco, e especialmente a gente de cor, trocando em honroso
mote o nome que lhes haviam lanado os contrrios como afronta,
timbravam em designar por mazombos as pessoas principais da
nobreza pernambucana; e tornou-se o titulo de mazombo insigne a
maior glria a que poderia aspirar um fidalgo na terra de seu
nascimento.
69
Quando entrou a famlia de Andr de Figueiredo, j achou a sala
povoada dos parentes e vizinhos que eram certos ao sero.
Atravessando por entre as mais pessoas, que se moviam no aposento
para tomar lugar, ou recostarem-se s sacadas das janelas, o bando
chegado por ltimo aproximou-se do sof.
No era qualquer sof o da casa do capito-mor, nem se parecia em
nada com o mvel to conhecido e corriqueiro, que hoje em dia
trasteja a mais pobre das salas de visitas, ou alfaia o rico palcio, com
a diferena apenas da madeira e da forma elegante.
Naquele tempo esse requinte de luxo oriental, que os portugueses
trouxeram de seu comrcio das ndias, poucos se animavam a gozlo;
e no tanto pelo custo das alfaias, como pela espcie de pompa
real, que tal uso comunicava ao aposento. Nas colnias, porm, nunca
as pragmticas foram tomadas ao srio; os ricos moradores ou
fidalgos das capitanias zombavam dos cimes da majestade e de suas
leis sunturias.
Corria no fundo e ao longo da parede um largo estrado, com alcatifa
de veludo escarlate e ressalto de dois degraus sobre o soalho da casa,
guardado todo ele por um esparavel de brocado azul, que se elevava
em cpula suspensa  parede com um floro de bronze.
Na face exterior dessa cpula apainelava-se o escudo oval dos
Cavalcantis, com as armas de prata coticadas de negro, em campo de
pala, prata no fundo, vermelho em cima, floreteado tambm de prata.
Por timbre um cavalo com asas, mos suspensas, ps sobre o elmo,
volante por entre chamas.
Sobre o estrado havia uma camilha de couro rendado em arabescos e
flores que deixavam coar-se o ar pelos recortes; fresco ripano que
em clima ardente como o de Olinda convidava os lassos membros ao
repouso. Era brasil a madeira do custoso mvel, e as pregarias da
melhor prata.
Em frente  camilha e tomando-lhe a vista, um bufete coberto por
cima de charo da ndia com embutidos ou marchetarias, e fechado
dos trs lados de fora por bambolins de couro de Moscvia com
iluminaes de prata.  volta do bufete, algumas cadeiras e
tamboretes rasos ofereciam assentos aos poucos admitidos nesse
lugar de honra.
No momento em que se aproximavam D. Lourena Cavalcanti e Andr
de Figueiredo com os de sua casa, achava-se recostado na camilha,
com o corpo derreado sobre a almofada de couro, um velho de
sessenta anos, alto, magro, de feies descarnadas, olhos vivos e
cintilantes, cabelos grisalhos, e tez acobreada que denunciava o
sangue americano.
Era o Capito-Mor Joo Cavalcanti.
70
Naquele instante acabava ele de apear-se  porta da casa, donde
partira quatro horas antes para acabar a tarefa comeada pela manh
de correr os engenhos prximos da cidade: lida com que se
entretinha, quando no havia outra cousa em que passar o tempo.
Depois de cinco ou seis lguas a cavalo pelas margens do Capiberibe,
pode-se avaliar da boa fadiga e apetite que devia trazer. Assim ia ele
acomodando-se na camilha, com as pernas estendidas pela prateleira
do bufete, enquanto no lhe punham ali mesmo a ceia.
Nesse intermdio, iam chegando os da obrigao de todas as noites,
que logo se encaminhavam para o estrado a saud-lo e desejar-lhe as
boas-noites. Aos parentes mais moos dava ele por antigo costume a
mo a beijar; fossem descendentes ou simplesmente colaterais
remotos e talvez improvisados, nenhum prescindia de lhe tomar a
bno, e julgariam ter decado do seu agrado, se lhes ele recusasse
aquela mostra de submisso e respeito.
As pessoas mais qualificadas tomavam lugar no sof, junto ao bufete;
e a durante a primeira parte da noite, praticava-se acerca das novas
mais importantes do dia, e preparavam-se os futuros sucessos que
deviam perturbar o sossego da capitania.
Joo Cavalcanti pouca parte tomava nos planos e alvitres; o mais do
tempo ouvia, e quando instado para dar seu aviso, sempre eximia-se
com a velhice, que j lhe tinha gasto a tmpera. E no era por
modstia, se no por um pressentimento da verdade que o dizia.
De feito, nesse carter de antes quebrar que torcer relaxara-se a
rgida fibra e, qui, pela tenso que lhe dera outrora uma vontade
impetuosa e o gnio em extremo arrebatado. Chegara a ponto que,
fora de seus hbitos inveterados, os quais j tinham adquirido fora
mecnica e materialidade de instintos, no era mais homem para
decidir-se por si, no mais importante negcio da vida.
No acudisse algum para incutir-lhe uma resoluo, que ele deixaria
ao azar o encargo de remover a dificuldade.
 do homem perecer assim aos poucos,  semelhana da rvore, que
em se aproximando do termo de sua durao, comeam-lhe a tombar
as folhas primeiro, aps os ramos, e por ltimo fende-se o prprio
tronco e esboroa carcomido pelo tempo. Da mesma sorte ao velho,
morrem-lhe os cabelos, quando lhe despem a fronte, ou encanecem;
despovoa-se a boca, e a obra melhor do Criador no  mais do que
uma runa que de dia em dia se desmorona e desfaz no p de que se
formou.
Conservara o capito-mor sua integridade fsica, e aos setenta anos
era um velho ainda verde e rijo. A eiva ali penetrara no cerne; fora ao
moral, e consumira as poderosas faculdades, que outrora animavam
esse organismo, deixando-lhe apenas o exterior.
71
Com especial demonstrao recebeu o capito-mor a sua sobrinha D.
Lourena Cavalcanti; era a pessoa de seus extremos.
Depois que lhe deu a mo a beijar, e a abraou com muito carinho,
sentou-a perto de si na beira da camilha.
- Ento, D. Lourena, sempre quereis que se rompa, filha? perguntou
a rir e com maneira afetuosa o velho.
- O que eu quero, bem o sabe o senhor tio, que  ver esta nossa terra
livre da praga de aventureiros que a infestam, e restituda a seus
legtimos senhores.
- Bem falado, D. Lourena! exclamou Leonardo Bezerra.
- Melhor seria para todos que isto se fizesse sem briga, nem
contendas. Mas se no pode ser por outra forma, e fora  defender e
sustentar no campo nossos privilgios e forais, os nobres de
Pernambuco devem lembrar-se que descendem dos que restauraram
a ptria e  liberdade esta capitania, muitos dos quais ainda a esto
como o senhor tio, e Deus os conserve ao nosso amor por muitos e
dilatados anos, para exemplo aos seus e estranhos.
- Lembrem-se tambm as damas pernambucanas do que devem 
terra onde floresceram uma D. Clara Camaro, e uma D. Maria de
Sousa, acudiu em tom espevitado D. Severa.
- Ai, que esta ainda  mais guerreira que a D. Lourena, pois no se
contenta s com instigar, mas quer ela mesma sair a campo, e
batalhar! Assim D. Severa! exclamou o velho capito-mor galhofando.
- Por mim j teria lanado um cartel a D. Sebastio de Castro; e em
vez de estar aqui todas as noites a levantar planos, que  um no
acabar, e nunca vo por diante, eu houvera chamado o governador
em repto de honra a p, a cavalo, na estacada, ou em campo
aberto...
- Ol de dentro!... gritou D. Joo; tragam-me j da sem detena a
armadura de meu av, para esta cavaleira andante. Quanto a ns,
senhores. vamos ver se nos do uma roca ou uns bilros, e nos
arrumamos no estrado a dobar o algodo e a fazer rendas. Porque, as
cousas da Repblica, c a D. Lourena as destrina melhor que um
letrado; e no que toca a assunto de guerra, l a D. Severa com trs
botes de lana pe tudo em debandada.
J a esse tempo estavam os assentos prximos ao sof ocupados
pelas pessoas do costume.
Das principais eram, alm das j nomeadas, o Coronel Domingos
Bezerra Monteiro, o Sargento-Mor Leonardo Bezerra Cavalcanti com
os dois filhos, Cosme e Manuel, alferes ambos, o Sargento-Mor
Cristvo de Holanda, o Capito-Mor Matias Coelho Barbosa e o
licenciado Jos Tavares de Holanda, os quais todos aplaudiram com
risadas a sada do velho Cavalcanti e mofaram dos recachos marciais
de D. Severa.
72
Apareceram na sala os pajens, mas no acudindo ao chamado, seno
a porem a mesa para a ceia, que estava a pingar a hora cannica.
Estendida sobre o charo uma colcha de damasco de seda franjada,
pois o capito-mor no admitia, como j era uso, comer sobre roupas
de linho ou algodo, cobriu-se a mesa da fina loua de porcelana, com
ramagens verdes e tarjas douradas. O servio era todo ele de prata
lavrada, com o braso da casa.
Foi lauta a ceia. Vrios assados de vitela, peixe e aves, peas de caa
do monte e volateria, carvonadas de carneiro e galinhas, chacinas de
porco e uma grande torta de mariscos, formavam a parte suculenta
da refeio: o que bem se podia chamar a armao do edifcio
culinrio.
Havia demais, para debicar-se nos intervalos e preparar o estmago
para novo assalto, morcelas de Arouca, enchovas, pastelinhos de
cabidela, o picante caril, azeitonas, alcaparras, e outras gulosinas
naquele tempo inventadas pela arte cibria para regalo dos glutes.
Entre essas iguarias da cozinha portuguesa apareciam os novos
quitutes brasileiros, primcias da nacionalidade que j despontava
nesse to importante mister da vida, como em tudo o mais. Viam-se
ali os covilhetes de paoca e inhames, as muquecas enfolhadas, os
bolos de car, acepipes ensinados pelos ndios, sem falar das
corbelhas de filigrana de prata cheias das mais saborosas frutas do
pas, ananases, pinhas, mangas e bananas.
Tambm a par dos bons vinhos das Canrias e do Reino, figurava o
mosto do jenipapo e a garapa; assim como no se desmerecia entre
os pes de vrias formas e receitas quais o mimoso, o sovado e o
comum, a nossa farinha d'gua, e as alvas tapiocas, em lindas cestas
de palha matizada, trabalho dos caboclos.
Acabavam os pajens de pr a ceia e preparavam-se para servir aos
convivas, quando notou-se do lado da entrada certo alvoroo, ainda
que mui ligeiro, entre as pessoas ali agrupadas.
Dera causa a essa animao a chegada de um cavaleiro, que
reproduzia-se em mesuras a um e outro lado, para logo aps
desfazer-se em mil abanicos e finezas acompanhadas de partes
mgicas. A cada um saudou com apuros de cortesia e umas inflexes
de talhe, por modo requebradas, que tinha jeito de se estar
enroscando pela gente.
- Ai. chega o Filipe Uchoa! disse o capito-mor que lobrigara o
cavaleiro atravs de suas floretas. Ainda bem! Cuidei que o no
teramos hoje  ceia!
- No lhe falta que fazer, acudiu o Sargento-Mor Bezerra; mas de
tudo se desempenha a tempo e pelo melhor. No sei de outro de mais
conselho, nem capaz de tanto e em to poucos anos.
73
Expandiu-se o Capito-Mor Joo Cavalcanti com o elogio feito ao
sobrinho.
- Chegais a ponto para a primeira investida, Uchoa, como bom
cavaleiro que sois.
- Aprendi em boa escola, como no quero que a haja melhor, em toda
a cristandade, respondeu o Uchoa, afagando a vaidade do velho.
CAPTULO XIII
UM RASCUNHO DO SECRETRIO DA CAPITANIA COM PRESUNO DE
ESTAMPA
Arrastando os tamboretes, acercaram-se os convivas da mesa, ou
tbua, como diriam Joo de Barros e Frei Lus de Sousa, com um de
seus to freqentes galicismos.
Filipe Uchoa tomou o seu lugar do costume,  esquerda. de D.
Lourena Cavalcanti; e passou logo a exercer o seu mister de
trinchante, no que era de consumada percia. Muitos lhe invejavam,
mas nenhum ousava disputar-lhe o honroso mister, em que fazia as
vezes do dono da casa, como o parente de seu especial afeto entre os
homens, da mesma sorte que D. Lourena entre as damas.
- Senhores e parentes, assaltemos este castelo roqueiro que nos est
afrontando.  brecha, Filipe Uchoa! Depois veremos o que se h de
fazer ao Brum e s Cinco Pontas, que so os baluartes do governador.
Afincara o bacharel a faca do trincho no empado de caa; e cortou
para o tio uma naca formidvel, servindo em seguida aos outros
convivas, na proporo da valentia gastronmica de cada um, o que
ele conhecia pela prtica do ofcio e experincia adquirida.
- No tivesse ele outros baluartes seno esses, que no seria faanha
rend-lo com os fronteiros que temos, observara o Uchoa.
- E quais outros cuidais que ele tenha, senhor bacharel?
-  principal o ouro dos mascates, que. vai semeando a traio entre
os naturais, de sorte a no se poder j contar com a f do mais
seguro.
- Se at ao Sr. Capito-Mor Joo de Barros, nosso tio, se atreveram
os pcaros a fazer-lhe um, tiro  queima-roupa, mas de mil cruzados,
que doutra espcie de bala no entende nem quer saber a cfila dos
forasteiros, atalhou o Capito Andr de Figueiredo.
- J no tornam os tempos, em que davam os naturais exemplo de
uma constncia e herosmo que no tm inveja aos mais decantados
das antigas eras, exclamou com fervor o licenciado Jos de Holanda.
Aqueles eram pernambucanos, e sabiam servir a ptria e a religio,
74
que livres desamparavam a casa e a famlia para no se curvarem ao
jugo de hereges, e cativos rejeitavam a liberdade, porque tinham em
mais valia do que to precioso dom, guardar a f a seus senhores.
- Depois que a ral da mascataria, mal pecado nosso, lastrou por esta
terra, j ela no pode ser o que foi, o Pernambuco de nossos maiores;
nem afogado como anda de ms ervas e pragas, podem mais a
medrar as virtudes, que rebentavam outrora com tamanho vio.
A pouco e pouco foi caindo a prtica, embargada da tarefa de
destrinar no prato as vrias iguarias, mais agradvel e avisada
naquele momento do que a de razoar sobre cousas j to discursadas.
Terminado o primeiro pasto, retiraram os pajens as iguarias que
transportaram  casa de jantar, onde j estava posta a mesa para o
restante da companhia. Entrou ento a ltima coberta dos doces e
conservas de acar para o dessert, como j se dizia nessa poca 
moda francesa, em vez de postre.
Veio o infalvel manjar-branco; em seguida as castanhas de caju
confeitas, as tortas de maturi e creme, as trouxas d'ovos to
decantadas pelo bom Filinto, as conservas de frutas e a deliciosa
cocada em tigelinhas de cristal, tudo acompanhado de vinho Palhete e
de Cndia.
No centro campeava uma pirmide de prata lavrada, formando por
andainas uma pinha de belies de abbora e batata, pucarinhas finas
de gelias de ara e pitanga, trebelhos ou flores de alfenim, e as
saborosas queijadinhas, preparadas pelas mos mimosas de D.
Lourena para o velho capito-mor, o qual lambia os beios de gosto,
depois que devorava uma boa dzia delas.
Era nessa ocasio da sobremesa que. os principais dos parentes,
conhecidos como os de melhor discurso e. conselho, ficavam ss
entre si; porque o mais da assemblia acudia por sua vez  ceia, que
j os estava esperando na casa de jantar, presidida por lvaro
Cavalcanti, o filho do capito-mor, um desbragado que levava a vida
a pautear, no cuidando seno de jogo, mulheres e comezainas.
Por isso achava-se mais a gosto ali em liberdade e fora das vistas do
pai, do que no sof, onde nada lhe interessava do que se tratava, e
sentia-se tomado de uma como bebedeira de aborrecimento e sono.
Antes que se entre a tratar de negcios graves, aproveitemos a curta
pausa para assentar os traos mais salientes do bacharel Filipe Uchoa,
que teve parte mui proeminente nos sucessos daquele tempo.
A figura, serviria um furo abaixo, e com diferenas mnimas, o mesmo
molde por onde se tirara o secretrio do governador, o Capito
Barbosa de Lima. Por primeiro contraste logo se notava que neste a
cabea era sobre o largo, enquanto no outro se alongava direita; no
que porventura algum entendido na abstrusa cincia do homem ver
um sintoma de que no bacharel dominava exclusivamente o prurido
75
de subir-se ao mais alto, ao passo que no secretrio a ambio no
lhe tolhia as expanses generosas.
Afora essa particularidade, no mais era Filipe Uchoa o escoro de
Barbosa de Lima, de modo que ver um, tanto valia como ter
conhecido o outro em moo, antes que os anos bem surtidos lhe
houvessem dado todo o corpo. Da mesma avantajada e pernalta
estatura, com uma calva que no secretrio chegara ao apogeu, e no
bacharel se estreava to prometedora como a sua entrada nos
negcios; dotados da mesma abundncia de gesto e mobilidade de
compostura, bem podia-se tomar estes dois nobres pernambucanos
como o primeiro e segundo esboo lavrado em gesso para servir 
fundio de um molde.
Nas maneiras, em que ambos primavam  lei de corteses, reparandose
bem, l se lobrigava um cambiante. Assim, no secretrio a
afabilidade espraiava-se como as ondas de um manancial perene; no.
bacharel, ao contrrio, saa aos esguichos, quanto bastava para filtrar
na vaidade alheia. Era sincero o primeiro, e obedecia ao impulso de
sua natureza; ao passo que no segundo havia mais afetao do que
ndole.
No perdoava Filipe Uchoa ao Barbosa de Lima o ter este conseguido
granjear a confiana do governador e encartar-se no lugar to
cobiado de secretrio. Trabalhava pois, e com afinco, para derrib-lo
do posto, e rend-lo nele, trazendo D. Sebastio  boa causa, de que
andava transviado. Se, porm, fosse preciso, para entrar nas graas
do homem, algum arranjo com os mascates, salvo o direito de meterlhe
os ps a seu tempo,  mui de crer que no hesitasse o bacharel,
como hbil poltico.
Nesse empenho, muito se valia da boa sombra que lhe davam o nome
e fama do tio, o Capito-Mor Cavalcanti; e para melhor o levar, no
se esquecia de granjear a boa vontade de D. Lourena, em quem o
velho principalmente empregava o seu afeto.
Era de ver como refinava galanterias no favonear as presunes da
prima que se tinha na conta de uma Duquesa d'Alba, capaz de
empunhar as rdeas do governo da capitania, se fosse necessrio,
para o que se julgava com mais letras e melhores bofes do que toda a
parentela junta e refundida.
Para acabar o paralelo entre os dois competidores, falta ainda um
trao. Era o secretrio homem de engenho superior e filho de suas
obras; donde vinha o no sentir inveja do mrito alheio. O bacharel,
garfo de extensa parentela, tinha o talento preciso para manter-se na
altura em que o plantara a fortuna, e desconfiado de que no podia
subir alm, cuidava que s abatendo os outros, conservaria a
proeminncia.
76
Ningum se queixara jamais de um ato menos leal do secretrio,
embora no faltassem muitos a lanar-lhe a pecha de pendores e
mobilidades nos alvitres, como modo de ver as cousas. Do bacharel
nada se falava acerca de volubilidade, porque sempre esteve ele
adstrito ao feudo da famlia e jungido ao carro da fortuna; mas a
cpia que d a crnica quanto ao refolho,  de to insigne, que
chegava ao ponto de enganar-se a si prprio.
Tocava ao termo o pospasto no sof, como bem o indicava a postura
do capito-mor, j um tanto derreado sobre o espaldar do
espreguiceiro, pelo qual. ia-lhe aos poucos resvalando o mal sustido
corpo.
Aproveitou Andr de Figueiredo o ensejo da privana para tratar do
assunto de ponderao, que o trazia preocupado desde o comeo da
noite.
- Meu tio e senhores parentes! Sabereis que tenho para propor 
vossa prudncia consumada, negcio de muita e grande monta.
E com estas palavras que a todos ps de aviso, tirou o capito do
peito do gibo um rolo de manuscrito, que empunhou na destra 
guisa de basto de comando.
No escapou esse meneio do primo a Filipe Uchoa, que era perito na
arte de tirar pelo semblante as inquiries do que ia l dentro. E
todavia o gesto de Figueiredo no era seno um assomo, rijo
porventura, de seu nimo franco e resoluto.
Distrado, como parecia, a contemplar o topzio lquido de um clix de
Palhete que ia gostando aos goles, relanceou o bacharel por cima dos
culos um olhar oblquo a uma e outra banda.
Esqueceu esse pormenor, como porventura outros que se iro pelo
diante tirando a limpo. Trazia culos o bacharel; andao este, que a
lermos por Montesquieu,. grassava naqueles tempos
grandissimamente entre os portugueses, pela venerao que de todos
granjeava.
Nariz cavalgado por um, par de cangalhas, no dizer do malicioso
francs, por fora que era um nariz sbio, credor do maior respeito,
torre de cincia e promontrio de prodigioso engenho. Ora, a
probscide do bacharel, se tais eptetos no existissem, os inventaria.
- No ignoram V.ces, meu tio e senhores parentes, como tm corrido
os tempos na esperana traidora dum remdio que no chega e talvez
nunca chegar, pois no  de hoje que esto no costume em Lisboa
de nos esquecerem quando carecemos de defender nossa liberdade e
ptria; mas havendo algum dote ou qualquer outro subsidio, sem
falar das fintas ordinrias, ento sim,  de ver quo prontos se
lembram, e os rendimentos e termos amistosos com que o fazem.
- Tem carradas de razo, Andr de Figueiredo! disse o Sargento-Mor
Bezerra.
77
-  tempo j que venhamos a uma congruncia feliz para os negcios
de Pernambuco, ameaado de completa runa pela soberba e aleivosia
dos mercadores do Recife. E como o lembrar  para todos, enquanto
que o avisar s cabe a poucos, e esses de muito conselho e
experincia, pareceu-me comunicar-vos o que entendo sobre estas
cousas, em que andam. empenhados nossos brios de pernambucanos,
to pisados nestes ltimos tempos, e o respeito a uma ptria ilustre,
que no havemos de consentir se torne feitoria de mascates.
- Qual  pois vosso alvitre, Capito Andr de Figueiredo? disse o velho
Cavalcanti j de todo derreado contra o espaldar. Dai-nos a saber;
contanto que no seja algum partido extremo.
- Para o sujeitar ao voto do tio e de todos os senhores e parentes,
que ministros melhores no podem ter os negcios de Pernambuco, o
trouxe eu; e no  outro seno o de rompermos de uma vez em
defesa da ptria e da liberdade pernambucana, intimando com
antecedncia ao governador esta resoluo, para o caso de que
prefira ele arrepiar do mau caminho e enxotar de ao redor de si a
scia dos mascates. E fio-vos eu, que em tendo a cousa por certa, ele
o far. Se porm persistir no seu erro, recambiemo-lo a Lisboa com
um manifesto a El-Rei em o qual lhe exporemos nossos agravos e as
razes maiores que nos levaram  forosa necessidade de
despedirmos desta terra o mau ministro que lhe ps por governador.
O manifesto, senhores e parentes, aqui o tenho j; f-lo a rogo meu,
nosso amigo, o licenciado Davi de Albuquerque.
Abriu ento Andr de Figueiredo o rolo de papel que tinha fechado na
mo esquerda enquanto falava; e mostrou em roda o manuscrito, do
qual se preparava a dar leitura aos circunstantes.
Nesse momento o bacharel Uchoa, que ouvia ao capito com um
sentido grave e atento, enfrestou por cima das vidraas um olhar
significativo a D. Lourena, e temperando ao de leve a garganta,
props-se a dar seu voto:
- Senhores meus e respeitveis parentes, aqui reunidos  sombra do
venervel chefe de nossa famlia, disse o bacharel fazendo com a
cabea a vnia do costume ao capito-mor, que j ento se achava
em perfeita diagonal. Ningum que tenha meditado as cousas do
governo, como elas merecem, desconhecer a verdade de quanto
exps nosso primo, Capito Andr de Figueiredo, e a urgncia do mal
que pede remdio pronto; pois se lhe tardamos com ele,  perder
logo toda esperana de cura.
Foi este o exrdio da arenga que o bacharel trazia preparada para o
caso. Pelo Cosme Borralho, que era da sua roda, tivera ele notcia e
comunicao do manifesto encomendado por Andr de Figueiredo ao
licenciado Davi de Albuquerque. Atinando desde logo com o
pensamento do primo, e no lhe sofrendo a vaidade levasse outro nos
78
conselhos da famlia as lampas que pretendia somente para si, tratou
de pr cobro ao que julgava uma usurpao.
Nesse propsito entendeu-se com D. Lourena, que era nos ltimos
tempos a alma viva do capito-mor, seus olhos e seus ouvidos.
Soberba, imperiosa, rendia-se contudo a matrona pernambucana 
admirao e encmios, de que a trazia constantemente incensada
Filipe Uchoa, sem que entrasse nesse rendimento o mais remoto
vislumbre de ternura. Tal encanto achava D. Lourena em sentir-se
adulada pelo mancebo apontado como o grande luminar da famlia,
que rarssimo era recusar-lhe sua condescendncia.
Desta vez o caso parecia rduo, pois cifrava-se em induzir D.
Lourena a contrariar um plano do prprio irmo, e o de mais
estimao. Mas to ao vivo lhe representou Uchoa os perigos com que
o trao imprudente de Andr de Figueiredo ameaava a ele primeiro,
e a todos os seus, que nem hesitou a matrona, e tomou a seu cargo
preparar o capito-mor.
Depois do intrito, formalizara-se de novo o bacharel. Dando ao vulto
mais outra camada de gravidade, comeou a cortar o ar ante si com o
impulso e retrao do brao, como se preparasse um escoadouro 
exuberncia de sua palavra. Saiu ento uma dessas arrancadas de
eloqncia, nas quais se esto mostrando os puxos da memria para
dar  luz as idias, e o enfaixamento das pobres criaturinhas mal
nascidas.
Serviu de tema ao bacharel a resenha dos acontecimentos, que se
tinham sucedido desde a posse do Governador Sebastio de Castro; e
isso com pormenores de fatigar e minudncias fteis que nada faziam
ao caso; mas entendia l para si o bacharel, que fazia prova de
engenho profundo e investigador, catando semelhantes argueiros
para sopr-los nos olhos dos outros.
- Tal  o estado a que chegaram as cousas em Pernambuco, e quanto
mais grave, a no ser nossa prudncia e moderao! Em to grande
estreiteza havemos de ficar indiferentes e entregar a pior azar a sorte
nossa e da ptria? Por nenhum modo; carecemos de voltar o rosto, e
empenhar quanto pode e vale a nobreza pernambucana para repor as
cousas no seu assento e trazer a bom termo as diferenas que
tamanho dano causam. Mas o meio de o alcanar?...
Nesse momento,  porta de entrada fronteira ao sof, apareceu o
vulto do Lisardo e cresceu pela casa adentro. Ao que se via, o poeta
da famlia no estava nos seus eixos; alguma lhe acontecera que o
trazia espantadio. Avanava, no com sua habitual macieza, mas
inteiriado, aos trancos,  guisa de maninelo de papelo empurrado
pela mo do titereiro.
Era este nem mais nem menos do que o garoto do Nuno, o qual
levado da breca e decidido, fazia finca-p metendo os braos aos
79
ombros do Lisardo, e aos bolus introduzia em casa do capito-mor o
nosso rimador, apesar da visvel repugnncia que a este inspirava
naquela noite o teto protetor e hospedeiro.
Desta sorte tangido pelo caixeiro, atravessou Lisardo a casa do sof, e
sumiu-se na casa do jantar, sem que as personagens reunidas em
torno do capito-mor fizessem grande reparo no incidente.
A todo momento estavam entrando as pessoas de trato e conversao
da casa, e o Lisardo era bem conhecido a ttulo de comensal e
trovista. Quanto ao Nuno, agachado por detrs do camarada, no se
lhe via do sof nem mesmo as pernas a mover-se por baixo do gibo
do outro.
Esgotada, portanto, a pausa que o bacharel com jeito colocara diante
de sua interrogao para avultar-lhe a fora e o peso, prosseguiu na
sua orao:
- "Quomodo?... Por que modo, ou por que modos? Somos entrados no
labirinto mais intrincado das conscincias que so os modos, os
traos, as artes, as invenes de negociar, de intrometer, de insinuar,
de persuadir, de negar, de anular, de provar, de desviar, de
encontrar, de preferir, de prevalecer; finalmente de conseguir para si,
ou alcanar para outrem tudo quanto deixamos dito."
So do nosso Padre Antnio Vieira to discretas palavras, em que
muito se pode aprender para o nosso caso. Se afrontarmos com as
armas a D. Sebastio, carregamos com todas as culpas, porque em
suma  governador desta terra, nela posto por El-Rei, Nosso Senhor,
como seu capito-general; e  bem de ver que na pessoa dele
desacatamos a majestade que o elegeu.
- Em tal caso cruzemos os braos, e entreguemos duma vez o
pescoo  canga dos mascates, interrompeu Andr de Figueiredo.
Filipe Uchoa sorriu:
- Aqui  que se h mister todo o artifcio e sutileza de engenho com
que estes modos se fiam e estas negociaes se tecem. J no temos
que esperar seno de nossas armas, e fora  que venhamos s
mos? E note-se que no o afirmo eu, seno que apenas o concedo
por suposio. Pois ainda nesse caso extremo, achemos traa de
sermos ns os provocados; de sorte que antes parea que fomos
coagidos da dura necessidade de defender nossa vida e liberdade, do
que levados de animosidade contra o governador. Este  o meu voto;
e assim tenha eu a fortuna de o ver aceito, que no me pouparei a
p-lo logo por obra, de sorte que saiamos quanto antes de to difcil
conjuntura.
Terminada a arenga do bacharel, D Lourena que se debruara como
para melhor ouvir, mas principalmente com o fim de esconder o vulto
do capito-mor, disfaradamente acordou-o puxando-o pela barba
80
pois j ressonava. Desperto, o velho ergue a cabea para dizer com
voz trpega:
- Bem falado, Filipe Uchoa.  o que temos de melhor a fazer.
Depois desta aprovao, se algum pretendia opor-se com outras
razes ao alvitre do bacharel, desistiu do propsito A ltima palavra
acabava de ser proferida; e o conselho de famlia estava encerrado
por aquela noite.
Ergueram-se todos da mesa j despida e espalharam-se pela casa,
enquanto D. Lourena corria os reposteiros de sarja vermelha, que
cerravam o sof, transformando-o em pequena recmera, onde
costumava o capito-mor dormir o primeiro sono.
Nessa ocasio ouviu-se grande rebulio na casa de jantar.
CAPTULO XIV
COMO D. SEVERA ACHOU TO A PONTO O PAJEM DE QUE
NECESSITAVA PARA ESTREAR-SE NA CAVALARIA ANDANTE
Quando  tarde o Ajudante Negreiros apartou-se do governador,
tomando pela Rua da Moeda, houve quem lhe bispasse a manobra.
Viam-se pela ribeira, prximos  jusante da mar, jiraus cobertos de
palha, onde costumavam os pescadores guardar as canoas, e tambm
jangadas suspensas de um lado por espeques. A, atrs de uma
dessas anteparas se metera o Nuno, com receio de que o avistasse de
longe a comitiva do governador, e lhe pusesse o ajudante no encalo
os lacaios e guardas a cavalo.
Sucedeu esconder-se o rapaz a jeito de ouvir as palavras que
trocaram o ajudante  o governador, ao passarem rente com a
palhoa onde se agachara.
Desde que desapareceu a comitiva, surdiu o mascatinho sarapatando,
e lobrigou o Negreiros que apeava-se na calada da loja. Ali naquela
hora se ia decidir de sua sorte, e sabendo do empenho que punha o
mercador em agradar a D. Sebastio, tinha j como cousa assentada,
a remessa para Lisboa.
No primeiro navio que se fizesse de vela para aquele porto, l ia ele
encomendado a algum tio da outra banda; e to cedo no veria a sua
Marta, nem de to longe a poderia disputar aos que se atrevessem a
pretend-la.
Logo, sem mais detena, cuidou em evitar o golpe; e o nico meio
que tinha era desaparecer da casa, e de modo que lhe no pudesse o
pai seguir a pista e agarr-lo.
81
- No me pilham!... disse o mascatinho ao concluir a sua breve
reflexo. Vamos rondando do lado do quintal, a ver se posso apanharme
dentro de casa e arranjar a trouxa. Depois raspo-me; e passem l
muito bem.
Era precavido o rapaz, no que mostrava a despontar entre os
arreganhos marciais o sangue mascate. Como podia ter necessidade
de ganhar o serto, lembrou-se que precisava da roupa, mas
sobretudo de armas, sem as quais no o tomariam por homem de
guerra; o que era todo o seu desejo.
Ao avizinhar-se dos fundos da casa, escondido entre o mata-pasto,
deu com o Lisardo encostado  parede da tacania, perto da gelosia, e
no lhe custou adivinhar o que ali fazia o amigo.
Enquanto afinava-se o trovista para recitar a sua dcima, o esperto do
Nuno penetrou na casa paterna, pelo quintal, onde s encontrou a
Benvinda, que estava cochilando ao borralho, em companhia dos dois
gatos da casa.
Barafustou o rapaz a correr pelo corredor, at um compartimento que
ficava nos fundos da loja, e lhe servia de armazm ou arca de No. A
cuidou logo de escolher o mais fornido chifarote que suspendeu .
ilharga pelo talabarte; ps  bandoleira uma clavina; meteu no
cinturo um par de pistolas francesas e uma adaga flamenga, e na
cabea uma velha cervilheira, que ali rolava de envolta com outros
cacarus.
Assim reduzido a um cabide d'armas, tratou o garoto de entrouxar
duas ou trs mudas de roupa, que tirou do armrio das que j vinham
em obra do Reino; feito o que, foi-se pondo ao fresco sem mais
demora, pois no meio dos seus aprestos vinha-lhe a rajadas, l da
entrada da loja, um certo rumor de vozes, que o tinham alerta.
Desconfiava o rapaz, e no sem motivo, que esse sussurro provinha
da prtica do pai e do ajudante, naturalmente sentados  calada da
loja. Por maior que fosse a curiosidade de saber o que estavam os
dois tramando contra sua liberdade, o medo de que o viesse
encontrar o pai, armado em guerra dos ps at a cabea, tirou-lhe.
todo o gosto da escuta e lhe amolou os calcanhares.
Ao toque de ave-maria j estava o Nuno outra vez escondido no
mata-pasto em frente  rtula, e a ruminar uma lembrana que lhe
acudira. Era nada menos do que sair ao encontro do ajudante, na
volta deste, cham-lo a desafio, e ali mesmo meter-lhe na pele duas
boas cutiladas, para ensin-lo a no se intrometer com a vida alheia.
Quando tinha assentado levar por diante a traa, e j a trazia bem
concertada, saiu-lhe o negcio burlado; pois o Negreiros com a pressa
de tornar a D. Sebastio, portador de boas-novas, apenas saltou na
sela fincou esporas no ginete, e lanou-o a todo o galope. Ningum o
julgaria capaz de tal faanha, achacado como era de vrias queixas,
82
que todas lhe provinham dos destemperos de boca. Que herosmos,
porm, no inspira a bajulao?
Assim frustrada sua esperana de vingar-se no ajudante, se deixou
ficar o Nuno oculto no mata-pasto,  espreita do nosso poeta Lisardo,
com quem contava para o plano que forjara.
J haviam passado o Rev. Joo da Costa em companhia de Miguel
Correia, e o Lisardo no se resolvia a apartar-se da rtula. Cansado
de esperar, o Nuno que no primava pela pacincia, foi-se
aproximando agachado entre o mata-pasto, e de repente surdiu em
face do nosso poeta.
- Defende-te, vilo! gritou o mascatinho engrossando a voz e puxando
do chanfalho.
Ao ver-se atacado por uma panplia, o Lisardo, que sofria de nervoso,
ficou estatelado contra a parede, sem voz para proferir palavra;
porm maior foi a surpresa quando todo aquele fero se trocou em
gargalhada, e ele reconheceu sob a viseira o rosto brejeiro do Nuno.
- Sempre tens uns modos!... disse o nosso poeta arrufado.
- Com que ento queria o Sr. Lisardo de Albertim que eu o deixasse
muito de seu e sossegado estar aqui de requebros e segredinhos com
a sonsa da senhora minha irm, que aposto nos est escutando por
detrs daquela rtula.
Ouviu-se um muxoxo entre as frestas.
- Pois engana-se, tornou o mascatinho entonando-se outra vez no seu
recacho guerreiro.  espada ou lana, a p ou encarapitado, lhe
mostrarei que... que voc  um poeta das dzias.
- E voc um espalha-brasas!... atalhou com impacincia uma voz
maviosa que vinha da rtula.
Voltou-se o Nuno para dar-lhe o troco; mas em vez do rostinho de
alfenim que ele esperava encontrar, lobrigou atravs da rtula
entreaberta as marrafas de uma respeitvel matrona, que se
aproximava da janela com uma curiosidade suspeita.
Essa matrona era nada menos do que a Senhora Rosaura, mulher do
mercador Miguel Viana e me do nosso Nuno.
Percebendo-lhe as pisadas, a menina dos olhos negros esgueirou-se
da rtula o mais depressa que pde. Vendo o que, o Lisardo teve o
palpite de amolar as canelas, escamando-se a bom correr pelo campo
fora.
Pensou o Nuno que era esse o mais prudente alvitre, e apesar da
durindana que lhe embaraava as pernas e da cervilheira a danar-lhe
na cachola, l disparou pelo mata-pasto no encalo do Lisardo, de
quem no lhe fazia conta perder a pista.
Momentos depois caminhavam os dois amigos pelo istmo, na direo
de Olinda.
83
Chegados  altura do Brum, parou o Lisardo, pensando que o Nuno
desejaria separar-se dele para tornar ao Recife. O mascatinho, porm,
tinha l sua traa, e foi despejando o caminho sem dar-se por
entendido.
- Olhe, no fique tarde para voc recolher-se, Nuno! disse-lhe o nosso
trovista.
- No lhe d cuidado, s mofino!
Assim chegaram s abas de Olinda, e o Lisardo ia despedir-se do
companheiro. quando este perfilando-se disse-lhe com um tom que
no admitia volta.
- Fique sabendo o Sr. Lisardo de Albertim que vai deste passo levarme
 casa do Capito-Mor Joo Cavalcanti.
- Do... do capito-mor?... murmurou o poeta gago de surpresa.
- De que se espanta voc?
- Pois, Nuno, o filho de um mascate do Recife...
- Que tem isso?... D. Francisco de Sousa, que  nobre e dos mais
nobres, no est com os mascates?
Embatucou o Lisardo com o exemplo, mas no se deu por vencido:
- E seu pai?
- Ele que se arranje! No; que para Lisboa no me levam nem em
postas.
- Que me diz voc, Nuno?
- A tramia foi armada pelo manhoso do governador e mais o
paparroto do ajudante que o leve o demo! Mas hei de pregar-lhes
um mono, que no imaginam.
- Ento  ponto decidido?
- Com a breca!... Eu c no sou homem de voltar atrs! Dito e
feito!... Desembainhando o chifarote com um arreganho de ferrabrs,
o Nuno cresceu para o Lisardo gritando-lhe:
- Leve-me j  casa do capito-mor se no quer que o leve eu
espetado na ponta desta espada!
J abalado pela noticia do desterro que ameaava o amigo, o nosso
poeta rendeu-se ante aquele argumento perfurante.
Eis porque momentos antes o Lisardo atravessava a casa do sof de
um modo to original, e surdira na casa da ceia, no meio da surpresa
geral dos convivas, que o viram entrar  guisa de boneco de engono.
Passada a primeira surpresa. as vistas se fitaram no vulto de Nuno,
que atado ao formidvel chanfalho e coberto pela enorme cervilheira,
fazia uma figura grotesca. As risadas estrugiram pelo mbito da sala
de envolta com o tinir da loua e dos cristais.
Susteve Nuno impassvel e sem pestanejar o fogo rolante daquela
estrepitosa gargalhada, ainda que por seu gosto preferia afrontar uma
descarga de mosquetaria.
84
Afinal, passado o frouxo de riso, veio a curiosidade de saber por que
artes aparecera ali aquela estrambtica figura; e voltou-se a ateno
para o Lisardo que, aproveitando a hilaridade, tratava de esgueirar-se
pela copa, onde contava achar os remanescentes da oppara ceia.
- Oh! Lisardo! No nos dir onde foi desencavar este palerma?
- Querem ver que  algum fedelho dos flamengos, que ai ficou
enterrado no mangue!
- Mais parece um bugio armado em guerra!
- Ora qual!  o Pana do D. Quixote do nosso Lisardo! Pois no
sabiam! Enquanto assim os convivas trauteavam o nosso poeta, ele
estava sobre espinhos; e no se animando a abrir a boca, encolhia-se
de modo que parecia querer sumir-se dentro de si prprio.
Foi o Nuno quem, revestindo-se de sua natural petulncia, ps termo
ao suplcio do amigo.
- Querem saber quem eu sou; pois j lhes digo. Sou o filho do
mercador Miguel Viana!
- Do mascate!...
- O mais atrevido da scia!
- Que veio cheirar aqui, s mariola?
- Oral Anda bisbilhotando para ir meter no bico dos labregos!
-  espio, no tem que ver!
- Pois enganam-se, acudiu Nuno decidido. Deixei o Recife e o pai;
porque sou por Olinda e quero combater com a nobreza, em pr de
sua causa, que  a dos legtimos senhores de Pernambuco.
Acolheram os convivas estas palavras do Nuno com um, silncio cheio
de suspeitas, apesar de serem elas proferidas em tom firme e sincero.
No assim D. Severa, que atravessando o aposento, veio ao encontro
do mascatinho:
- Bravo, moo. Como se chama voc?
- Nuno! respondeu o caixeiro.
- Nuno, doravante pertence  minha casa. Faa-o meu pajem de
estrado para o servio especial da minha pessoa.
Nessa ocasio entrava na casa de jantar o Filipe Uchoa; e consultado
sobre o caso, aprovou com um riso jmbico a resoluo de D. Severa.
- No podamos inventar melhor pol para o Miguel Viana, respondeu
ele.
FIM DA PRIMEIRA PARTE
85
SEGUNDA PARTE
ADVERTNCIA
Quando a cerca de um ano veio a lume o primeiro tomo desta crnica,
houve muito quem teimasse em ver personagens contemporneos
disfarados nessas figuras do sculo passado.
Semelhante personificao, o autor no pode de modo algum admitila.
Os atores da comdia, que se chamou a Guerra dos Mascates, so
antes de tudo histricos: ou porque os anais do tempo fazem deles
especial meno, ou porque representam as idias e os costumes da
poca.
Demais, essas figuras tm cada uma seu papel no desenvolvimento
da ao que o autor se incumbiu de narrar, conforme a lio do seu
alfarrbio.
Admitida a personificao, no poderia o escritor referir um fato ou
circunstncia histrica, nem descrever um episdio qualquer da
crnica sem que tais pormenores fossem logo referidos aos inculcados
ssias de seus personagens.
Ora, o autor no pretende certamente defender-se do pecado de uma
ou outra aluso, que lhe corre s vezes sem querer dos bicos da
pena. Mas essas demasias, no as tem seno sobre a poltica, que e
j de si um longo e interminvel epigrama.
Insinuaes  vida privada, nunca as fez o autor, e espera que no
cometer jamais to grande aleivosia apesar de ter sido ele muitas
vezes a vitima de semelhantes emboscadas.
No  daqueles que muram a vida privada. Ao contrrio, pensa como
Alphonse Karr, que o homem publico no tem direito a esse asilo;
pois deve  opinio que ele pretende dirigir, e ao pais a quem serve
de exemplo, satisfao plena de todos seus atos.
Mas e com a precisa coragem e franqueza, no com insinuaes que
se tem direito de atacar o procedimento repreensvel de qualquer
cidado, de modo a provocar a defesa e habilitar a opinio a
pronunciar-se.
Com estas idias, bem se v que no podia o autor caricaturar
ningum nos personagens de sua crnica, alis obrigados a
desempenhar papis originais em uma comdia de outros tempos e
de outros costumes.
Carreguem-lhe pois a culpa das malignidades polticas, ainda mesmo
daquelas de que no cogitou, mas deixem-lhe o direito de mover 
vontade as figuras do seu teatrinho; de cas-las a jeito, e distribuir86
lhes a cada um seu papel de pai, marido, filho, noivo, ou qualquer
outro da comdia social.
Com isso, que  do domnio da fantasia, nada tem que ver a
maledicncia.
Corte, 1 de junho de 1874.
SEGUNDA PARTE
CAPTULO I
CENAS ROMANTICAS DA VIDA CONJUGAL SEM O ADUBO DA
IMORALIDADE
Era por noite calada.
A episcopal cidade de Olinda, envolta nas trevas, jazia em profundo
silncio. Desde muito que se tinham apagado os fogos, e apenas de
longe em longe, pela praia, tremulava a chama do molho de palhas
que servia de farol aos pescadores.
A no ser o rolo das ondas, desdobrando-se ao longo do istmo, o
sussurro do coqueiral rugido pela virao da noite, ou o regougo da
coruja  caa dos morcegos, nenhum outro rumor quebrava a mudez
da metrpole pernambucana.
Todavia, pela volta das nove horas, no alto da subida do Varadouro
soaram passos, os quais se diriam de cavaleiro, pelo tinido das
esporas batidas nas pedras soltas que lastravam o cho.
Quem era desceu rua abaixo, com o andar rpido, mas parando a
trechos, tanto para verificar se porventura o espreitavam como para
orientar-se no meio da escurido.
Chegado ao princpio do muro de taipa, que fechava o quintal da casa
de Andr de Figueiredo, o desconhecido redobrou de precauo at
alcanar um ponto em que a copa frondosa do arvoredo, reclinando
para a rua, tornava a escurido ainda mais densa.
A, julgando-se ao abrigo do mais penetrante olhar, j apoiava a mo
sobre o lombo do muro para formar o salto, quando ouviu um roar
de folhas na cerca fronteira.
Fitando pronto a vista, pareceu-lhe percebido entre a ramagem vulto
humano, e sem a menor hesitao, atirando a longa capa em que se
envolvia para os ombros, sacou a espada da bainha e ps-se em
guarda.
87
- Enfim! murmurara ento resfolgando  larga.
Como, passado algum tempo, nada aparecesse de suspeito, pensou o
desconhecido que ou se enganara na sua desconfiana, ou o vulto no
tinha negcio com ele, a quem talvez nem houvesse pressentido;
tornando ao primeiro intento galgou com agilidade o muro, e sem
dificuldade achou-se do outro lado, dentro do quintal.
Com o perigo cresciam agora as precaues do cavalheiro receoso de
dar rebate  gente da casa. Esgueirando-se por entre o arvoredo at
o terreiro donde avistava as janelas do oito e a porta da serventia do
quintal, ali ficou oculto pelas folhas e  espreita de alguma cousa de
sua muita devoo, pois assim o trazia a afrontar perigos.
Ao cabo de algum tempo dessa espreita, percebeu o desconhecido
que a aba de uma janela do sobrado se entreabria e o busto de uma
pessoa reclinava-se ao balco, recolhendo logo aps uma rpida
pesquisa dos arredores.
Apesar do sobressalto que teve, o cavalheiro no desmentiu sua
consumada prudncia. Conservou-se imvel e oculto entre a
folhagem, redobrando de vigilncia. Somente depois que a oscilao
da janela repetiu-se por trs vezes, e que na impacincia como na
sutileza do movimento ele pressentiu um gesto feminino, foi que o
desconhecido resolveu-se a sair da sombra, destacando o vulto no
descoberto do terreiro.
Ouviu-se ento o soobro de uma respirao cortada de repente, e
que mais parecia o soluo intermitente da aura nas folhas da
bananeira. Cerrou-se a janela, mas um objeto cara aos ps do
cavaleiro.
Era um fino leno de batista, perfumado e ainda tpido das mos que
o apertavam pouco antes; trazia atada a uma das pontas grossa
chave de ferro, a qual o desconhecido sem mais demora buscou
introduzir na porta fronteira.
No se logrou da diligncia, que a chave no servia e, afastando-se,
aguardou que a janela se entreabrisse para obter a explicao de que
precisava. Nova esperana frustrada, pois o vulto havia se recolhido
de uma vez.
Comeava o desconhecido a impacientar-se, quando lhe acudiu a
lembrana. que tinha a casa mais de uma porta.
- Em alguma h de servir.
Cosendo-se  parede, foi experimentando a chave em quanta porta
encontrava, at que afinal acertou. Ao ranger dos gonzos que
obedeciam ao impulso,. escapou-se pela fresta um trmulo psiu
recomendando silncio.
Adiantando o desconhecido a mo para sondar as trevas do aposento
em que entrava, encontrou outra mo, porm pequena, suave,
88
mimosa, que escapou-se arrufada e palpitante como uma rola
apanhada no ninho.
- No tendes que recear-vos de mim, senhora, pois ainda que vosso
esposo pela bno do Senhor e por vossa prpria escolha, um irmo
no respeitaria com maior desvelo vosso recato.
Nenhuma voz respondeu a estas palavras do cavaleiro, mas ouviu-se
distintamente um profundo suspiro que parecia vir do mais recndito
d'alma.
Esta cena passava-se na noite do dia seguinte quele em que
principiou. nossa crnica e para o qual D. Leonor tinha de vspera
emprazado Vital Rebelo por um bilhete escrito com o sangue de suas
veias.
Dissipada a exaltao de nimo que a impelira quela afoiteza, a
msera. moa caindo em si, ficou espavorida com a imprudncia que
havia cometido.
Como poderia ela, to guardada de sua pessoa, iludir a vigilncia que
a cercava, e a defesa das casas de Andr de Figueiredo, que mais
pareciam presdio do que moradia?
Vital acudiria ao emprazamento; no a encontrando, se arrojaria para
v-la a alguma temeridade que o trasse. E ela, esposa a quem
traziam viva do querido de sua alma; ela, que todos os dias rogava a
Deus a restitusse aos braos de que a tinham arrancado; ela,
encerrada nas paredes de sua recmera, ouviria talvez o grito de
angstia de Vital, sucumbindo aos golpes de inimigos que, por maior
infelicidade sua, ela era obrigada a acatar.
Ento rezava para que o marido no viesse  entrevista; mas quando
enchia-se dessa esperana e achava-se mais animada, a vinha
desconsolar a idia de que essa fria indiferena de Vital seria a prova
do pouco afeto que lhe votava: e logo repelia um lenitivo que, se
acalentava-lhe os sustos, excruciava-lhe o corao.
Assim nesta cruel absoro passou ela parte do dia, cogitando mil
alvitres que a tirassem de to apertado transe, mas sem nimo de
tomar uma deliberao. Por tarde seus espritos extenuados caram
em profundo abatimento, e nessa atonia esperou com glida
impassibilidade a catstrofe que via iminente.
Estava a famlia como de costume reunida na sala principal, quando
entrou Andr de Figueiredo, que dirigiu-se  irm.
- D. Lourena, mande-me dar as chaves do trem.
Ergueu-se a dama e foi ela mesma tirar de uma arca, na prxima
cmera, duas chaves atadas em uma correia, que entregou ao
capito.
- Em tempos como estes, bom  precatar-se cada um para o que
pode acontecer. Ningum sabe o que nos trar o dia de amanh.
89
Estas palavras, que Andr de Figueiredo proferiu  sada,
traspassaram o corao de Leonor. Apoderou-se dela um pavor
inexplicvel.
Havia ao rs-do-cho e para os fundos da casa um vasto armazm
onde se guardavam trastes fora do uso, ferramentas, utenslios, mas
principalmente armas e petrechos de que todo morador principal
daqueles tempos tinha cuidado de prover-se, para acudir, sendo
preciso,  defesa da cidade e da prpria habitao.
Foi a esse repartimento, chamado casa do trem, que se dirigiu o
capito; ali demorou-se at o escurecer.
Recolhendo-se  sua recmera, o viu Leonor que voltava. Vinha ele
preocupado e distrado a tal ponto que, parecendo no reparar na
presena de algum, guardou as chaves em uma gaveta da mesa de
jantar e desceu para a rua.
Sobressaltou-se Leonor e fugiu espavorida com a idia que a
assaltara. Todo o sero correu para ela entre os assaltos da luta
obstinada que haviam travado em sua alma a paixo do marido e o
terror da famlia.
Vencera afinal o amor, que depois de mil hesitaes a trouxera ao
encontre do esposo, por quem se estava ali morrendo de pejo e de
afeto.
- No vim aqui, senhora, em requesta de vossas finezas, como
cavalheiro namorado que implora favores  sua dama. Ficai portanto
descansada, que no terei palavra, nem ao, capaz de magoar vosso
melindre. Se ainda uma vez busquei falar-vos, depois de tantas em
que me recusastes esta merc, foi para decidir afinal de nosso
destino, e romper dum golpe, ou a fatalidade que vos arrebata a meu
afeto, ou o lao que ainda prende nossas almas. No ponto a que nos
trouxe a sorte adversa, ou sois tudo para mim, ou nada sereis; se no
vos fala agora, neste momento, o esposo a quem jurastes pertencer e
a vos deveis de corpo e alma pela vida e pela eternidade, dizei-o,
senhora, dizei-o pronto, que no serei mais do que um estranho que
j no vos conhece e fugir  vossa presena, como um fantasma que
volta  catacumba.
Proferidas estas palavras, Vital aguardou um instante a resposta; mas
o silncio que reinava naquela escurido apenas foi cortado por
soluos, cujo tpido bafejo aqueceu a face do cavalheiro.
Este abriu os braos e conchegou ao seio o corpo vacilante da esposa,
que se rendia ao seu amor.
- Leonor! murmurou Vital. Ainda me queres? Pensei que j se tinha de
todo apagado em teu corao aquela ternura que te mereci, e que
tenho pago com tantas desesperanas?
90
- Mais que as desesperanas doem as injustias, Senhor Vital,
respondeu Leonor tragando o pranto. Que fiz eu para me acusarem de
ingrata?
- Ningum vos acusou; apenas queixei-me eu algumas vezes e a mim
mesmo.
- Mas de qu?
- Ainda o perguntais, D. Leonor? Depois deste ano, passado longe um
do outro na viuvez de nossas almas, deste ano que devia ser a
primavera florida de nosso amor, e que um mau fado transformou em
torva borrasca?
- Que podia eu contra a sorte?
- Tudo. No tnheis um esposo cujo dever era proteger-vos, e cuja
maior ventura seria obedecer-vos?
- E minha me? replicou Leonor com desalento.
Vital calou-se.
- Bem sabeis que a maldio cairia sobre mim, se eu me revoltasse
contra a tirania que nos separou; e por nenhum preo eu, que vos
prezo e respeito acima de todos os homens, Senhor Vital Rebelo, vos
daria uma esposa maldita e um afeto mal-agourado. Agora mesmo,
quem sabe que perigos nos ameaam e que desgraas no custar
esta minha imprudncia?
- No pode ser maldita a esposa que o ministro do Senhor uniu em
face do altar pelo prprio voto e com o consentimento dos seus; nem
ser mal-agourado este afeto porque desarrazoada obstinao de
parentes se ope  sua felicidade.
- Consentimento dos seus, dizeis; mas eles afirmam que esse
consentimento o deram iludidos, e logo o retiraram, antes que
deixasse eu a casa paterna para pertencer-vos, pelo que...
- Prossegui, D. Leonor! acudiu Vital, percebendo a hesitao da moa.
- No vos queria afligir; porm melhor  saberdes logo, pois no
tenho esperana de falar-vos outra vez.
- Assim  este o momento de nossa eterna despedida, senhora?
tornou Rebelo com um termo grave e triste.
- Ah! se soubsseis!...
- Sei tudo.
- Sabeis que mandaram a Roma para dissolver o nosso desposrio e
que esperam receber o breve pela primeira embarcao do reino?
- Sabia-o, sim, D. Leonor, respondeu o cavalheiro com a mesma
grave placidez. O que no sabia, e preciso ouvir de vossa boca,  se
destes a isso vosso consentimento.
- Eu?... balbuciou a dama.
- Falai sem receio. De mim no tendes que temer maldies, nem
ameaas. Vosso querer  a minha lei; eu, que zombo das
fanfarronadas de vossos parentes e da bula que mandaram comprar a
91
Roma, obedecerei submisso a uma palavra proferida por vs,
contanto que essa palavra seja a voz d'alma; porque, se me eu curvo
ante vosso desejo, no terei, ficai certa, a mesma docilidade com as
vontades alheias que abusam de sua posio para insinuarem-se em
vosso nimo tmido e ingnuo. Pois que  esta a ltima vez que nos
vemos, abri-me vosso corao. Tivestes parte nesse trama da
dissoluo de nosso casamento?
- Eu assinei um papel, que me apresentaram, mas no o li.
- E no vos disseram o que ele continha, nem o suspeitastes vs?
- Minha me tinha-me prevenido.
- Portanto no ignorveis de que se tratava, nem que influncia devia
ter em vossa existncia aquela assinatura. Quando escrevestes ali
vosso nome, renegastes o esposo que haveis escolhido.
- Obedeci  minha me! soluou Leonor com a voz dilacerada.
- Vossa me andou bem-avisada em vo-lo ordenar, D. Leonor.
- Tambm vs a aprovais?
- Se no me tendes o menor afeto, por que sereis minha mulher, e
ficareis com a vossa existncia encadeada a um estranho, quando a
podeis partilhar com quem melhor vos merea?
- No me estejais apunhalando com estas palavras de desprezo;
melhor  acabar-me de uma vez, e a esta triste sina. No posso
pertencer-vos como esposa, que minha me se interpe entre ns;
mas perteno-vos como quem se vos deu e no quer e no pode ser
jamais de outro; aqui me tendes; ponde um termo a este resto de
existncia que ainda me sobra de tamanho sofrer.
Vital permaneceu calmo, apesar de abalado profundamente no ntimo:
- Dizeis que vos destes a mim, senhora; e eu vejo que no vos podeis
dar a ningum, pois para isso era preciso que vos pertencsseis; o
que no acontece. Nada mais sois do que o corpo que anima a alma
de vossa me, ou antes a alma que lhe empresta vosso tio, Andr de
Figueiredo, que ela no a tem e menos de me.
- Senhor Vital! disse Leonor ressentida.
- No quereis e no podeis ser jamais de outro...
- Eu vos juro!
- Tambm me jurastes a mim a f de esposa e bastou o sopro de
vossa me para apagar esse juramento. Ordene-vos ela amanh que
ameis a outro...
- Nunca!
- Haveis de obedecer-lhe, D. Leonor, disse Vital com amarga ironia,
seno ela pode amaldioar-vos!.
- No estou eu suplicando-vos que me mateis! exclamou a moa em
um grito de desespero atirando-se de joelhos aos ps do cavalheiro.
Ergueu-a Vital Rebelo nos braos, e pousou-lhe um beijo casto na
fronte:
92
- No, alma de minha vida, no morrers; que eu te salvarei contra
todos e contra ti mesma, que s o meu bem supremo; mas tens sido
o meu e teu algoz. Eu te salvarei; e se Deus me negar essa dita,
restar-nos- ento, Leonor minha, a de morrermos juntos.
Um regougo de riso sarcstico reboou no meio da escurido,
acompanhado por uma voz zombeteira.
- H de morrer, esteja descansado, mas sem companhia.
Leonor desmaiara nos braos de Vital Rebelo.
CAPTULO II
UM CAPTULO DE HISTRIA QUE PARECE TER SIDO ESCRITO PARA O
ROMANCE
Por tal forma se travam os negcios da governana com os amores de
Vital Rebelo, que para melhor compreenso desta nossa crnica,
vamos dar uma resenha do estado das cousas na Capitania de
Pernambuco pelo correr do ano de 1710.
J pela rama se falou da rivalidade que existia entre a cidade de
Olinda e a recente povoao do Recife, por causa do incremento que
esse bairro comercial importante ainda no domnio dos holandeses,
fora tomando com o volver dos tempos.
Desde a poca da restaurao que os mercadores, atrados pela
vantagem de um ancoradouro cmodo e seguro, se estabeleceram de
preferncia nessa povoao e ocuparam os armazns e tercenas
construdos pelos flamengos.
Os senhores de engenho que eram os principais da capitania e
aqueles que formavam a nobreza pernambucana, foram obrigados a
suprirem-se do necessrio para o custeio de suas fbricas nas lojas e
tendilhes do Recife.
Dava-se ento o que ainda hoje acontece com pequena diferena.
Onerado o agricultor com uma dvida avultada, que no podia pagar,
tinha de sujeitar-se  usura do credor ou de entregar-lhe a safra a
preo e condies lesivas. Assim a arroba de acar, o mercador a
pagava no Recife por 400 rs. para vend-la no reino por l$400.
Mais de sculo e meio  decorrido, e ainda o tacanho esprito que sob
vrias encarnaes tem governado este pas, no descobriu um meio
de proteger a lavoura contra o monoplio mercantil; antes parece que
de todo a desamparou entregando-a  sanguessuga do Banco do
Brasil que lhe exaure a seiva em proveito de certa oligarquia
financeira.
93
Uma circunstncia muito concorria para agravar a posio da nobreza
pernambucana. No permitindo as idias do tempo que os fidalgos se
dessem  mercancia por ser esse um ofcio plebeu, resultava da que
os seus fornecedores eram gente inferior e animada do cime que em
todos os tempos, mas principalmente naquela poca, dividia as
classes.
O que porm mais fomentou a rivalidade entre os povos de Recife e
Olinda foi o esprito de bairrismo.
Os moradores da capitania descendiam na mxima parte de
portugueses, ainda que j entrava a grande mescla de sangue
flamengo e outro de Europa, sem falar do indgena e africano.
Tinham, porm, nascido ali, na terra americana, e consideravam-se
herdeiros dessa ptria que seus maiores haviam reivindicado do
holands pelo herosmo e intrepidez de suas armas.
Por isso chamavam-se eles pernambucanos, e queles que vinham do
reino se estabelecer na colnia davam o nome de forasteiros,
negando-lhes o foro de vizinhos e portanto o direito de tomar parte
no governo da terra.
Com poucas excees, eram os mercadores do Recife desses
portugueses europeus, que deixavam a sua aldeia para tentarem a
fortuna no novo mundo.
J naqueles tempos, como nos de hoje, tinha a colnia portuguesa
duas virtudes, a que deve a sua prosperidade, e so: a perseverana
e a unio, dotes de raa, que todavia por uma ignota razo
desmerecem no solo brasileiro e no se transmitem  prole aqui
nascida.
Chegava um desses garotos sem outro fato mais do que a trouxa
amarrada em leno de Lamego; com a camisa de bertangil, preto de
sujo, e cales de lona besuntada de alcatro. A fora de trabalho
conseguiam uma dzia de patacas, com que se proviam de algumas
rstias de alho e cebola, alm de outras drogas, e saam a mercar
pelas ruas do povoado e engenhos do interior. Nesse giro mesquinho
ajudavam-nos os patrcios, fiando-lhes fazendas e drogas para
estenderem o seu trfego, e assim arvorados em mascates aqueles
labregos, que no reino nem para moos de servir prestavam, de
repente se viam senhores de grosso cabedal.
Deste modo, com pouca discordncia de termos, se exprime um
malvolo cronista pernambucano no intuito de rebaixar os mercadores
do Recife, quando ao invs lhes tece o maior encmio, pondo em
relevo o carter laborioso e paciente desses homens, filhos de seus
trabalhos e obreiros da prpria fortuna.
De dia em dia, pois, ia crescendo o cime entre os dois povoados, na
medida em que o plebeu Recife medrava com o impulso de seu
comrcio florescente, e a aristocrtica Olinda decaa pelo desbarato
94
dos ricos patrimnios outrora acumulados pelas famlias
pernambucanas.
O primeiro choque dessa luta de supremacia poltica datava do ano de
1685. Desde sua fundao padecera Olinda da falta de boa gua
potvel, reduzida a pssimas e raras cacimbas, pois o Beberibe, que
lhe banha as fraldas e podia prove-la em abundncia, era ento
alagado at muito acima pela enchente da mar.
Desvelados os moradores em remediar esse achaque, avisaram meios
de trazer gua de longe. Primeiro abriram um valado de lgua para
encanar uma levada do Paratibe; mas no surtiu bom efeito, porque
era o terreno de muitas areias que frustravam o trabalho, sumindo a
gua.
Outra vez intentaram obra semelhante no Beberibe, tomando-lhe a
veia acima da mar e no tiveram melhor resultado, porque as
enlameavam os gados soltos na vrzea. Quando estavam
empenhados em aperfeioar a obra, substituindo a lavada por um
aqueduto de pedra e cal; sucedeu a invaso holandesa.
Depois da restaurao, e logo que se restabeleceram os moradores
dos maiores estragos de suas fazendas, curou a Cmara de Olinda de
prover aquela necessidade de boa gua, mas por um novo arbtrio
que o engenho, ensinado das muitas lies da experincia, veio a
sugerir.
Em 1685 com boa diligncia se levou a efeito o plano que consistia
em tapar o rio Beberibe com um reparo de pedra no ponto onde ele
costumava secar na baixa da mar, e por isso chamado Varadouro.
Com esse dique, em forma de ponte ou passadio, impedia-se a gua
salgada de subir alm, enquanto que a represa do Beberibe formou
um vistoso lago que despejava as sobras por dezoito canos, fartando
a cidade de gua doce, como da grande cpia de peixe que ali se
criava.
Desta obra se aproveitaram tambm os do Recife, que mandavam em
canoas encher as vasilhas nas bicas do Varadouro, especialmente
para as aguadas dos navios; pois suas cacimbas, como as de Santo
Antnio, eram salobras e cheias de limo.
No obstante foi a ponte, na frase do cronista, uma figa para os
mascates, os quais no podendo sofrer que Olinda se lograsse de tal
vantagem sobre o Recife, buscaram traa para a desforra, que em m
hora lhes trouxe a fortuna adversa.
Aconteceu, seis meses depois, que abrindo-se uns barris chegados de
So Tom dias antes, estivesse a carne que traziam corrompida a
ponto de matar logo ali de pronto com o ramo da peste o tanoeiro e
mais quatro que o ajudavam, desenvolvendo-se em seguida uma
devastadora epidemia.
95
Entrou o povo do Recife a clamar que todo o mal proviera da tapagem
do Beberibe, pois estagnadas as guas onde cresciam tantas ervas,
era de prever que se envenenassem aquelas com a podrido destas,
infeccionando os ares de toda aquela redondeza.
Sem mais demora levaram os mercadores sua queixa a El-Rei, que
mandou ouvir sobre o caso os mdicos de sua real cmara. Parece
que naquele tempo a higiene pblica estava to adiantada em Lisboa
como no Rio de Janeiro, c que os fsicos-mores do Senhor D. Pedro II
de l no tinham que invejar aos do Senhor D. Pedro II de c.
Reuniu-se em junta a mestrana e conveio que efetivamente a peste
provinha da represa do rio. Houve quem notasse a coincidncia de
terem aparecido os primeiros casos da molstia na ocasio de
abrirem-se os barris de carne, assim como a circunstncia de no se
haver manifestado a epidemia em Olinda, que tinha o Varadouro 
beira.
No toscanejaram os preclaros rabichos, e decidiram verbis magistri
que era urgente romper-se o dique e deixar que o rio despejasse
livremente como dantes a correnteza de suas guas, com o que
cessaria o contgio. E assim o mandou El-Rei em carta  Cmara.
Imagine-se como receberiam os moradores de Olinda essa ordem
estulta, que vinha destruir o fruto de tamanhos esforos e economias;
e quanto podiam o respeito e obedincia  rgia autoridade, pois
sopitaram a revolta dos brios e dos direitos oprimidos desses povos
leais.
Ficou, porm, no corao pernambucano um entranhado
ressentimento, e crescendo todos os dias o desprezo com que os
nobres tratavam a gente do Recife, passaram a design-la pelo
epteto de mascates.
Esse termo, derivado do nome de um reino da ndia cujos naturais
eram dados ao comrcio, significava em princpio entre os
portugueses de Goa o mesmo que mercador ambulante que percorria
vrias terras  maneira do Oriente.
Com o andar dos tempos veio a servir unicamente para exprimir o
mister baixo e desprezvel de bufarinheiro ou regato que apregoa
pelas ruas. To afrontoso era dar-se tal nome a um mercador desse
tempo, como seria hoje em dia chamar em estilo clssico de traficante
a um homem de negcio.
Retaliaram os do Recife com a alcunha de ps-rapados que puseram
aos naturais, no s pela circunstncia de andarem eles descalos e 
ligeira, com o que se desembaraavam no manejo das armas e na
celeridade da marcha entre o mato fechado, como por aluso 
estreiteza de muitos fidalgos cados em completa penria.
Soberbos os mercadores com a primeira vitria na questo do
Varadouro, puseram a mira em cousa de maior monta, como era o
96
foral de vila para o Recite, o qual uma vez independente de Olinda e
com governo prprio, no tardaria em derrotar a velha cidade que lhe
estava sugando a seiva.
Razoaram os advogados, pois j naquele tempo os havia polticos e
administrativos, como se v da crnica desta guerra que talvez nunca
rompesse, se eles no a tivessem por forma enredado, que no houve
mais jeito de a desatar.
Foram procuradores a Lisboa com boas propinas e o preciso para
azeitar as molas da mquina rgia, seguindo no mesmo navio uma
representao em que o governador D. Fernando de Lencastro
expunha a El-Rei a convenincia de erigir-se o Recife em vila.
Desta vez, porm, no lograram os mercadores a diligncia. Ou
porque D. Pedro II de Portugal tambm adotasse a mxima poltica -
uma no cravo e outra na ferradura; ou porque ainda no se tinha de
todo apagado na corte lusitana a memria do herosmo
pernambucano na restaurao da capitania, resolveu Sua Majestade
pela carta rgia de 28 de janeiro de 1700 que de maneira alguma se
devia por em prtica esse arbtrio de separar o Recife da cidade de
Olinda, recomendando que para conservao dela, ai fizessem
assistncia o governador e ministros como em repetidas ordens havia
determinado.
Todavia no esmoreceram os mercadores; desenganados de obter por
enquanto a realizao do primeiro intento, cuidaram de se insinuar na
governana da terra, esperando mais tarde com a popularidade de
suas doblas e pataces, apossarem-se dos cargos principais da
vereana.
Hoje em dia usa-se traficar  boca do cofre com os ttulos e as
comendas, naqueles tempos menos adiantados no se faziam as
cousas com a simplicidade moderna. Os mercadores que juntavam
grosso cabedal compravam os servios de algum fidalgo rafado de
quem se justificavam parentes com testemunhas quejandas s que
ora servem para fazer moo fidalgo de quatro costados a qualquer
beldroegas. Com essa papelada requeriam para Lisboa um hbito de
Cristo em que se enfunavam tanto como os excelentssimos de agora.
Assim besuntados dessa nobreza postia, julgavam-se os mais ricos
dos mascates idneos para os cargos de oficiais da Cmara. Mas
saram-lhe os pernambucanos com embargos, pela razo de no
serem naturais aos quais somente competia o governo das terras, no
podendo nela ingerirem-se forasteiros que vinham de fora buscar
fortuna.
Durou este pleito at l703 em que mandou El-Rei admitir aos pelouros
todos os habitantes da cidade, sem diferena de naturais e vindios,
uma vez que estivessem nas condies da Ord. do liv. 1, tit. 67, e
Leis de 12 de novembro de 1611 e 6 de maio de 1649.
97
Triunfantes com a deciso rgia, os mercadores empenharam quanto
podiam na primeira eleio e conseguiram alguns oficiais e almotacs.
A conseqncia no se fez esperar: armado da vara branca, o Sr.
Simo Ribas foi taxando por preo excessivo tudo que vendiam os
taberneiros, seus patrcios; e as frutas e vveres que traziam os
matutos, p-los a real.
Foi geral o clamor em Olinda. Reunido o Senado, representou sem
mais tardana a El-Rei mostrando o perigo de se admitirem na
governana os forasteiros.
Por essa ocasio lembraram os pernambucanos a El-Rei que ainda
estavam pagando os chapins da Senhora Infanta D. Catarina, e
portanto se devia ter alguma contemplao com to leais vassalos,
no os privando dos poucos meios de que tiravam para se quitarem
dessa finta, com sacrifcio de sua subsistncia.
Essa histria dos chapins merece um comento. Costumavam os reis
de Portugal, quando lhes nascia filho ou casavam filha, lanarem um
tributo sobre os povos de certas cidades ou vilas a pretexto de
compor-lhes o enxoval.
Casando-se a Infanta D. Catarina em 1661 com Carlos II da
Inglaterra coube s possesses do ultramar fornecer  noiva os
chapins, o que ainda estavam fazendo os pernambucanos quarenta e
dois anos depois.
Dignos filhos daqueles pais somos ns brasileiros que nascemos, uns
para trapaceiros e outros para cangueiros. Ainda hoje o nosso bom e
paternal governo finta-nos com os impostos da Guerra do Paraguai; e
j nos ameaam com outra guerrinha de que ficou pejada aquela.
Acudiu D. Pedro II a seus vassalos pernambucanos, declarando que
no podiam servir cargos da vereana os mercadores, visto ser esse
um ofcio peo, na conformidade das leis do reino; depois, entrando a
governar como regente na molstia de seu pai a Infanta D. Catarina,
Rainha de Gr-Bretanha, a tal senhora dos chapins, aproveitou a
ocasio para agradecer a condescendncia dos pernambucanos.
Pela proviso de 8 de.maio de 1705 declarou que por mercadores se
havia de entender unicamente os que assistissem de loja aberta,
vendendo, medindo e pesando ao povo.
Sendo em nmero limitado os mercadores de grosso cabedal que j
se no ocupavam com o meneio de seus negcios, mercando no
balco ou trapiche, ficaram os de Olinda to superiores ainda, que j
no podiam temer-se dos contendores na eleio.
Quanto aos mascates, essa ltima derrota no fez seno aferr-los
ainda mais  primeira idia da separao,. na qual desde ai
trabalharam sem descanso, dispondo na capitania, como na
metrpole, os elementos para o favorvel despacho de sua pretenso.
98
Foi nestas circunstncias que a 9 de junho de 1707 tomara conta do
governo da capitania Sebastio de Castro Caldas.
Como de costume, os nobres de Olinda e os mercadores do Recife
porfiaram em obsequiar o novo governador  sua chegada, com a
mira de ganh-lo a seu partido. Durou mais de ano essa cortesia
hospitaleira, pelo jeito com que soube o fidalgo trazer ambas as
parcialidades embaladas em esperanas.
A salincia do carter poltico de D. Sebastio de Castro Caldas era
uma suscetibilidade de proeminncia. Elevado ao alto posto de
capito-general de Pernambuco, sob uma aparncia de filosofia e
abnegao, ele no tolerava em torno de sua pessoa vultos que
pudessem disputar-lhe uma parcela mnima do respeito e at mesmo
do embaimento pblico.
Qualquer superioridade fazia-lhe sombra, e sua preocupao
incessante era abat-la, no derrocando-a, pois era avesso ao
estrondo e a violncia, mas aluindo-a aos poucos. Essa obra
subterrnea, seu esprito a prosseguia com uma tenacidade fria e
inflexvel, apesar da indeciso e maleabilidade de que pareciam
envoltos os seus atos.
Se algum homem granjeava por seu merecimento a estima geral,
cuidava logo D. Sebastio de o chamar a si, no s para que aos
olhos da gente essa elevao parecesse mero efeito de uma
liberalidade que ele podia retirar quando lhe aprouvesse, como para
respirar o puro incenso das almas superiores. Alm de que assim
ficavam-lhe essas papoilas a jeito de ceifar.
Desde os primeiros tempos que atravs das mostras de respeito e
termos corteses sentiu o governador a tmpera do carter altivo e
independente dos pernambucanos, os quais prezando-se de sditos
leais, tinham o nobre e legtimo orgulho de haverem pelo esforo de
seu brao restitudo  coroa portuguesa esse importante estado
ultramarino.
Brios e escrpulos eram asperezas que arranhavam a ctis moral de
Sebastio de Castro. Ele no se acomodava seno com as almas
flcidas e dcteis, que tomam todas as feies e prestam-se  guisa
de pelica para uma luva como para um chinelo. Destas gostava de
apossar-se, a ponto de torn-las aderncias da sua.
De tal quilate, no faltavam exemplares entre os mascates, pois o
balco era o bero onde se criavam, como o dinheiro o leite de que se
amamentavam. Por isso, continuando a favonear a nobreza, o novo
governador prelibava o suave prazer de fazer do Recife um espinho
para crav-lo no orgulho de Olinda.
Em segredo representou a El-Rei mostrando a urgncia da separao
do Recife; e to avisadas foram suas razes que, finalmente, por
carta rgia de 19 de novembro de 1709 foi criada a vila.
99
Digamos em abono da verdade que foi essa uma medida de toda
justia. O Recife, a primeira praa de guerra do Estado do Brasil,
como se pode ver do inventrio feito em 1654, ao tempo da sua
evacuao e entrega pelos holandeses; o ponto comercial mais
importante ao norte do Cabo de Santo Agostinho, com uma populao
de cerca de oito mil almas, e as melhorias que lhe tinham ficado do
domnio flamengo quando era corte do Conde de Nassau; o Recife no
devia com a restaurao ter perdido o seu ttulo de cidade.
Mas apesar de todas estas razes polticas, Sebastio de Castro
descobriria alguma convenincia para adiar a criao da vila, se no
estivesse nisso empenhado o seu amor-prprio.
CAPTULO III
ONDE SE LOBRIGA O VULTO DO BISBILHOTEIRO QUE ESCREVEU O
ALFARRABIO ENCONTRADO PELO SACRISTO
A criao da vila do Recife, to porfiada pelos mercadores, devia ser o
desfecho dessa contenda em que os dois povos rivais andavam
empenhados, havia mais de dez anos.
Com outro governador assim teria acontecido; mas com Sebastio de
Castro no passou de uma fase nova da luta, que tornou-se mais
ardente pelo despeito de um partido e a arrogncia de outro.
A indignao dos moradores de Olinda, quando entre eles estourou a
nova como uma bomba fulminante, no guardou termo e prorrompeu
em ameaas e assuadas. O que mais revoltava aos pernambucanos
era a falsa f com que o governador, adormecendo-os na confiana
inspirada por palavras insinuantes, havia sorrateiramente obtido do
conselho ultramarino a separao do Recife.
Em verdade era completa a segurana dos pernambucanos.
Conversando o velho Capito-Mor Joo Cavalcanti uma tarde em
palcio com o governador, e trazendo a prtica para o ponto que mais
lhe interessava, teve em resposta estas formais palavras: -"Sobre
este particular pode ficar descansado, senhor capito-mor. O Recife,
pelo que ouvi em Lisboa, to cedo no ser vila."
Estas palavras, referiu-as textualmente Joo Cavalcanti aquela
mesma noite, no sero costumado, e ningum houve que se no
tranqilizasse com o penhor dado por Sebastio de Castro ao
venerando ancio. No conheciam ainda a polpa do homem que os
governava.
No meio do geral espanto, causado pela noticia, interrogavam-se
todos acerca daquela promessa; e os principais acercavam-se do
100
capito-mor para ouvir dele os pormenores do caso e a repetio fiel
da asseverao do governador.
No ocorria ao velho fidalgo que pudesse algum duvidar de sua
palavra; mas incomodava-o a s idia de haverem faltado  f por ele
assegurada. Alm de que essa f tambm lhe fora dada a ele por
quem se prezava de cavalheiro e como cavalheiro lhe devia contas
severas.
Recobrando um assomo do antigo vigor, montou o capito-mor a
cavalo e sem mais acompanhamento do que um pajem, deitou-se a
galope para o palcio do Recife onde estava o governador inquieto
com o alvoroto de Olinda.
Nessas ocasies em que se embrulhava a poltica, se no mente a
crnica, o fgado de Sebastio de Castro, como o de Csar, sofria a
repercusso do abalo moral; mas a blis, prontamente corrigida,
nunca perturbava a fleuma desse organismo.
J quela hora andava o Ajudante Negreiros num corrupio,
despejando ordens pelos fortes e quartis, enquanto o governador em
conferncia com o Secretrio Barbosa de Lima combinava nos panos
quentes e cataplasmas com que se devia acudir ao desmancho.
Pressuroso saiu Sebastio de Castro ao encontro do capito-mor a
quem recebeu com desusada afabilidade, mas com isso no desarmou
a carranca do velho, que foi direito e rijo ao ponto.
No podia o governador ocultar a parte que tivera na criao da vila,
pois a carta rgia se referia positivamente  sua informao; mas
ainda quando houvessem omitido essa circunstncia, no a negaria
ele. Em sua opinio a mentira  um expediente grosseiro, que
somente empregam os espritos frouxos e indolentes.
Ouvida a queixa, se no amarga exprobrao do velho Cavalcanti,
respondeu-lhe o governador sem alterar-se:
- O que disse ao senhor capito-mor e mantenho, foi ter ouvido em
Lisboa a quem o devia saber, a asseverao de que to cedo no seria
vila o Recife.
- Mas no se dir...
Impetuoso como sempre interrompera Joo Cavalcanti ao fidalgo para
retrucar-lhe sobre a contradio de seu procedimento. Atalhou-o o
governador:
- Quanto a haver eu representado em favor da criao da vila,
compreende o senhor capito-mor, como cavalheiro que  e leal
sdito, que eu faltaria ao meu dever de governador desta capitania,
no informando a El-Rei das necessidades da terra, para que Sua
Majestade as proveja de remdio. Nem podia deter-me neste
particular o muito que me merece a nobreza, pois contava infalvel o
indeferimento.
101
Os Csares modernos que se deixam vencer pelos ministros quando
lhes convm enfeitar-se de suas lentejoulas democrticas, no
responderiam com maior dignidade e abnegao a algum favorito
sacrificado: "Sou seu amigo, mas lembre-se que tambm sou rei
constitucional." O que em gria cortes quer dizer: "Se agora para
guardar as aparncias fui obrigado a despedi-lo como um importuno,
com jeito posso faz-lo sota-rei mais tarde."
- O caso  que os mascates lograram afinal o que em dez anos no
puderam.
Estas palavras soltou-as o capito-mor com um tom morno, pois
dissipado o primeiro assomo, j se lhe relaxava a fibra.
Sorriu-se o governador:
- Lograriam...? disse ele com uma entonao que no se podia
afirmar se era de interrogao, se de reticncia.
- Pois Vossa Excelncia ainda o pe em dvida? exclamou o capitomor.
- Por linhas tortas escreve-se direito, em havendo arte.
- Confesso que no atino.
- Mandou-me El-Rei criar vila no Recife; mas a vila no est criada, e
pode bem ser que se no chegue a criar; entretanto que, embalados
nesta esperana, os mercadores se aquietaro.
- L diz o ditado - "que entre a boca e a mo vai o bocado ao cho." E
assim acontecer se tivermos por ns a Vossa Excelncia que em
respeito a seus brases, como grande fidalgo, se deve  nossa causa
que  a da nobreza contra a ral.
- Neste posto de governador, devo-me a El-Rei primeiro, e aos povos
depois, sem distino de nobreza e peonagem. Mas no careceis de
escudo, com os ttulos que tendes. Do que precisais  de moderao e
tolerncia para atrair  nobreza pessoas abastadas e preponderantes.
- No se costuma entre ns, senhor governador, repelir os que vm
como amigos, ainda quando no trazem cabedais, que merc de Deus
no cobiamos.
- Ser ento falso quanto me referiram?
- Ignoro o que fosse.
- Que o alferes Vital Rebelo requesta uma sobrinha vossa, a qual lhe
corresponde ao afeto; mas vs, ou os vossos, a tendes por modo
defesa, que ao valente namorado custa-lhe um assalto d'armas cada
vez que se avista de longe com a formosa dama?
- H razes particulares, respondeu Joo Cavalcanti reservado.
- Estas razes, senhor capito-mor, so desarrazoadas. Se o pai de
Vital Rebelo ficou senhor do engenho e mais haveres do finado Lus
Barbalho, marido de vossa sobrinha, mais pela prodigalidade deste do
que pela usura daquele, que melhor meio de reparar esse revs da
102
fortuna do que devolver por rima acertada aliana, ao casal donde
saram os bens dissipados?
Calou-se o capito-mor.
- Que dizeis a isto? insistiu o governador.
- Digo que pode bem ser esteja a razo da parte de Vossa Excelncia.
- Neste caso, por que no ma d o senhor capito-mor fazendo o que
lhe aconselho?
-  do agrado do senhor governador o casamento?
- Penso, respondeu o governador elevando a voz como para acentuar
melhor o seu alvitre, que ser de grande proveito ao partido e 
famlia a aliana de sua sobrinha D. Leonor Barbalho com Vital
Rebelo, pois  este, alm de cavalheiro de muitas prendas, homem de
dotes superiores.
Desde algum tempo, que um dos toma-larguras do palcio andava
rondando sfrego de bispar alguma cousa da prtica. No escapou-lhe
uma s das ltimas palavras do governador, que alteara a voz a talho
de ser escutado.
Nessa mesma tarde Vital Rebelo sabia do que a seu respeito dissera o
governador.
Foi extrema a surpresa do mancebo.
Apesar de filho de mercador e partidrio do Recife, no era ele dos
que estavam nas boas graas de Sebastio de Castro; bem ao
contrario, tinha impulsos de dignidade e altivez que deviam beliscar o
orgulho do fidalgo.
Assim no lhe dava excelncia, tratamento que no competia aos
governadores, mas que eles recebiam de todos com prazer em vez da
chata senhoria, havendo-os que o impunham de preceito, bem como
outras cortesias a que no podiam pretender, pois eram prerrogativas
da majestade.
Guardando ao governador a reverncia que julgava devida, o alferes
cortejava-o com o chapu quando o encontrava, mas no ficava de
cabea ao tempo, como usava a gente principal, que no se cobria
nem voltava as costas estando ele presente e at o perder de vista.
Tambm no era Vital assduo em palcio onde compareciam
habitualmente todos os que tinham oficio pblico ou posto de milcia e
ordenanas. Alguma vez que l ia de longe em longe, levava<) mera
urbanidade e no lisonja.
Passava Sebastio de Castro por filsofo e desabusado acerca dessas
maneiras palacianas. do que muito se lastimavam os oficiais de sala,
ento como agora mais realistas do que o rei. Todavia nunca se
lembrou o fidalgo de acabar com tais prticas, no que bem mostrava
no lhe serem desagradveis e menos incmodas.
Mas por cima dessas esquisitices veniais, tinha Vital Rebelo pecado
mortal. Uma ou outra vez em discurso com o prprio Sebastio de
103
Castro, e muitas nas prticas dos mercadores, chegara a dizer que os
governadores abusavam do, seu regimento, j ingerindo-se nas
cousas de justia, j provendo postos que no cabiam em sua alada.
E no andava ele mal informado, pois ao prprio Sebastio de Castro
mandou El-Rei estranhar asperrissimamente por se intrometer nos
negcios de justia, e tambm por exigir que a Cmara de Olinda lhe
desse o tratamento de Senhor, a igual da majestade. Prova isto que o
rei-povo  menos que o rei-s zeloso de suas prerrogativas, e mais
bonacho com seus governadores e ministros.
Com tais antecedentes no havia reparar na surpresa de Rebelo ao
saber do conceito em que o tinha Sebastio de Castro e do empenho
que tomava pela realizao do mais ardente voto de sua alma.
- Fui injusto!  homem de nimo generoso, e um nobre corao! disse
o mancebo penhorado da fineza.
Havia ento no Recife um letrado que vivia dos provars, porm mais
da rigorosa economia, a que se acostumara. Chamava-se Carlos de
Enia e era homem de meia-idade, metido consigo, que o mais do
tempo levava a rabiscar papel.
H suspeitas de que seja o incgnito autor da crnica manuscrita
donde extraram-se estas memrias, e na qual porventura se
refugiava o advogado do nojo pelas misrias pblicas que o
rodeavam.
Fora Enia algum tempo secretrio de Sebastio de Castro, quando
este governara o Rio de Janeiro, bem que no se demorara no cargo,
pois ele, como de D. Joo de Castro disse Jacinto Freire, "podiam
sofr-lo como vassalo, mas no como criado".
Do pouco tempo de servio lhe ficara larga experincia do natural de
Sebastio de Castro, de quem algumas vezes costumava dizer: "que
era varo insigne, porm no posto a que o subira a fortuna, andava
desencontrado, desgovernando tudo pela nsia de muito governar".
Ligava Rebelo ao letrado uma afeio que nascera da conformidade
no temperamento de suas almas. Estando  noite com o amigo,
referiu-lhe o alferes o ocorrido, mostrando-se rendido  galhardia de
Sebastio de Castro.
Sorriu-se Enia, citando um verso de Srus:
- Nisi qui sit facere, insidias nescit metuere.
- Que queres dizer com isto? tornou Vital.
- Que vs a imagem alheia no espelho de tua alma; mas eu, que a
vejo  luz da experincia, descubro sombras que te escapam.
- E quais so elas, no me dirs?
- O elogio  um meio muito usado, mas sempre novo, de render a
vaidade; e neste caso tem outra serventia, qual  convencer-te da
gentileza de quem os faz. Se at agora nutrias uma preveno contra
Sebastio de Castro, de hoje avante vai ele tentar-te pela mais
104
perigosa das sedues, que  a da virtude. Acatando nele, j
revestido das dignidades do governo, um modelo de honradez e
smbolo de justia, que no exigir de tua venerao que tenhas fora
para recusar? Sero em comeo cousas de pouca monta que no
assustaro teus escrpulos; mas esse caminho  assim talhado, que
em tropeando nele, j ningum se pode erguer, e para subir no h
outro jeito seno ir de rastos ou s gatinhas.
- Estou  prova! disse Vital com sobranceria.
- Ainda no; por ora pertences ao amor, que  capaz de todos os
raptos e entusiasmos como de todas as loucuras, que faz heri ao
cobarde e mrtir ao egosta.  na idade da ambio que se prova a
tmpera aos homens.
- E qual  essa idade? No dirs que seja a tua, pois nela te condenas
ao esquecimento.
- No se trata de mim, que j no perteno ao mundo, nem cuido
seno de mirrar a mmia deste esprito para deix-la  posteridade.
No que eu creia nisso que se chama pomposamente a justia da
histria; mas creio no sarcasmo retrospectivo do futuro; creio no
desprezo pstumo pelas torpezas que j no aproveitam, e nessa
gargalhada eterna que desde o princpio do mundo atravessa as
idades fustigando como um ltego todas as grandezas ridculas e
grotescas.
Caindo em si, o advogado reprimiu esse rasgo, como homem que j
no permitia  sua palavra austera as flores da eloqncia:
- E eu a falar de mim, quando  de ti e do governador que me devo
ocupar! Quer-te ele casado...
- Tambm entra nisso um plano? perguntou Rebelo gracejando.
- E o mais perigoso. Moo, rico, benquisto, brioso, ornado de prendas
to luzidas que o prprio Sebastio de Castro no as pode esconder,
s um manjar de rei. Tua altivez j passa a escndalo e faz sombra
em palcio. Neste momento no tem o governador com que fascine
teu corao de namorado. Suas insgnias de capito-general no
valem para ti o requebro d'olhos e o sorriso de tua dama. Mas casado
e com uma fidalga de Olinda, tu, mercador e filho de mercador, podes
responder por tua iseno?
- Juro-te que sim; e se me conhecesses, no o duvidarias.
- No te conhece ele, e por isso espera que tua mulher ser a chave
com que os Cavalcantis te abriro a conscincia e se apossaro dela
at fazerem de ti uma criatura sua. Eis por que Sebastio de Castro
se empenha por teu casamento.
- Tenho na melhor estimao o teu voto em tudo, mas neste ponto
cuido que exageras a habilidade do homem; no o suponho capaz de
tal argcia, e nisso fao menos justia  sua virtude, do que ao seu
engenho.
105
Estavam os dois amigos no gabinete do advogado, que seguia a
prtica andando de um a outro lado. Passava ele por diante da livraria
e acertou de cair-lhe sob os olhos um volume.
- Conheces este livro? perguntou apontando o rtulo com o ndex.
- O Prncipe?
- Anda em moda compar-lo com Sebastio de Castro; e j ouvi de
algum, que o governador no era seno o livro encadernado em
pergaminho humano. Com essa maledicncia cuidam deprimi-lo, e o
absolvem. Maquiavel foi o poltico de seu tempo, como este o  de
sua escola. Observa-se em ambos a estranha fuso das mximas
severas da moral com os manejos de uma astcia desabusada. Agora
a dedicao ao bem pblico; logo aps um frio egosmo. A razo
disto, querem sab-la?  que para eles, que tm os povos em conta
de crianas, pois os conheceram assim, o governo do Estado no 
outra cousa seno a arte de enganar os homens para o bem de todos.
Essa convico robusta no deixou de abalar o mancebo, que movido
em parte dela e em parte da deferncia com que tratava ao amigo,
disse-lhe em ato de despedir-se:
- Que me aconselhas ento?
- Nada. Segue teu caminho; sers iludido por tua vez e aprenders 
tua custa. Aqui hs de tornar cedo, porque no s dos que aprendem
a grimpar e se agacham para subir.
CAPTULO IV
SISTEMA DE NAMORO QUE A POLICIA NO CONSENTIRIA NOS
TEMPOS DE AGORA
Foi um dia de Corpo de Deus que Vital Rebelo viu a primeira vez D.
Leonor, e ali ficou preso de seus encantos.
A gentil donzela, debruada ao balco da janela, acompanhava com
os olhos a procisso que passava nesse momento; e o mancebo
parado defronte enlevou-se na contemplao de seu formoso
semblante.
Quis o acaso que um lao de fita se desprendesse do toucado da
donzela e casse na rua alcatifada de lambis. Correu pressuroso o
namorado mancebo a apanh-la, e beijando-o cortesmente com os
olhos na dama, pregou-o ao peito do gibo como uma divisa.
Acompanhara Leonor com a vista ao seu tope azul at o momento de
o levar aos lbios o cavalheiro; ento uma onda de rubor lhe subiu ao
rosto. Foi quando tornou a si desse desmaio que reparou a furto no
galante cavalheiro, e no se pde esquivar de ach-lo gentil e airoso.
106
Mas, agastada pela vergonha que lhe causava, no reps nele os
lindos olhos negros, ainda que no deixou de volver-lhe uma e muitas
vezes a vista de relance.
Nessa hora decidiu-se o destino de Vital Rebelo.
Outras donzelas tinham o Recife e Olinda, e das mais formosas, que
suspiravam entre as persianas do balco vendo passar no seu garboso
ginete o prendado mancebo, e cuja mo de esposa bastaria um
desejo seu para obt-la.
Mas havia ele de prender-se queles negros olhos, que, se lhe
prometiam meigos rendimentos, deviam custar-lhe tantas nsias e
aflies, como lhe estavam reservadas na triste sina de amante, que
depois de esposo, tornou ao que era, porm desventurado.
Desde aquela tarde de Corpo de Deus avistou-se Vital muitas vezes
com Leonor, ou no bako da casa, ou na S em hora de missa, ou na
rua por entre as cortinas do palanquim; e parecia-lhe que de cada vez
se apagava aquela esquivana, como que de princpio fugiam os olhos
da donzela de encontrarem-se com os seus.
Uma tarde em que ficou a donzela s por um instante no balco, Vital,
que andava espreitando essa ocasio, chegou a todo o galope do
ginete, o qual ao manejo do destro cavalheiro empinou-se quase
direito apoiando as patas na parede.
Baixos como eram naquele tempo os andares, pode o gil mancebo
erguer-se na sela a jeito de oferecer a Leonor um cravo encarnado
menos formoso todavia que os dois abertos quele instante nas
aveludadas faces da donzela.
No se animava a tmida moa a tomar a flor da mo do cavalheiro, e
foi preciso que este lha deixasse na manga do vestido que abria-se
em volta do mimoso brao, como a folha a cingir o clice do lrio.
Nesse momento assomou  janela Andr de Figueiredo, que
suspeitoso observara de dentro a ousadia do cavalheiro e a
indulgncia da dama. Lanando mo  flor arremessou-a contra o
rosto de Vital, enquanto com o brao esquerdo arredava a sobrinha
da janela, falando-lhe de um modo spero:
- Recolha-se, Leonor!
Entretanto Rebelo que apanhara a flor no ar, trouxe outra vez o
brioso ginete contra a parede.
Ento com admirvel agilidade alcanou o parapeito do balco e
saltou na janela, ao lado de Figueiredo.
Quando este apercebeu-se do lance, estava sujigado  portada pela
mo robusta de Rebelo, que desembainhando a adaga disse para
Leonor:
- Tomai-me este cravo, senhora, e prendei-o ao peito de vosso
justilho, por que se o deixais cair,  f de Deus e da muita adorao
107
que me mereceis, juro-vos que o plantarei no corao deste
cavalheiro com a ponta de meu punhal.
Leonor espavorida obedeceu maquinalmente, e Rebelo, deixando o
capito ainda sufocado da gargantilha viva que lhe cerrara o pescoo,
saltou na sela e afastou-se a galope.
To rpida correu esta faanha, que j o alferes desaparecera no fim
da rua quando Andr de Figueiredo se debruava na sacada furioso,
com os dentes a ranger e os lbios trmulos de ira.
Estava temeroso assim o capito, que j de si era, ainda mesmo em
sossego, de aspecto duro e carrancudo. Dobrando a meio sobre o
parapeito a alta estatura, devorava com o fero olhar o espao em
busca de Vital.
Era Leonor filha nica de D. Antnia de Figueiredo, a qual depois da
morte de seu marido Lus Barbalho de Vasconcelos, viera habitar nas
casas do irmo Andr de Figueiredo, onde tambm morava sua irm
viva, D. Lourena de Holanda.
Foi essa famlia um ramo dos Holandas, a cujo tronco se prendia por
Agostinho de Holanda Vasconcelos, terceiro filho varo de Arnault de
Holanda, que fundou em Pernambuco essa linhagem, casando-se com
D. Brites Mendes de Vasconcelos.
Pelo casamento de Cristvo de Holanda, primeiro filho varo de
Arnault de Holanda com D. Catarina de Albuquerque, filha de Filipe
Cavalcanti, fidalgo florentino, comeou a aliana das trs casas dos
Holandas, Cavalcantis e Albuquerques, a qual da em diante se foi
ainda mais estreitando com o volver dos tempos por novas unies.
Com a morte do pai de Leonor, tomara-lhe a autoridade o Capito
Andr de Figueiredo, como cabea da famlia; pois alm de trs irms,
ainda tinha de dois irmos mais moos, o Tenente Antnio Tavares de
Holanda e o bacharel Jos Tavares de Holanda, que j encontramos 
ceia do capito-mor.
Deixou o finado Lus Barbalho em pobreza mulher e filha, tendo-lhe
devorado o jogo tudo quanto pde apurar de seu patrimnio e da
fazenda que levara-lhe a esposa, pois para acudir s perdas e dvidas
de honra, fez barato das suas propriedades.
O capito-mor que porventura poderia, com a autoridade dos anos e
da chefia, pr cobro a esse desmando, abstinha-se, apesar dos rogos
da sobrinha D. Antnia de Figueiredo, me de Leonor.
Foi sempre o jogo uma das fidalguias dos Cavalcantis; por isso o
velho pecador, que no era homem de pregar como Frei Toms,
desconversava o caso.
Sucedeu que os prdios queimados por Lus Barbalho fossem
comprados, uns diretamente e outros em segunda mo, por Manuel
Rebelo, pai de Vital e negociante de grande giro, que havendo
108
acumulado cabedal, no perdia ocasio de dar-lhe seguro e vantajoso
emprego.
Outro, se ele no se propusesse, haveria os bens e por mais vil preo.
No obstante, aquela coincidncia fortuita tornou-se crime aos olhos
dos parentes propensos a buscar um bode expiatrio para as culpas
de seu conjunto.
Ainda Vital no era conhecido de Leonor, que j esta aprendera da
me a abomin-lo, como o herdeiro, no nome e no rancor, do
usurrio que arruinara seu pai, reduzindo  extrema pobreza sua
casa. Mas estas sementes de malquerena em corao de menina so
arriscadas, porque em vez dos abrolhos, acontece as mais das vezes
brotarem rosas.
J se v que Andr de Figueiredo no podia ver de boa sombra que
sua sobrinha fosse requestada por um Rebelo, que alm de pfio
mercador, indigno de levantar os olhos para uma descendente dos
Holandas e dos Cavalcantis, era figadal inimigo da famlia.
No disfarara Rebelo os obstculos com que tinha de afrontar-se o
seu afeto; e todavia no se abateu o nimo esforado.
Sua condio de homem sem nascimento, ele a aceitara como uma
injustia da sociedade; e desde muito moo foi seu timbre destruir
essa barreira que os prejuzos antepunham s nobres e legtimas
aspiraes de sua alma.
Podia como outros comprar um hbito de Cristo ou algum ofcio dos
que traziam nobreza. Mas sua fidalguia, no a queria ele mercada e
somente conquistada por seus feitos. Assim foi que adquiriu todas as
prendas e gentilezas de cavalheiro, e com tal realce, que no havia
nobre em Pernambuco seno em todo o reino, capaz de lhe disputar a
primazia em qualquer exerccio de corpo ou de esprito.
Da provinha o seu justo orgulho de se haver feito a si prprio grande
fidalgo, sem necessidade de braso e linhagens, pelo nico estmulo
de seus brios generosos. E tinha um pressentimento de que sua
Leonor o estimaria mais assim, filho de suas obras, do que alapardado
em ridculos pergaminhos.
Desde aquela tarde do cravo, cada vez que Rebelo queria avistar-se
com a dama de seus pensamentos, custava-lhe isso, como dissera o
governador, um assalto d'armas ou uma batalha campal.
Tinha ele mensageiros que o traziam informado dos passeios de
Leonor, e o avisavam das ocasies em que a me lhe consentia estar
 janela, ou a levava fora, em passeio e visitas.
Ento corria o mancebo a Olinda, se j ali no estava oculto em casa
do alvissareiro, e acompanhado de dois acostados de sua confiana
ia-se ao enconntro de Leonor, para cortej-la com o respeito devido a
uma rainha e significar-lhe com o gesto singelo da mo esquerda
sobre o corao, que ela continuava a reinar ali como soberana.
109
As mais das vezes, antes de aproximar-se da donzela, tinha ele de
romper atravs das espadas e adagas de Andr de Figueiredo e sua
comitiva; outras tomava-os de surpresa, e era na retirada que se
travava a peleja.
Nessa porfia andavam to tribulados amores, quando a carta rgia da
criao da vila do Recife levou a palcio o capito-mor, donde
resultou a interveno de Sebastio de Castro em favor dos dois
amantes.
Bem que penhorado pela ao generosa do governador, no se deixou
Rebelo afagar pela travessa esperana que lhe roava o corao com
as asas verdes. Sabia ele de que tmpera era a soberba dos
Cavalcantis, como o dio de Andr, de Figueiredo: no bastava para
dobrar esse ao o favor de algumas palavras. embora de pessoa de
tamanha valia.
Trs dias depois, sobre tarde, Vital Rebelo encaminhou-se a cavalo
para Olinda, ansioso por ver Leonor, em cujos formosos olhos se no
tinha mirado desde muitos dias.
Passou a ponte do Varadouro, subiu a ladeira, e entrou na Rua de So
Bento. Estava a donzela  sacada, e debruou-se ao avistar o galante
cavalheiro, pendendo-lhe da mo mimosa uma cndida e
formosssima teia de Cambray, cercada de rendas de Flandres.
Quando passava o mancebo por baixo da janela, soltou-se o leno que
Vital Rebelo, recebeu na palma, beijando-o uma e muitas vezes,
sobretudo nos emblemas que trazia bordados a fio de seda pelas
mos de Leonor, e eram um cravo encarnado ao qual servia de vaso
um corao.
Tornando a casa, ainda enlevado, agradecia o alferes a Sebastio de
Castro sua ventura; pois aquela prenda. trabalhada por Leonor nas
horas de saudade, no teria ela nem nimo nem liberdade de
oferecer-lha, se no houveram cessado a severidade e vigilncia de
que a cercavam.
De feito, o que Vital no ousara esperar veio a realizar-se, ainda que
no em muita relutncia e acerbas contestaes.
Relatara o capito-mor aos principais da famlia quanto passara em
palcio, e para todos ficou evidente que o governador querendo
proteger Vital Rebelo, por quaisquer motivos, fazia do casamento
deste com Leonor a condio do prometido favor de protelar a criao
da vila do Recife, e frustr-la sendo possvel.
Sebastio de Castro tinha para si que nada prometera, e ficara senhor
de proceder como julgasse mais acertado de futuro, em face das
circunstncias. Era essa uma das sutilezas do fidalgo: persuadir aos
outros de empenhos que, alm de no tomar, ele costumava ressalvar
por umas palavras ou reservas mentais a que se no dava ateno.
110
Largamente se discursou no sof acerca do que havia a fazer em tal
emergncia. Logo em princpio preponderou o alvitre de repelir sem
mais exame a possibilidade de uma aliana degradante para a
nobreza e em particular para os Cavalcantis; e as razes dos mais
polticos sobre a necessidade de derrogar um tanto no lustre da
nobreza pernambucana para salvar-lhe a suma que eram as regalias e
privilgios, retrucavam que se no havia mister de tal sacrifcio,
quando podiam fazer que o Senado de Olinda embargasse a execuo
da carta rgia obtida ob e sub-repticiamente.
Destes ltimos eram os mais assomados, como de razo, Andr de
Figueiredo que as pblicas estimaes juntava as particulares das
afrontas recebidas, e tambm o ouvidor Arouche. No outro partido
estava o Sargento-Mor Cristvo de Holanda, que era de natural
brando e conciliador.
Acudiu ento Filipe Uchoa com o seu peco de reduzir diferenas e
sugeriu o alvitre de se no embaraar pelo enquanto o casamento,
sem todavia aceit-lo definitivamente, e assim ganhando-se tempo, o
que era de toda importncia para o caso, diferia-se a dificuldade que
mais tarde se resolveria como pedissem as circunstncias.
Era o bacharel camarada de Vital Rebelo ou inculcava-se a; mas esse
favor de Sebastio de Castro pelo alferes estava-lhe fazendo ccegas
 vaidade, pelo que maquinava cinzar ao governador o qual nessa
bisca da poltica era homem para dar-lhe sota e s.
To vrios e encontrados pareceres, ouvia-os Joo Cavalcanti com
semblante de juiz que pesa o pr e o contra. s vezes, embora raras,
cobrava esse nimo alquebrado o vigor primitivo, e mostrava a efgie
do galhardo e leal cavalheiro que fora.
Tomou ele a palavra com autoridade, e todos o escutaram reverentes.
- Se nesse casamento est o penhor de nossa vitria e portanto da
conservao de Olinda e de sua nobreza, que muito  to pequeno
revs em comparao da desafronta de nossos brios enxovalhados
pela mascataria do Recife? E uma vez que havemos de passar por
essa prova, cumpre sofr-la com nimo de cavalheiros, sem despeitos
nem subterfgios.
Neste ponto Filipe Uchoa corando ao de leve, enfrestou o olhar por
cima dos culos para examinar o efeito que produzira no semblante
dos outros a indireta do tio.
- Esse Rebelo, continuou o capito-mor, no  nobre; mas tambm
por seus cabedais e trato de vida j se no pode dizer um peo. E os
descendentes dos Cavalcantis, Coelhos, Albuquerques e Holandas,
temos fidalguia demais, que sobra sem dvida para repartir com os
maridos de nossas filhas e sobrinhas:
Ficou pois decidido que se deixaria o campo livre ao mancebo para
cortejar a donzela, com o que ele infalivelmente se afoitaria a pedir111
lhe a mo, sfrego da honra insigne dessa aliana, ainda mais do que
dos arrebatamentos da paixo.
No se atreveu Andr de Figueiredo a opor-se de frente ao capitomor.
Arrancou desabridamente, como quem se no podia conter, e
entrando por casa, foi-se  irm:
Querem casar Leonor com o filho do judeu que desgraou-lhe o pai.
Com o meu Voto, nunca o fareis. E tambm vos digo que, eu vivo,
aquele vilo no passar a soleira desta casa. Nem jamais terei por
meu sobrinho e vosso filho o perro que eu jurei de coser com esta
adaga.
Parece que D. Antnia contou ao tio as ameaas do irmo, pois nessa
mesma tarde, antes de montar a cavalo, buscou o capito-mor a
Andr de Figueiredo.
- Sabereis, meu sobrinho e senhor Capito Andr de Figueiredo, que
me veio ao conhecimento vossa inteno de desafiar-vos com Vital
Rebelo; e ento ocorreu-me dizer-lhe que doravante, visto ser por
minha vontade que o rapaz corteja Leonor, no  com ele, mas
comigo, que vos tereis de haver, do que vos dou aqui por ciente.
Estas palavras as proferira o velho desempenando o grande talhe com
o garbo marcial de outros tempos; e rematou-as batendo com a
palma da mo direita nos copos da espada suspensa ao quadril.
Depois cortejou, tocando com donaire na aba do chapu:
- Ao seu dispor, senhor capito.
Andr de Figueiredo, de cabea baixa, no abriu boca, temendo ao
descerrar os lbios que lhe rompessem, no palavras, mas todas as
pragas do inferno que lhe ferviam no corao. Quando se foi o tio,
rugiu de clera, arrancando um punhado de barbas.
Desde esse dia sumiu-se de casa. Soube-se depois que partira para
seu engenho do Cair, onde conservou-se por muito tempo
fermentando sua ira.
Tais eram as ocorrncias que nos dias anteriores haviam conduzido os
amores de Vital  feliz conjuno em que ele os achara na sua ida a
Olinda, e em que permaneceram at o dia dos desposrios.
CAPTULO V
UM ECLIPSE DA LUA-DE-MEL, COM QUE NO CONTAVA O
GOVERNADOR, O QUAL SE PRESUMIA DE SABER DE TUDO, AT DE
ASTROLOGIA
Marcou-se para as bodas o dia 1 de setembro de 1709, que veio a
cair em domingo.
112
Fora preciso a Vital a muita pacincia que ele tirava de seu grande
amor para suportar at aquele dia as impertinncias e arrogncias da
famlia Holanda. Comeara pelo sim, que s lhe deram depois de mil
negaas, havendo o cuidado de encarecer-lhe sobre medida a honra
que recebia com essa aliana  qual se tinham movido por
comiserao s splicas de Leonor.
Dissimulando a revolta de seus brios, soube Rebelo, todavia sem
quebra da cortesia, rebater-lhes a arrogncia.
- Podeis guardar esta certeza, senhores. To precioso tesouro  para
mim, irmo de D. Leonor, que a nobreza de Pernambuco no tem
cousa que o valha, nem eu o trocaria por todas as fidalguias do
mundo. Por isso no canso de agradecer a Deus, Nosso Senhor, a
ventura de ma ter concedido.
No dia marcado, e  noite, como era ento o costume, celebraram-se
as bodas nas casas de Joo Cavalcanti, com a pompa e luzimento
adequados  fidalguia da noiva e riqueza do noivo.
Leonor estava deslumbrante sob os cndidos vus que lhe nublavam
de tnue sombra difana a imagem formosa, tocada pelas vivas tintas
do rubor, e lhe perfumavam a lindeza de uma graa anglica.
O nosso amigo Lisardo de Albertim, no epitalmio que teve de recitar
 mesa do banquete, na sua qualidade de poeta familiar da casa,
comparou a gentil noiva com a Aurora, a deusa da luz descendo dos
cus, aljofrada de orvalhos, para abrir com os clssicos dedos de rosa
as portas do Oriente:
Envolta nos puros vus,
Qual Aurora prazenteira
Que meiga desce dos cus
Ao raiar da luz primeira,
De per'las vestindo o manto luzente
Para abrir as do Oriente
Rijas portas de rubim;
Ela, a drade formosa destes prados,
Com seus dedos de rosa e de jasmim,
Abre os prticos dourados
Do templo do himeneu.
Era feliz o Albertim nas suas comparaes. Ali, no meio da sala, se
repimpava D. Severa, a ninfa olindense, que esticada por um vestido
verde-gaio a ponto de verter sangue da cara, estava retratando o
madrigal do poeta, como a viva imagem de uma roseira de
Alexandria.
113
Desde o principio da noite que se poderia observar na sala entre os
parentes da noiva um continuo apuridar-se que no era consoante em
companhia de amigos e para fim to prazenteiro como aquele.
No deixou Vital Rebelo de fazer esse reparo, assim como de notar
que o centro daquela trama de cochichos que se estava urdindo ali,
era o bacharel Filipe Uchoa, pessoa a quem apesar de camarada ele j
no via com boa sombra pela indizvel repugnncia que lhe causavam
aqueles ademanes refolhados.
Reclamado pela cerimnia religiosa, que ia fixar a sua sorte e prendelo
por laos indissolveis, no prestou mais ateno queles manejos
seno  hora do banquete em que eles se tornaram mais inquietos,
porventura com a aproximao do momento esperado.
Sentiu o mancebo um vago e indizvel receio travar-lhe do corao,
que nesse instante se engolfava na ventura de achar-se unido para
todo o sempre  sua Leonor. Era como o pressentimento de uma
nuvem que pudesse toldar de repente o cu lmpido dessa felicidade
to ansiada.
O Capito-Mor Joo Cavalcanti, depois de ter rendido o preito que um
bom fidalgo devia a to suntuoso banquete, levantou aos noivos o
brinde de honra fazendo voto para que lograssem unidos muitos e
longos anos de felicidade; no que foi acompanhado por todos os
convivas, mas sem efuso.
Preenchido esse ato do cerimonial que lhe competia de juro como
chefe da linhagem, eclipsou-se o capito-mor da casa do banquete e
recolheu-se aos seus aposentos de dormir, pois era chegada a sua
hora habitual.
Era ento costume, que se acabou com a recente invaso das modas
francesas, continuar a festa das bodas at ao romper da alvorada.
No maior calor do baile e das folganas, os noivos iludindo a vigilncia
e dicho dos convivas maliciosos buscavam esgueirar-se furtivamente,
azo que nem sempre se lhes deparava.
No sofria a gravidade dos Cavalcantis esses remoques ou. no o
tinham por conveniente naquela ocasio. Assim que, pouco tempo
no era passado desde a sada do capito-mor, quando o Tenente-
Coronel Antnio Tavares tomando a direo da festa, falou alto do
meio da casa:
-  hora, senhores, de acompanharmos os noivos.
Chegou-se Vital Rebelo, que viu a todos os convivas em alas  espera
que fosse ele dar o brao a Leonor, para tomar a frente do prstito.
- No vejo  porta o palanquim de D. Leonor, nem os nossos cavalos.
Os parentes, a essa observao, entreolharam-se um tanto confusos,
e Filipe Uchoa desdobrando pichosamente o seu fino leno de batista,
passou a limpar o vidro dos culos, com o apuro que ele punha em
todas as minudncias.
114
Afinal, como Vital se no movia,  espera da resposta, decidiu-se
Antnio Tavares a falar:
- E para que palanquins e cavalgaduras?
- Pois no vedes que a minha senhora D. Leonor e estas damas no
podem ir a p at o Recife? tornou o mancebo surpreso.
- Mas se no vamos ao Recife! acudiu o Tavares com despacho.
- No vamos ao Recife?... E porventura no  a que moro eu,
senhores, e que tenho casa preparada para receber-nos? exclamou
Vital que sentia aproximar-se a tormenta.
Nesse momento adiantou-se o licenciado Jos Tavares, que era o
lampio da irmandade e tomou a palavra. O Filipe Uchoa deixou-se
ficar na penumbra, pondo os culos para apreciar o modo por que o
primo ia desempenhar o seu papel.
- Assentamos, a senhora D. Antnia de Figueiredo Barbalho e seus
irmos, em que sua filha e nossa, pois como tios lhe fazemos as vezes
de pai, ficasse estes primeiros tempos aposentada em nossa
companhia, e nesta conformidade mandamos preparar na casa
vizinha os alojamentos precisos, que esto prontos para receb-la e a
seu noivo.
- Ah! E a quem devo to fina lembrana? Quero apostar que ao nosso
amigo, o senhor bacharel Filipe Uchoa?
Proferindo estas palavras com um sorriso de ironia, Vital procurou
com o olhar ao bacharel, o qual estava ento muito entretido em
provar a D. Severa que os encantos nela aumentavam com os anos e
que em vez de invernos a ninfa podia afoitamente contar cinqenta
primaveras.
No se enganara Rebelo. Fora com eleito Filipe Uchoa quem urdira
essa conspirao nupcial, com aquela destreza que Sebastio de
Castro tanto prezara outrora, quando no havia ainda bem
experimentado a do Barbosa de Lima.
Obrigados da necessidade e respeito ao capito-mor a consentir no
casamento de Leonor com o filho do mascate, a me e tios da moa
no podiam esconder o seu descontentamento. Deste se aproveitou o
bacharel para tecer o seu plano cuja suma o Jos Tavares acabava de
anunciar.
Fazendo que Vital Rebelo, rendido aos encantos da noiva, se deixasse
ficar na companhia da sogra, seqestrava-se o novo parente  ral
donde infelizmente procedia, e contava-se com a seduo de Leonor e
os conselhos dos tios. para essa regenerao, que se podia consumar
com a merc rgia de algum hbito de Cristo.
Desta sorte transformado o mascate do Recife em nobre de Olinda,
no somente se apagava a mancha nos brases da famlia, mas ainda
por cima se ganhava um partidista de grande valia, por seus dotes
115
pessoais, como por seus na veres; e assim pelejariam o inimigo com
esse forte reduto, que ele no soubera defender.
A urdidura deste estratagema e o seu discurso foram, como dissemos,
de Felipe. Uchoa que excedeu-se em p-la por obra, encarecendo-lhe
as vantagens e ensaiando os vrios papis. Mas a inspirao ou traa
primeira parece ter sado do Pao de Santo Antnio.
Entre as boas manhas, de que era to prendado Sebastio de Castro,
uma em que muito se apurou, foi a de insinuar no nimo de outrem
uma idia, mas de forma e com tal sutileza, que nem ele a exprimia,
nem o seu interlocutor poderia asseverar que a ouvira.
Tinha ele diversos mtodos para esta sorte, sendo mais freqente o
de por excluso de partes sugerir no nimo alheio, por modo que
parecia espontneo, aquilo que tinha em mente, e que no lhe
convinha comunicar por palavras sempre arriscadas.
Assim, querendo nomear certo sujeito para algum ofcio, se lhe no
fazia conta mostrar sua predileo, entrava a achar pecha em todos
os indicados, dando uns sinais de quem serviria ao caso, at que o
Ajudante Negreiros soletrava-lhe o nome do tal, e ele o acolhia como
uma surpresa.
A verdade  que foi na volta do palcio, uma noite, que Filipe Uchoa
concebeu o seu engenhoso plano.
Apesar da raiva que tinham a Sebastio de Castro e da linguagem
solta que usavam a seu respeito, no deixavam os principais de
Olinda de comparecer uma vez por semana no Palcio das Duas
Torres, para cumprimentar o governador, pelo qual eram acolhidos
com as mostras do mais especial agrado.
Como bom poltico, pensava o fidalgo que a nau do Estado devia por
sua grande monta andar sempre a duas amarras. Com esta mxima
significava que se devem distribuir os favores entre os partidos, de
modo que tocando a um as mercs, ao outro fiquem os afagos.
Por isso era o governador o primeiro antagonista dos mascates, de
quem se rodeava, assim como o primeiro apologista dos nobres, que
no perdiam ocasio de feri-lo.
Estando pois em palcio os principais de Olinda, acertou-se de falar
do ajustado enlace de D. Leonor Barbalho com Vital Rebelo; e
tomando o governador interesse na prtica, alongou-se esta pela
noite adiante.
Haver quem repare em ocupar-se longamente do casamento de uma
moa, um governador, cujo pensamento deve estar sempre
preocupado de negcios de suma gravidade. Mas, alm de contar-se o
talento das minudncias entre pices rgios, atenda-se a que
naqueles tempos idos a arte da governana ainda se praticava por
esse teor da poltica de aldeia.
116
Demais, tenho para mim que no alfarrbio donde se vai extraindo
esta crnica anda metida muita alegoria, com que o letrado Carlos de
Enia, seu apcrifo autor, quis significar certos enredos de governo
por contos de amor. figurando talvez interessado na sorte das damas
quem somente se movia pela vaidade das honras e ambio do
mando.
De envolta com boa cpia de banalidades, deixou Sebastio de Castro
escapar a suposio de que Vital, aliando-se  famlia Holanda, seria
atrado insensivelmente para o partido dos nobres com o que estes
muito ganhavam.
Esta semente lanada em to boa terra, e com o amanho de Filipe
Uchoa, por fora que havia de dar fruto. E a prova a estava no plano
to bem tecido para reter em Olinda o noivo de Leonor.
Compreendeu Vital de pronto o desgnio dos novos parentes e a
desvantagem de sua posio. Como ltima concesso ao orgulho dos
nobres, e tambm para no expor ao desdm e motejo seus amigos
mercadores, no os convidara o noivo a suas bodas, e se
acompanhara nelas unicamente de um amigo, o Capito Eusbio
Monteiro, que estava a seu lado.
No se deteve, porm, o brioso mancebo, e erguendo a fronte com
serena altivez, atirou aos nobres estas palavras:
- Pois, senhores, com bastante mgoa vos digo eu que de D. Leonor
Barbalho, enquanto donzela, podiam sua me e seus tios dispor a
belprazer; de D. Leonor Rebelo, minha esposa e senhora, no dispe
ningum mais seno ela, e porque dando-me sua mo, aceitou-se por
minha companheira e dona de quanto me pertence,  de razo que a
conduza a sua casa.
Voltando-se ento para o amigo:
- Capito Eusbio Monteiro, mandai vir o palanquim de D. Leonor e os
cavalos que meus criados devem ter  mo aqui perto.
Enquanto saa o capito a satisfazer o pedido, Leonor aproximou-se
tmida e vergonhosa de seu noivo para suplicar-lhe que fizesse a
vontade  me.
Pelos olhares que trocava a donzela com D. Lourena, enquanto
balbuciava palavras trmulas, se estava conhecendo que ela
desempenhava uma parte que lhe fora destinada naquele drama de
famlia.
Ao ver com que respeito Vital escutava Leonor e o mimo de suas
maneiras buscando dissuadi-la da idia de condescender com a
vontade da me, os parentes tinham por certa a vitria. Cuidavam
eles que s delcias de uma noite de noivado, no havia teno que
lhe resistisse.
Da porta, Eusbio Monteiro fez sinal ao amigo, que sua ordem estava
cumprida.
117
- Vamos, D. Leonor! disse Vital oferecendo a mo  sua noiva.
Ainda chegou a donzela a roar os dedos afilados na palma do
cavalheiro: mas retraiu-se logo sob o olhar de sua me e a um
movimento da tia D. Lourena, que lhe puxara pela manga.
Voltou-se o mancebo, sentindo que a donzela retraa-se:
- Ento, senhora?
- No posso! balbuciou Leonor.
- No podeis acompanhar-me  vossa casa do Recife? insistiu Vital
empalidecendo.
Ps o mancebo os olhos cheios d'alma em sua amada e disse-lhe com
a voz repassada de tristeza:
- D. Leonor, acabastes de jurar a Deus neste mesmo momento de me
acompanhar por toda a vida, como eu a vs, e sermos eternamente
um do outro; ainda se no apagou o eco destas palavras, e j em
vossa alma se apagou a lembrana delas, que recusais seguir o
esposo e entrar em vossa casa para ficar na alheia?
- Nunca lhe ser alheia a casa em que nasceu, acudiu D. Antnia de
Figueiredo.
- Sabe Deus, senhora, continuou Vital dirigindo-se  noiva, quanto me
mereceis; sabe o quanto fiz para obter vossa mo e o muito mais que
faria. Tudo pareceu-me pouco, e ainda me parece neste momento. S
uma cousa vos no dei nem a posso dar, que sem ela no seria digno
de vosso amor. Mas essa, que  a honra, ningum a deve mais
resguardar do que a por quem, sobre todos e sobre mim, a prezo e
estimo.
- Pretende o Senhor Rebelo que lhe  desonra nossa companhia!
observou Felipe Uchoa.
- Desonra seria renegar dos meus e bandear-me a outros, tornou o
mancebo indiferente  ironia. No posso ficar em Olinda, D. Leonor,
sem quebra de meu nome, que por no ser de nobre, no o  menos
para mim, pois vos pertence. Deixar-me-eis partir s, e vos negareis
desta sorte quele a quem vos destinou e vs mesma vos
concedestes?
Decorreu um instante no mais profundo silncio. Com os olhos fitos
em sua noiva, Vital esperava uma palavra, um gesto de aquiescncia.
- Adeus, senhora! disse afinal com uma voz em que se lhe partia a
alma.
E caminhou para a porta.
Este desfecho no o esperavam os parentes que tomados de
surpresa, se foram ao primeiro assomo de despeito. Antnio Tavares,
primeiro, e os outros aps, arrancaram das espadas com brados de
sanha:
- Daqui no saireis!
Lanou-lhes Vital um olhar de frio desprezo.
118
- Se eu no estivesse em casa de fidalgos, cuidara ter cado em uma
emboscada. Quereis forrar-me ao desgosto de deixar-vos? Tendes um
meio certo, que  tirar-me este resto de vida, com o que me fareis
grande amizade, prpria de parentes que sois.
Com estas palavras amargas, cruzara os braos o mancebo
afrontando sereno as ameaas dos nobres, que j cobrados do
primeiro arranco, se retraam confusos e desconfiados.
A agitao que houvera na sala no deixou ver o arrebatamento de
Leonor, a qual no momento de sacarem seus tios das espadas, se
arremessou para defender com o corpo o peito do marido. D. Antnia
e D. Lourena, lhe estavam ao lado, reprimiram este generoso
movimento.
Como se tivessem de todo reportado os nobres, deixando-lhe franco o
passo, atravessou Vital vagarosamente a sala, e voltou-se do limiar
da porta para dizer ainda uma vez:
- Adeus, senhora!
Leonor desmaiara, mas no o viu o marido, que j tinha desaparecido
no corredor da sada.
CAPTULO VI
NO QUAL SEBASTIO DE CASTRO PE OS PONTOS NOS II, E D UMA
LIO MESTRA NO ALFERES VITAL REBELO
Os dias que seguiram-se  noite das bodas, a vida de Vital Rebelo no
foi seno a longa e aziaga modorra, em que apagou-se o sonho
inefvel de sua ventura.
Todavia, um s instante no se arrependeu do que havia feito. Tinha
ele uma alma dessas para quem a virtude no  a cousa banal que o
mundo chama dever; mas um supremo enlevo da conscincia, que
sente-se divinal quando triunfa das prprias paixes.
Para os homens deste temperamento a honra no consiste em
vanglrias que insufla a vaidade; e sim no ntimo contentamento de si
mesmo, que  a seiva robusta de que se nutre sua existncia.
Resolvendo ficar em Olinda, Vital no teria rompido o fio dourado de
sua felicidade, e estaria quela hora gozando as primcias do amor
terno e mavioso de sua Leonor. Mas no estado das cousas, aquele
passo o rebaixara em sua prpria conscincia; e desde ento, sob a
vergonha dessa humilhao, j sua ventura no teria a pureza.
imaculada que o enchia de jbilo; as carcias de sua noiva perderiam
o sabor celeste com o travo deste pensamento, que ele as comprara
por uma vileza.
119
Perdera tudo quanto podia embelezar-lhe a existncia, mas salvara-se
a si, e podia-se dizer o homem que fora, e no um desses esplios
d'alma que, abandonados de sua prpria individualidade, andam no
mundo como vasilhas humanas, onde se despejam e fermentam as
paixes alheias.
Nos primeiros tempos o tdio que tomara ao mundo, tornando-lhe
grata a solido, o levara pelos stios escusos onde parecia-lhe que o
entendiam os rumores do bosque sussurrante.
Por vezes na volta destes passeios encontrava-se com a cavalgada de
Sebastio de Castro, que vinha tambm da sua costumada excurso.
Respondia o governador com muita urbanidade  cortesia do
mancebo; e correspondia-lhe de um modo to afetuoso, que metia
inveja aos da comitiva.
Estas repetidas mostras de apreo, significativo a ponto de traduzir-se
nos apertos de mo e zumbaias da gente de palcio, despertaram no
esprito aborrido de Vital Rebelo uma idia que, repelida  primeira e
outras vezes, tornava sempre com insistncia.
Fora o governador quem arranjara seu casamento pela recomendao
que fizera ao Capito-Mor Joo Cavalcanti; e pois bem podia ele, que
vencera a maior dificuldade, cortar agora a mnima exigncia que sem
propsito faziam os tios de Leonor.
Logo, porm, arredou este pensamento, pela averso que sempre
tivera de solicitar favores. Mas tratava-se de sua felicidade,
porventura de sua vida; quando o governador lhe dava tantas provas
de apreo, parecia-lhe demasiada sobranceria, seno desatino,
desprezar os bons ofcios que j uma vez tanto haviam aproveitado.
No meio desta perplexidade resolveu consultar Carlos de Enia
contando que o amigo o dissuadiria da idia. O contrario aconteceu.
- No s procedes com acerto falando a Sebastio de Castro, como no
teu caso  o que de melhor podes fazer, respondeu o letrado.
- Pensas ento que obterei por seu intermdio chamar  razo os tios
de Leonor.
- Alguma cousa com certeza obters deste passo, disse Carlos de
Enia com um leve sorriso de ironia que apagou-se logo na habitual
expresso do semblante melanclico.
No seguinte dia foi Vital Rebelo a palcio.
Sebastio de Castro o recebeu afetuoso, e indagando com vivo
interesse dos pormenores da cena que passara na noite das bodas,
ps o mancebo a caminho do pedido que lhe vinha fazer.
- Fiado na muita bondade de Vossa Senhoria, que j uma vez foi
servido interessar-se por minha sorte, venho rogar-lhe a continuao
do favor que espontaneamente j mereci, na esperana de que to
valiosa interveno por um termo  birra malfadada dos parentes de
D. Leonor.
120
O prazenteiro semblante do governador fechava-se ouvindo o
mancebo:
- E por que recusa o senhor obstinadamente morar em Olinda, na
companhia de sua mulher? No lhe acho razo; nem admira que os
Cavalcantis se mostrem ofendidos com o seu procedimento.
- Sabe Vossa Senhoria quem eu sou! respondeu Vital com altivez, e
compreende que os meus brios no me permitem ficar em Olinda. 
ponto de honra e no acinte. -
Tinham certas palavras a propriedade de arranhar o ouvido fidalgo de
Sebastio de Castro; essa de brios era uma das tais.
Pelas colises freqentes em que o colocava o seu sistema de
governo, e pelo hbito de transigir com as dificuldades em vez de as
remover, adquirira ele a admirvel maleabilidade com que sabia
ajeitar-se a todas as circunstncias.
Dai provinha que as melhores tmperas d'alma, como o sejam a
firmeza, a coerncia, a perseverana, eram cruezas de que se julgava
ele isento, e que tachava nos outros como graves defeitos que os
tornava inbeis para os cargos da Repblica.
Tomara a sua fisionomia um gesto desdenhoso ao ouvir as ltimas
palavras do mancebo, a quem redargiu nestes termos:
- O senhor ainda est muito moo. Com os anos ho de passar esses
verdores do nimo exaltado; e ento aprender por experincia que
se no sacrificam cousas de mor ponderao a melindres e enfados do
nimo por demais suscetvel.
- A idade h de quebrar-me as foras do corpo e do esprito, que tal 
nossa humana condio; mas esta iseno que Vossa Senhoria
apelida melindres nasci com ela e com ela morrerei.
- Quer um conselho de amigo? tornou Sebastio de Castro com um
modo insinuante. Faa a vontade  sua sogra; v para a companhia
de seus parentes, e fio-lhe eu que se no arrepender.
- Esse alvitre  impossvel; e por estar disso bem convencido foi que
resolvi buscar a interveno de Vossa Senhoria.
Fechou-se ento de todo o fidalgo:
- Como governador desta capitania, encarregado de prover s
necessidades da Repblica, veda-me o meu regimento intrometer-me
no sagrado da famlia, retrucou Sebastio de Castro.
- Neste caso no devia o senhor governador ter trazido as cousas ao
ponto a que chegaram.
- Naquela ocasio o vosso casamento resolvia graves dificuldades, e
acabava com uma rixa, que turbados como andavam os nimos, podia
ser o facho da guerra civil; estava pois na minha alada, pois que da
dependia a paz da capitania. Agora no  assim; realizou-se a aliana,
e s do senhor depende mant-la.
121
- Todavia, esta semana passada, certo rapaz que desinquietara uma
rapariga l para Santo Amaro, foi obrigado a casar por ordem de
Vossa Senhoria.
- No h tal. Seria por ordem do meu ajudante, e sem conhecimento
meu.
Tinha Sebastio de Castro esta balda de lanar  conta dos
subalternos a culpa dos atos que praticava, quando sobre eles cala a
censura. Por este modo arranjava para si o cmodo rojo do rei
constitucional, que no pode errar; mas pouco lhe valeu isso contra
os ataques dos olindenses e mais tarde contra o achincalhe dos
mascates.
Apesar do que dizia o discreto Secretrio Barbosa de Lima, e do que
trovejava o farfalhudo Ajudante Negreiros, era corrente que no se
movia uma palha na governao da capitania sem licena de
Sebastio de Castro, o qual entendia com tudo, at com a rao da
tropa e o b-a-b dos meninos na escola.
De volta de palcio, passou Vital por casa de Carlos de Enia, para
contar-lhe o malogro que ele em grande parte imputava ao amigo por
hav-lo animado a esse passo, longe de o dissuadir.
- Disso que sucede agora, te preveni h tempos, mas no me quiseste
crer.
- Entretanto ainda ontem me prometias que alguma cousa eu obteria
de ir ao governador, replicou Vital surpreso.
- E avalias em pouco a lio que recebeste? Depois do que ouviste em
palcio, j no duvidars que Sebastio de Castro quando arranjou o
teu casamento com Leonor, s teve em mira quebrar-te o orgulho,
amarrando-te ao cepo de humilhao que te preparavam os parentes
de tua mulher; porque tem como certo, que essa conspirao de
alcova  obra insigne de nosso homem.
- Presumes isso? exclamou Vital tomado de igual suspeita.
- Ex ungula leonem; pela trama conheo a aranha que teceu a rede.
Ele deu o fio e o teu bom amigo o urdiu com a sua consumada percia.
- Disso tenho certeza, ainda que no posso atinar com o interesse que
pudesse ter ele em magoar-me.
- O de agradar ao governador, ao passo que te privava de um bem de
que ele no podia gozar; queres incentivo maior do que esse da
ambio abraada com a inveja?
Vital calou-se, tomado do tdio que lhe inspiravam estes manejos, e
Carlos de Enia continuou:
- Se aceitasses com a precisa coragem a prova a que Sebastio de
Castro submeteu a tua docilidade, ficava teu amigo, e no tardaria
muito que atirasse fora o ajudante como um sapato acalcanhado para
calar-te ao p. Como porm te mostraste exaltado, intolerante, sem
122
traquejo e at malcriado, podes contar que doravante ests no ndex
expurgatrio.
Desde ento Vital Rebelo no contou seno consigo, e buscou modo
de falar a Leonor para concertar nos meios de tir-la da casa de
Andr de Figueiredo, onde se achava guardada com a maior
vigilncia.
Ao recordar os acontecimentos da noite fatal de suas bodas, doa ao
mancebo no fundo d'alma a fraqueza com que se houvera Leonor.
Supunha-se querido com mais ardente afeto, desse que faz as
heroinas do amor. Esperava, porm, que a donzela, livre da sujeio
em que a trazia a me, havia de ser a esposa carinhosa e terna que
ele sonhara.
Uma tarde, Leonor, aproveitando um instante de liberdade, saiu 
cerca e estava a cismar  sombra do arvoredo, quando apareceu-lhe
de repente Vital Rebelo que ajoelhou a seus ps.
Como se ante ela houvera surgido um espectro, a msera donzela
espavorida e fora de si deitou a correr para a casa, sem dar tempo a
que lhe dissesse o marido uma palavra.
O abalo que sentiu Vital escureceu-lhe a vista; arrimou-se ele ao
tronco de uma rvore e permaneceu imvel o espao de muitas
horas, a ver se vinha algum que o acabasse ali onde se acabara a
sua esperana. Quando dai tornou, era no seu pensar um vivo; e
desde esse dia trouxe luto por seu amor. que se finara.
Ignorava que Andr de Figueiredo, j de volta a Olinda, protestara a
Leonor mat-lo, a ele Vital Rebelo,  sua vista, se ela tivesse a
infelicidade de dirigir-lhe uma palavra ou consentir que ele se lhe
aproximasse.
Esta ameaa que no lhe saa da mente, obrigara-a a repelir com
horror o nico bem que lhe haviam deixado, a doce esperana de
rever o marido. Assim que, no momento de avist-lo depois de to
longa ausncia, o que a dominou foi a idia atroz de que sucumbisse
aos golpes traioeiros.
Correram os meses e completou-se um ano depois do casamento de
Vital Rebelo; durante esse perodo, em vez de se disporem as causas
para uma soluo favorvel, ao contrrio mais se baralhavam com as
complicaes polticas e as animosidades entre os nobres e os
mascates.
No era Rebelo e nunca fora dos empenhados na luta, porque cedo
aprendera a desgostar-se dos partidos que so uma amlgama de
toda a casta de gente e de paixo. Mas no obstante carregava para
os nobres com a culpa dos mercadores, a quem no quisera renegar.
Por esse tempo foi que veio  noticia do mancebo um aviso de terem
os Holandas mandado a Roma impetrar do Papa um breve de
anulao do seu casamento.
123
O pensamento cruel de que Leonor livre podia pertencer a outro
venceu o ressentimento de Vital. Voltou a Olinda, onde no fora desde
oito meses, e achou nos grandes olhos castanhos de Leonor a mesma
ternura de outrora, ainda que tocada de uma sombra merencria das
saudades to longamente curtidas.
Tornou uma e mais vezes, e se nem sempre era to feliz que
encontrasse Leonor  janela, ou a visse de longe na cerca, com uma
troca de sinais rpidos e quase imperceptveis chegaram os dois
namorados esposos a combinar a entrega do bilhete em que Vital
pedia a entrevista.
Andr de Figueiredo soubera das vindas de Vital Rebelo a Olinda; mas
o Capito-Mor Joo Cavalcanti, apesar do que havia ocorrido, proibira
que se tirassem razes com o marido de sua sobrinha, que seu
sobrinho era, salvo se ele formalmente as provocasse.
Por isso o capito. roendo o freio com impacincia, redobrava de
vigilncia  espreita do momento da desforra da vingana.
CAPTULO VII
D. SEVERA ACOMPANHADA DE SEU PAJEM PROPE-SE PELA
PRIMEIRA VEZ A REPARAR UM TORTO DONDE IA SAINDO UMA TORTA
 tempo de voltarmos  entrevista em que deixamos Vital Rebelo na
casa do trem.
O riso escarninho e a voz que ameaara, bem os reconheceu o
alferes, e compreendendo o passo arriscado em que se achava,
cuidou em defender a vida, ou vend-la caro aos inimigos.
Houve um momento de silncio to profundo, como era a treva que
enchia o vasto armazm; mas com pouco rangeram os gonzos de
uma porta, e apareceram dois escravos com tocheiros acesos.
O seu bao claro que derramou-se pelo aposento mostrou a Vital o
Capito Andr de Figueiredo  frente de seis sequazes armados, com
as espadas desembainhadas e prontos a atac-lo ao primeiro sinal.
O mancebo mal teve tempo de reclinar sobre um velho ba que lia via
ali perto, encostado  parede, o corpo desmaiado de sua querida
Leonor, e cair em guarda contra as seis catanas que o assaltavam.
Andr de Figueiredo, de parte, com as mos apoiadas na cruz da
espada que fincara no cho, assistia ao combate imvel; mas via-selhe
no semblante a violncia que fazia sobre si em conter os mpetos
de seu gnio arrebatado.
- Bem vejo que isto  uma emboscada, disse Vital Rebelo com
desprezo, defendendo-se galhardamente. Eu sabia que os fidalgos de
124
Olinda eram peritos em arm-las, desde os tempos dos judeus
holandeses, seus ilustres antepassados; mas os daquele tempo
usavam pelejar nelas, e no se resguardavam como os de agora.
A lmina da espada de Andr de Figueiredo vibrou com o estremeo
que lhe imprimiram as mos convulsas, mas ainda pde o capito
dominar este assomo, com a idia de humilhar seu inimigo pelo
desprezo.
- Estais enganado; isto no  emboscada, mas obra de justia; 
execuo que se costuma fazer em ru de morte, respondeu entre um
riso de mofa.
Com um corrupio da espada fez Rebelo recuar os assaltantes, alguns
dos quais j tinham no corpo a marca do ferro; e aproveitou da
aberta para replicar ao capito:
- Ah!  obra de justia? Mas parece que o carrasco no sai do ofcio,
pois est a feito um estafermo em vez de manejar o seu cutelo.
- No quero manchar a minha espada de cavalheiro; hs de morrer 
mo de tua laia, tornou o capito com gesto de asco.
- Tem razo o nobre fidalgo; s esqueceu um ponto e  que para
dizer destas cousas, se precisa de ter a espada mais comprida do que
a lngua, seno...
Neste ponto, operou-se tal mutao da cena, que no  possvel
descrev-la sem cortar o fio  palavra de Vital.
Desde o primeiro assalto, curando o mancebo de tomar a melhor
posio para a defesa, aproximou-se de um grande armrio
encostado ao fundo do aposento, cerca do qual havia algumas arcas e
canastras espalhadas pelo pavimento.
Assim, tendo as costas guardadas de qualquer surpresa com as
canastras, que ia arranjando a mo esquerda enquanto a direita
combatia, fez ele uma espcie de trincheira que lhe resguardava meio
corpo; e sobre ela debruava-se para atirar o bote certeiro da sua
espada a algum dos sequazes menos prontos em recuar.
Quando Andr de Figueiredo lanou-lhe o ltimo insulto, ao rechalo,
mediu o mancebo com o olhar a distncia que o separava do
inimigo, e quase to rpido como esse olhar, saltou em cima de uma
das arcas, dela em outra mais alta, e arremessando-se com pasmosa
agilidade, veio cair em face do capito, antes de aperceber-se este do
que se havia passado.
Tudo isto porm sucedeu com tamanha velocidade, que foi apenas
uma reticncia na resposta de Vital.
- Seno, acabou ele, corre-se o risco de sofrer logo em cima da
palavra a correo de sua insolncia.
Soaram estas palavras ao mesmo tempo que a lmina da espada de
Vital, batendo de chapa no ombro do capito. Era  face que a
125
destinara o impetuoso mancebo aceso em ira; mas seu valente
adversrio, apesar do repente, logrou desviar-se a tempo.
Alm de mais pronto e destro, tinha Rebelo nesse momento sobre o
capito a superioridade do enleio em que o pusera a sua investida. E
foi aproveitando-se dessa vantagem que de um revs da espada ele
desarmou o adversrio e prostrando-o, calcou-lhe o p sobre o peito,
em ao de traspassar-lhe a gorja.
Atalhou-o porm um grito de angstia.
Leonor, que pouco antes cobrara os espritos, mas ainda no torpor do
deIquio, via, sem compreender, aqueles vultos a agitarem-se ao
claro bao das tochas, de sbito recordou-se do lance em que se
achava, ao encarar o vulto ameaador do seu marido prestes a
desfechar em Andr de Figueiredo o golpe mortal.
O sangue de seu tio, do irmo de sua me e que lhe fazia as vezes de
pai; esse sangue derramado pela mo do marido, era a separao
eterna, e mais do que isso, a morte de seu amor, que ela j no
poderia sentir, embora apartada, pelo homem que lanasse o luto no
seio de sua famlia.
Esta idia horrvel perpassou como um relmpago o nimo da
donzela, que arrojou-se para deter o brao de Vital; mas faltando-lhe
as foras ao impulso, caiu ali mesmo de joelhos, estalando-lhe a alma
no grito da aflio.
Voltou-se Vital; vendo sua mulher, com os cabelos em desordem, os
olhos alucinados e o semblante convulso, adivinhou o pensamento
que a espavoria. Poupar a vida ao inimigo naquela conjuntura, era
entregar-lhe a sua; mas de que lhe servia esta, se cavasse um
abismo de dio entre ele e Leonor?
Um instante no hesitou. Ergueu a ponta da espada, e recuou
deixando o capito livre e escapo da morte.
Os seis sequazes, que atacavam Rebelo, ficaram a princpio atnitos
com o desaparecimento do mancebo, que alguns deles julgaram ter
cado por detrs das canastras. Outros porm que haviam
confusamente entrevisto o salto, cuidaram que fora um mpeto de
fuga.
Quando afinal descobriram o aperto em que se achava Andr de
Figueiredo e corriam a acudi-lo, esbarraram-se com Rebelo que j de
volta buscava a primeira posio. No a pde alcanar, que os
espoletas lhe cortavam a retirada, colocando-o dessa arte em um
passo difcil, pois atacado em nmero to desigual pela frente, ia s-lo
de costas pelo capito.
 tmpera d'alma sucede o mesmo que  tmpera do ao; em sendo
boa, quanto mais se lhe calca, mais forte ela brande. Com tamanha
afouteza investiu Rebelo a troa, que abriu caminho atravs; e
recuperou o primeiro posto junto ao armrio.
126
A este tempo erguera-se Andr de Figueiredo; com a sanha de um
tigre correu ao combate.
- Arredem-se, que este vilo me pertence; no quero que lhe toquem,
pois ainda  pequeno para me fartar de cort-lo.
Rebelo no respondeu  bravata, seno com um sorriso de desprezo.
Tolhido como estava de matar este homem, e com a sada embargada
pelas grossas portas de jacarand, o alferes reputava-se perdido; pois
afinal se lhe esgotariam as foras e seria obrigado a traspassar-se
com a prpria espada, para se no render ao inimigo.
Todavia no o abandonara ainda a confiana que tinha na afouteza de
seu nimo, como na fora de seu brao. Empenhando o combate com
o capito, ele concentrou-se para dividir a ateno entre o manejo da
espada e a pesquisa de algum meio de salvao.
Por diversas vezes se precipitara Leonor para implorar o tio em favor
do marido; mas a um aceno de Andr de Figueiredo, um dos sequazes
conduzira a donzela a seu mau grado para o outro extremo do
aposento, colocando-se por diante para tirar-lhe a vista do combate.
Entretanto este prosseguia, sanhudo e furioso da parte de Andr de
Figueiredo, sereno e atento da parte de Rebelo, que, pronto em parar
os golpes, mas desdenhando as abertas que lhe oferecia a
imprudncia do inimigo, no cessava de perscrutar os recantos do
aposento.
Tinha este duas portas, uma de sada exterior, por onde havia entrado
o mancebo; outra de comunicao interior; por onde viera D. Leonor.
Ambas estavam fechadas  chave, com trancas atravessadas; e eram
champres de lei impossveis de arrombar. Por esse lado, pois, no
havia esperana de escapula; menos por outro qualquer, pois no se
via nas paredes, e nem mesmo no teto, qualquer fresta ou buraco por
onde pudesse passar um homem, ainda que ele tivesse o privilgio da
enguia.
Nesta estreiteza, em que o nimo de Vital j se repartia por tantos
cuidados, o da sua Leonor a lamentar-se do outro lado, o da guarda a
que o obrigavam os amiudados golpes do capito, e o da busca de um
meio de salvao, ainda assim lhe no escaparam os movimentos dos
cinco sequazes, que apuridavam-se conchegados entre si e apartados
a um canto.
Sussurrou ao ouvido sutil do mancebo a palavra mosquete, e com ela
uns rudos significativos, que lembravam o tinir da vareta no cano de
uma arma de fogo. Se lhe restasse dvida, certos movimentos de um
brao meio oculto pelo grupo lhe denunciariam a obra em que se
mostravam to empenhados os sujeitos.
O quer que era estava pronto, pois voltando-se continuaram os
marotos a assistir ao combate como simples espectadores; mas notou
Vital que o quinto ficara atrs dos outros, e que no ombro do
127
primeiro, mais  frente, aparecia um culo negro que lhe estava
olhando o peito.
No nimo do mancebo surgiu uma idia: saltear de repente a Andr
de Figueiredo forando-o a recuar por modo que se interpusesse 
mira do mosquete, com o que no s o faria de escudo contra o tiro,
mas livrava-se do inimigo sem o ferir nem tocar, sendo menos difcil
ento acabar com os outros.
Mas em todo o caso no lhe imputariam a ele s a morte do capito, e
com ela no se levantaria um tmulo para separ-lo de sua Leonor?
Quando ele cogitava nesta dvida, de chofre bateu o co do
mosquete, e ao disparar-se o tiro, ouviu-se grande estrondo, maior do
que se devera esperar da exploso da arma, ficando o aposento
sepultado nas trevas.
Para explicao deste acidente, que vinha complicar o caso,
carecemos de ir em busca da cavalheiresca D. Severa.
Tinha-se a dona recolhido  sua cmera, e achava-se ento
justamente em vestes de ninfa, com a insignificante diferena de uma
angua em vez da faixa clssica. Acabara de ler, como costumava,
um capitulo do Palmeirim, e repassava na fantasia as aventuras do
cavalheiro da fortuna.
Nisto ouviu grande rumor no pavimento trreo, e sobre curiosa,
inquieta, vestiu as pressas uma cabaia amarela com que saiu fora a
inquiries, levando a candeia na mo.
Se a visse naquele instante, com a capa de seda que na ausncia das
anqunhas se lhe pregava ao corpo como um estojo amarelo do qual
saam os dois joelhos que serviam de castes aos canios das pernas,
abandonaria com certeza o inspirado Lisardo a comparao da rosa, e
buscaria no seu armazm potico outra imagem mais apropriada; por
exemplo a flor da abbora, ainda que esta naquele tempo no tinha
entrada no Parnaso.
O corredor estava tranqilo; pelo que animou-se a ninfa a chegar ao
topo da escada por onde vinha o rumor.
- Quem esta a? perguntou com desplante, ouvindo passos.
A pessoa que era galgou aos saltos a escada; e D. Severa reconheceu
o Nuno, seu pajem desde a vspera.
- Acuda, senhora D. Severa, que seno acabam de matar o Vital
Rebelo!
- Pois ele est aqui?
- Na casa do trem. No ouve? Estava a falar com a mulher, a D.
Leonor, quando o Sr. Capito Andr de Figueiredo, que se pusera de
espreita com os seus homens, deu sobre ele, e l andam aos botes de
portas fechadas.
- Leonor?
128
- Tambm l est encerrada, que lhe ouvi as aflies, uma vez, no
meio do barulho.
- Coitada!
- E o Rebelo, senhora, que gentil cavalheiro! Sete contra um! Ele s 
homem para fazer frente a todos, mas era preciso que estivesse em
campo raso. Assim de emboscada, com certeza o acabam.
- No h de acontecer essa desgraa.
- Se j no aconteceu agora mesmo que lhe falo. A senhora consente
que se mate a traio, aqui dentro da sua casa, a seu sobrinho,
porque ele o ?
Estava precisamente a D. Severa pensando que era aquele um dos
casos em que uma dama, segundo as regras da cavalaria andante,
devia intervir em favor do oprimido; pelo que tomando a generosa
resoluo, disse para o Nuno, com o tom senhoril de uma castel:
- Ide armar-vos, pajem, enquanto me adereo para amparar nossa
formosa sobrinha e salvar-lhe o esposo.
- Mas, senhora; se perdeis um momento, chegaremos tarde.
- Quereis que me apresente neste desalinho, acudiu D. Severa
pudicamente; e vs sem armas, que ajuda podereis dar?
S ento reparou Nuno no fresco atavio de ninfa em que se achava D.
Severa; e pronto a replicar acerca da sua armadura da vspera que o
esperava embaixo, no achou argumento contra a necessidade que
tinha a dama, de um traje mais avaro de seus encantos serdios.
Fora foi ao moo, resignar-se durante meia hora em que, rodo pela
impacincia, descera dez vezes a escada para escutar  porta do
armazm, e dez vezes subira para espiar no camarim da dama se ela
acabara de adornar-se.
Afinal saiu D. Severa em grande paramento, de anquinhas, cauda,
trunfa, pluma e leque, pois no dispensava em ocasies solenes
nenhum desses atavios fidalgos. Podia o marido de Leonor ter morrido
vinte vezes no tempo despendido com esse adereo; mas ela  que
no podia derrogar nos seus deveres de dama da primeira nobreza
pernambucana.
Desceu a senhora com um andar pomposo ao rs-do-cho, onde o
Nuno enfiou apressado a couraa e a cervilheira que deixara ao p da
escada para mais ligeiro correr acima e abaixo.
Depois que o pajem bateu debalde uma e muitas vezes na porta do
armazm, lembrou-se D. Severa que do outro lado havia uma janela,
por onde mais facilmente poderiam penetrar.
Deram volta, e  sumida luz da candeia, que o vento aoutava,
acharam sem mais demora o que procuravam.
Precisamente nessa ocasio, Vital atento ao mosquete prestes a
disparar, desviara-se para o lado esquerdo do armrio, a fim de no
momento dado abrigar-se com a quina do mvel.
129
Feriu-lhe o ouvido o ceceio das vozes de D. Severa e seu pajem que
avisavam no modo de penetrarem no aposento. Notando que esse
murmrio saa da fresta que ficava entre o armrio e a parede,
adivinhou o mancebo a existncia de um vo de janela ou porta
naquele ponto. Com um olhar calculou a posio de seus adversrios,
a distncia em que se achavam os to cheiros, e traou um plano.
Ao disparar o mosquete, arrojou-se ele ao canto do armrio, e
metendo o brao entre o fundo e a parede, empurrou com tal fora o
pesado traste que este despenhou-se no cho, causando um
temeroso estrondo e apagando as tochas com a violenta deslocao
do ar.
Aproveitando-se da escurido, o. intrpido mancebo encontrou s
apalpadelas a janela; cuja aldraba facilmente abriu. Com o baque do
armrio, D. Severa soltara a candeia, ficando o corredor s escuras;
mas percebia-se no fundo uma nesga. de cu.
Por ali desapareceu Vital.
Ao saltar a janela, encontrou resistncia que logo cedeu, e ouviu um
grito; mal suspeitava que duma peitada tinham virado de
cambalhotas,. um sobre o outro, a respeitvel D. Severa e seu pajem.
Mas o pior foi que, nesse rolo, a ponta do chifarote de Nuno ia
vazando o olho direito da dama, que nessa ocasio provou a.
vantagem de possuir um sofrvel nariz.
CAPTULO VIII
UMA AMOSTRA DA GERINGONA POLTICA DE NOSSOS AVS
Pouco faltava para soarem trindades na torre da Madre de Deus.
Era um sbado, 15 de outubro, e portanto dois dias depois da
aventura de Vital Rebelo em Olinda.
Havia essa tarde o ajuntamento do costume na calada do mercador
Viana, que morava como j se sabe  Rua da Moeda, para as bandas
do Forte de Matos.
Aos dois e trs iam chegando os principais da mascataria, e outros
que no tinham voz ativa, mas serviam para fazer nmero.
Percebia-se que era de ponderao o negcio, no s pela maior
companhia, como pela preocupao que se mostrava em todos os
semblantes.
Junto a uma das janelas estava sentado o Viana, pai do nosso Nuno, e
com quem ainda no tivemos ocasio de avistar-nos.
Era uma formidvel amostra de homem, com sofrvel estampa, e uma
dessas caras sedias, ornadas do clssico passa-piolho, como se
130
encontram a cada volta entre os nossos irmos de alm-mar, e que
so vulgarmente conhecidas caras de mestre de barco.
No mais, boa pessoa, um tanto pachorrento e descansado na voz
como nos gostos; marroaz, amigo da chelpa que para ele fora sempre
a melhor poltica, o Sr. Miguel Viana passava entre os amigos no fsico
e no moral por um perfeito p.de-boi.
Incomodara ao mercador a peraltice do Nuno que j ele sabia estar
metido com os nobres em Olinda; mas devemos confessar que o
desgosto do pai com a marotice do filho no foi to grande quanto a
mofina do patro, por ver-se de repente sem caixeiro na loja.
 medida que vinham chegando os parceiros, erguia-se o mercador
para os saudar, e tambm para alcanar dentro da casa os
tamboretes que oferecia aos recm-chegados, os quais se iam
abancando em roda.
A parte feminina da famlia entrava para a sala, onde estava a
Senhora Rosaura para as receber com mil requebros em que nestas
ocasies se desfazia o seu corpo rechonchudo com srio risco de sua
respeitvel trunfa.
J havia chegado com sua cara-metade e a menina Marta o digno
almotac, o Sr. Simo Ribas, que estava abancado  direita do Viana,
e nesse momento apontara na esquina o importante almoxarife,
Domingos da Costa Arajo, que se aproximou com um andar grave e
enftico.
Era o Costa Arajo um dos luminares da mascataria e sem
contestao o mais bem falante. Em arranjar um vistoso ramalhete de
bonitas frases, ningum levava-lhe a palma. No mais no se cansava;
toda a cincia dos negcios, cifrava-a em ter por si o homem,
fazendo-lhe como aos meninos se costuma as pequenas vontades.
Quando moo, tinha ele tomado ao srio essa nigromancia apelidada
poltica, e prodigalizara grande soma de talento, de entusiasmo e de
atividade, na defesa dos povos contra a prepotncia dos
governadores. Fora um dos precursores da democracia brasileira, que
um sculo depois devia suscitar o Martins, o Miguelinho e outros
mrtires pernambucanos.
Nesse fervor dos anos escrevera uma filpica, no gnero de
Demstenes, contra a raa bragantina, o que lhe valeu a ira dos
adversrios, e o receio dos amigos que temiam-lhe o contgio.
Recebeu a lio e aproveitou-a. Conheceu que os povos, por quem se
havia sacrificado, eram animais domsticos:  liberdade preferem o
quente aprisco onde os reis os pem  ceva.
Desde ento mudou de rumo; passou a. viver nos melhores termos
com os governadores, que tinham em grande conta os seus
conselhos; pelo que o proveram no cargo de almoxarife, alm de
outras mercs. Rosnavam os invejosos de um ato de contrio feito a
131
D. Sebastio de Castro. Vinha o boato da mordacidade de um dos tais
amigos, que se valem da intimidade para melhor beliscarem: so
como os gorgulhos que se metem dentro do gro para lhe roerem a
flor.
No fsico, no fora a natureza to liberal com o Costa Arajo como no
moral; mas sabia ele dar  sua quadratura um tom apresentvel. Se
neste sculo de espiritistas em que se tiram fotografias s almas do
outro mundo houvesse curioso que se lembrasse de pintar a estampa
de alguma figura de retrica das mais bochechudas, como por
exemplo a prosopia, teramos o retrato ao vivo do nosso pomposo
almoxarife.
A seu lado o Simo Ribas fazia as vezes de um solecismo junto de
uma orao de Ccero; e todavia no tinha o almotac menos
engenho que ele, avantajando-se-lhe assaz na cpia dos
conhecimentos que havia colhido nas vrias provncias literrias; pois
era de muito e constante labor, to versado nos livros quo pouco nos
homens.
Tomou o Costa Arajo assento  esquerda do Viana, e depois das
urbanidades usuais e de uma anedota contada pelo almoxarife, que
apreciava esse acepipe literrio, assoou-se o almotac e temperou a
garganta para abrir a conferncia:
- Sabem os amigos e companheiros que se est seliamente cuidando
no suplemo da cliao da nossa vila do Lecife; mas alguns senholes
andam inquietos com a demola e ento quiselam que se fizesse uma
junta para se avisal no que mais convm e conceltal os meios de
aplessal o nosso tliunfo.  pol isso que estamos aqui, cada um dos
senholes melcadoles dil seu palecei; o meu  que devemos confial no
suplemo e espelai que a alta sabedolia da govelnao do Estado
ploveja como entendel, que h de sel semple pelo melhol.
Compreenderam os circunstantes o sentido da arenga, pois alm de
muito habituados ao lambdacismo do Simo Ribas, sabiam que
supremo era uma expresso mstica para designar o governador,
tendo ele por mngua de respeito indic-lo nominalmente.
Seguiu-se uma pausa formada pela hesitao daqueles que
desejavam tambm dar sua colherada, mas tolhia-os o enleio. Um
desses era o marreco do Capito Miguel Correia Gomes que trazia
decorado um farelrio do Padre Joo da Costa, com a inteno de
impingi-lo  assemblia, mas agora suava como um caldeiro a
ferver.
Havia chegado momentos antes o Vital Rebelo, que apeara-se do
cavalo e recostado ao selim ouvira a fala do almotac. Percebia-se no
seu gesto a indiferena que lhe inspiravam essas assemblias, onde
se burlava a sinceridade de muitos em proveito da ambio ou
comodismo de alguns.
132
- Como seja lcito a cada um dar seu voto por mais desencontrado
que parea, direi eu o que penso. Esta vila do Recife vai fazer em
novembro um ano que El-Rei a criou; e pois que o governador por ele
mandado a esta capitania tem deixado de cumprir a carta rgia,
mostrando-se rebelde, nosso dever de fiis vassalos  obrig-lo 
obedincia que deve a seu prncipe e senhor; e sendo preciso,
erigirmos ns, os povos em conselho, o padro da vila. Se estais por
isso, contai comigo; mas das negaas em que andais s voltas com o
governador, no entendo, nem quero saber.
O venerando almotac, que tinha por costume ir todas as tardes ao
benedicite em palcio, e que no punha taxa, nem julgava com uma,
sem levar antes a D. Sebastio de Castro um rascunho para receber a
correo do mestre, azoou com aquela inslita linguagem, e apuridou
ao Viana que ficara impassvel, resguardado como estava contra esses
sobressaltos pela espessa crosta de sua pachorra.
O almoxarife, porm, que viu retratada a sua petulncia de outrora
naquela iseno do mancebo, sorriu-se de um modo significativo, e
pensou consigo como aos cinqenta anos se no havia de espantar o
Rebelo de seus arrebatamentos juvenis.
Nisso  que se enganava o Costa Arajo. Homens h, e ele era um,
em quem o desengano gera o cepticismo. Em outros, porm, a f 
to profunda e to de raiz que no h extirp-la; no podendo
arranc-la, o que fazem a ingratido e deslealdade  que,  fora de a
abalarem, deixam ali uma chaga que se est magoando a cada
instante contra as misrias do mundo. Era deste cadinho a alma de
Vital.
- Aquilo  despeito! rosnou o Padre Joo da Costa.
- Como o governador no o fez capito! ... acrescentou o Miguel
Correia , enfunado da sua gineta.
Tomou ento a palavra o Doutor Antnio de Sousa Magalhes, que foi
um dos letrados de maiores crditos entre os mascates. Era meo de
corpo e estatura. No tinha fisionomia, mas uma cara insossa e
desbotada sem a menor expresso. S num trao reparava-se: era
nos olhos pequenos, por causa das plpebras sem pestanas e
debruadas de vermelho que pareciam casas de botes.
Nos primeiros tempos dizia o Magalhes que o seu lote neste mundo o
queria em ouro. Com a experincia, porm, foi aprendendo que o
ouro  precioso sobretudo pela ductilidade, e conheceu quanto ele se
prestava a todos os misteres,  cobia,  ambio e at  beatice.
Era o nosso advogado um dos que mirravam-se com o desejo de
pilharem um lugar na secretaria do governador, mas como a sombra
fugia-lhe, inculcava-se de impossvel, e no perdia ensejo de rufar a
sua abnegao.
133
Foi insigne beato. Ouvia missa com exemplar devoo, e rezava todo
o ofcio da Semana Santa ajoelhado, de ripano em punho; at fazia
novenas e teros em casa. Mas a sua carolice no se reduzia a essa
parte asctica; freqentava o refeitrio da Madre de Deus nos dias da
peixada e apreciava as moquecas e pasteles que lhe mandavam de
mimo em salvas de prata os padres Mendicantes do Serfico So
Francisco.
Passou o Dr. Magalhes por grande retrico, e poucos no seu tempo
tiveram tanto jeito para engordar essa simpleza do vulgacho, que
hoje em dia se decora com o pomposo nome de opinio pblica e que
melhor se chamaria de pasmaceira pblica.
O que distinguia especialmente a facndia do nosso homem era a
entonao com que ele pronunciava as palavras. Essa espcie de
eloqncia retumbante tem sido cultivada por outros, mas ningum
ainda levou-lhe a palma. Darei aqui um exemplo de sua fora nesse
gnero.
Em uma das arengas que ele freqentemente fazia nas rodas dos
mascates contra os nobres de Olinda, querendo pint-los sob uma
face odiosa que produzisse impresso no auditrio, exclamou: Vivem
atolados no piro, na rapadura e na cachaa.
Um seu mulo diria esse rasgo com uma voz estentria capaz de
estremecer os alicerces; outros lhe dariam inflexes enfticas; mas
nenhum era capaz de a pronunciar como o Magalhes, percorrendo
trs escalas cromticas desde a primeira nota do tiple at a ltima do
baixo profundo.
A frase, comeada no nariz, descia-lhe pela garganta aos burburinhos
e ia roncar nas profundezas do ventre. Assim, quem o ouvia falar
conhecia logo que o homem no s tinha grande papo, embora
invisvel, como que era insigne ventrloquo.
Quando o Dr. Magalhes e o Padre Joo da Costa se encontraram pela
primeira vez, sentiram-se mutuamente atrados por uma simpatia
irresistvel. Agora achavam-se estremecidos; e dizia o reverendo que
muito breve haviam de ver o advogado ao servio do Filipe Uchoa e
da gente de Olinda.
Para rebater o alvitre do Rebelo, desfiou o Magalhes uma longa
perlenga, cheia dos costumados borborigmos, e arrebicada de uns
revirados de olhos com que ele pretendia dar  feio insulsa umas
borradelas de ironia. Ao cabo, passada toda essa loqela por um
cantil, no ficava seno o bagao do que havia dito o Simo Ribas.
Assim o venerando almotac aplaudiu; o Viana remexeu os ombros, o
que nele era sinal de grande comoo, e o Costa Arajo fez com a
cabea um gesto gongrico de aprovao.
Aqui terminou a junta, com o maior desprazer do Miguel Correia que
foi obrigado a embuchar a perlenga, e do Campelo que no sofria lhe
134
disputassem a glria de incensar o governador, cujo panegrico j
tinha escrito, bem longe de pensar que teria de cantar-lhe a palindia.
Vital Rebelo fora-se, e com ele a maior parte dos que tinham acudido
ao convite. Nada se resolvera, mas era esse precisamente, e no
outro, o fim da junta que se fizera para acalentar as impacincias de
alguns sfregos e exagerados. Falara o almotac que todos sabiam da
privana de D. Sebastio; e os mais exigentes voltavam satisfeitos.
Reduzida a roda aos ntimos, tornou-se geral a palestra, travando-se
os colquios a trecho.
- Eu c, disse o Campelo, do governador no suspeito, no; mas o
Barbosa de Lima no  homem em quem se possa a gente fiar.
- E o tal ajudante, que me tem cara de coveiro? E com certeza o ,
que ainda se no meteu em empresa que a no desandasse, acudiu o
Brs da Silva.
- Est muito atrasado o Campelo! acudiu o Padre Joo da Costa a rir.
Pois o Barbosa de Lima  o que D. Sebastio quiser; que o seu grande
talento  este de ser todos, menos ele prprio, que nunca o soube,
nem pde.
-  a pura verdade, acudiu o Miguel Correia, que tinha por devoo
apoiar o seu confessor e amigo.
- E seno vejam, continuou o reverendo: o que disse o Padre Leito
domingo passado quando pregou na festa de N. Senhora do Rosrio?
- O que foi ento? perguntou o Seara.
- Que o secretrio to fcil qual Lucano se encarecia, como qual
Proteu se fingia e transformava.
Parece que deu-lhe no goto ao Padre Antnio Gonalves Leito a
frase, pois ela se encontra textualmente na histria da Guerra dos
Mascates quando fala do Capito Barbosa de Lima, querendo aludir ao
ouro dos mascates de que a inveja e a maledicncia o diziam cosido,
bem como  versatilidade de gnio.
 achaque este de todos os tempos, que so os amigos quem
primeiro e com maior empenho se incumbem de dar voga aos aleives
e epigramas dos contrrios. Assim, no trazia o Cosme Borralho, de
Olinda, nenhum desaforo contra este ou aquele dos mascates, para o
insinuar  esconsa no ouvido de alguns dos seus fregueses, que 
noite no tivesse corrido todo o Recife.
Interviera no dilogo o Zacarias de Brito:
- Pois para mim, o Capito Barbosa de Lima  homem de muito
conceito que vale o seu peso, e no s para mim como para todo o
Recite.
- Ningum diz o contrrio, observou o Campelo, ressalvando em
tempo o destempero da lngua.
- Por certo. Quem o nega? acudiu o Miguel Correia.
135
- Esses mexericos que por a andam, donde vm seno da raiva que
tm os de Olinda de o haver perdido, sem contar a inveja de outros
que no podem sofrer as suas boas partes?
Este Senhor Zacarias de Brito, seja aqui dito entre parnteses, queria
ser contratador do sal, boa fatia que esperava arranjar.
No havia naquele tempo a maquia dos agenciamentos de voluntrios
e privilgios lucrativos, com que os ajudantes de um governadorfilsofo
recompensassem os obsquios do amigo, as carcias de
alguma bela dama, e a pacincia dos camaradas impertinentes; mas
j ento existiam os estancos e monoplios com que se esfomeava o
povo para enricar aos mimosos da terra.
Nenhum dos circunstantes fizera reparo em uma velha de mantilha,
que desde o comeo da palestra levara a passar pela frente da casa
do Viana, quando no se escondia no canto do outo. Embora no
tivesse a conferncia cousa de comprometer, tanto que a faziam na
calada, todavia se percebessem o manejo da sujeita,  de crer que
no consentiriam nessa bisbilhotagem.
Cansada de espreitar, a velha deitou-se a trote mido para as bandas
do Corpo Santo e foi ter a uma rtula, onde aparecia a mais
emaranhada grenha que j lastrou em cabea de mulher. A dona
deste cipoal mal se podia conter  gelosia; pois lhe estavam saindo a
lngua e as melenas pelas grades e o corpo pela adufa.
- Deus me perdoe! Querem ver que foi esta excomungada que se
alambazou com a minha mantilha! Ladra do inferno! Espera que eu te
ensino!
Proferindo esta praga, a sujeita que deitara os gadanhos ao pescoo
da velha puxou-a para dentro onde, com espanto seu, desembrulhouse
da mantilha a cara velhaca do nosso muito conhecido Cosme
Borralho.
- Eu logo vi que eram artes deste peralta! Que anda voc fazendo por
a com a minha mantilha?
- Nada; foi para divertir-me com os rapazes.
- E por causa das suas brejeiradas me deixa aqui presa quando me
esto esperando na casa da Rosaura a que prometi no faltar! Ai que
no sei onde estou, marotinho, que te no arranco esses olhos de
cabra morta!
- Ora, no se zangue, prima Inacinha, disse o Cosme com ar magano,
que eu tenho um segredinho para lhe contar.
- De Olinda? perguntou a Incia em ccegas. O que ?
- Escute!
Conchegaram-se os dois a um canto, e ps-se o Cosme a cochichar
no ouvido da prima, que estava num formigueiro com a pressa de irse
ao sero ajustado, e o prazer da novidade que levava.
136
Acompanhara o gaguinho o tal segredo de um acionado original, e de
uns requebros de corpo, com que se enroscava pela Inacinha, a qual
no se agastava com essas licenas oratrias do escrevente.
Acabou o Cosme dando  prima um papelinho, que ela meteu no
cabeo e traspassando a mantilha, enfiou pela porta fora, como
galinha poedeira  cata do ninho onde largue o ovo.
CAPTULO IX
DESCOBRE-SE O CASUS BELLI COM QUE NO ATINARAM OS
CRONISTAS DA GUERRA DOS MASCATES
H quem pense que nada se move neste mundo sem licena da
mulher.
Do mais no sei; mas de guerra posso afirmar que nunca as houve,
nem  possvel haver, quando no o queira a soberana saia.
Podia desfiar aqui um rosrio de provas tiradas da histria, alm de
um milho de argumentos fisiolgicos; mas isso nos levaria muito
longe, e para o nosso caso basta o que se passava quela hora a na
casa do Miguel Viana.
A sala estava cheia do mulherio que se atulhara pelos estrados, como
era uso naquele tempo, e no motejem as moas de agora dessa
moda de sentarem-se as nossas bisavozinhas com as pernas
cruzadas, que se elas c tornassem, no se haviam de rir menos
vendo suas bisnetas ainda franguinhas e j repimpadas em cadeiras
de alto espaldar como se fossem umas abadessas.
Sentada em tamborete baixo, a Senhora Rufina presidia ao arepago
feminino.
- Mas, gentes, no acham que j  tempo de dar uma esfrega nessa
scia de ps-rapados? dizia a Senhora Rosaura que estava mordida
com a escapula do filho.
- No se agonie, senhora, que havemos de ensin-los em regra; mas
 preciso fazer as cousas com jeito, porque l de barulhos no me
falem. So capazes de meter os nossos homens na alhada, e tirar-lhe
por a a cabea de uma cutilada! Ento o meu, que j  tamaninho!
- Enquanto isso, vo os de Olinda roubando a seu salvo nossos filhos
porque no tm quem lhes v  mo! retorquiu a Senhora Rosaura
com azedume.
- Ora, comadre, isto foi uma vadiagem do traquinas do rapaz que 
mesmo da pele do co. Outro dia, que no fez o demoninho l em
casa? Se ele tem bicho carpinteiro, sou capaz de jurar. Pois no,
senhora!
137
-  mesmo! O capetinha no  capaz de assentar o sim-senhor um
instante que seja, disse a velha Engrcia.
Carecemos de advertir ao leitor, que a Senhora Engrcia tinha uma
linguagem um tanto espevitada; costumava empregar alguns termos
em uma acepo peculiar sua.
Muitas locues pitorescas que ainda hoje vogam pelo norte foram
inventadas pela Senhora Engrcia, que at do portugus pouco sabia,
e dizem certos sabiches que para cunhar palavras, se precisa saber
latim, grego, e ser versado nas lnguas vivas e mortas. Que tarelos!
Agora o que ela chamava sim-senhor, adivinhem se puderem, que a
crnica neste ponto  omissa.
- Mas deixe estar, continuou a Rufina, que tudo se remedeia; eu j
falei ao primo. Rebelo, que prometeu-me traz-lo pela orelha; porm,
no consinta que lhe ponha mais o p em casa; de l mesmo 
arrum-lo no primeiro navio que sair para o reino.
-  o que o Sr. Miguel Viana ia fazer por conselho do Ajudante
Negreiros, quando o capetinha parece que desconfiou, e escafedeuse;
e logo para meter-se com aquela gente! Assim o agarre eu, como
vai direitinho para Lisboa.
Ouviu-se um suspiro, que fez a Senhora Rufina lanar uma olhadela
para o canto donde se escapara aquela tmida queixa. Ali estavam
juntinhas a Marta e a Belinhas, que encontravam-se essa tarde pela
primeira vez depois dos importantes sucessos de que foram teatro a
janelinha do sto e a rtula do beco.
Imagine-se pois o que no se tinham a contar as duas camaradas, e
como eram curtos os momentos para sua garrulice. Cada uma
comeou dez vezes a histria que a outra, impaciente, interrompia
para continuar a sua; e assim aos pedaos, alinhavando aqui e
cerzindo ali, conseguiram ambas dizer, no quanto queriam, mas
bastante para o caso.
Acabava Belinhas de comunicar  amiga que o Lisardo quela hora
devia estar ao p da cerca esperando v-la na rtula; e Marta
lembrava-se do Nuno que andava por longe, quando a ameaa da
Senhora Rosaura de mandar o filho para Lisboa, arrancou-lhe aquele
mavioso suspiro.
- Eu c, se o caso fosse comigo, havia de remeter o pequeno para
Lisboa, mas era depois de ter dado o troco aos tais fidalgos de meiatigela.
Essa observao vinha da velha Engrcia, que era uma das mais
decididas do mulherio recifense.
- O troco, eles o ho de ter, que lho h de dar o governador, e com
usura, tornou a Rufina como quem lambia por dentro.
No se rendeu a Engrcia:
138
O governador  um trapalho que no ata nem desata. Olhe, senhora,
o verdadeiro era untarem as unhas ao Camaro, e ento veriam a
pisa que lhes ele assentava, na cabralhada de Olinda, e no lhe
doessem as mos, que  do que eles andam muito carecidos.
- Que o governador  remancho, isso , acudiu a Josefa do Cartacho
em tom de importncia. Fosse ele outra casta de homem que j o
Recife estava cansado de ser vila.
- Apelo eu! tornou Rufina. Que estas cousas assim de supeto,
senhora, sempre saem aferventadas. O D. Sebastio de Castro, fique
com esta que eu lhe digo,  manhoso, e sabe o nome aos bois, como
diz o meu homem. De mais a mais, enquanto ele estiver por ns,
ainda que v empalhando, somos do partido do rei, que sempre serra
de cima. Por isso  que eu sustento, minha gente; nada de barulhos;
que tudo se h de arranjar com jeito e pacincia. Quem  que vai
meter seu gadanho no fogo, quando pode tirar a sardinha com a mo
do gato?
Um zumbido de aprovao acolheu o discurso da mulher do almotac,
prova de que predominava no conclio feminino o partido da paz.
Efetivamente as recifenses, apesar de seu vivo desejo de verem
criada a sua vila, no dissimulavam que os maridos, pais e irmos,
destros em manejar a vara e o cvado, fariam triste figura com as
armas na mo; alm de que no eram de todo insensveis  galhardia
dos mancebos de Olinda, os quais preparando-se a vencer os
mascates, se rendiam aos requebros dos olhos feiticeiros das lindas
mercadoras.
- T, t, t! treplicou a Engrcia, oposicionista acrrima. V-se fiando
no bicho, que depois eu lhe contarei uma histria. Olhem, gentes, eu
sempre enquijilei com homem sonso.
Neste ponto barafustou pela casa dentro a Inacinha, a quem vinha
comendo a lngua a novidade que trazia.
- Ora muito bem chegada! disse a Rufina.
- Mais vale tarde do que nunca! observou a Rosaura a rir.
- Para a nova que trago, antes nunca chegasse! tornou a Inacinha
com ar de importncia.
- Que nova  essa, mulher? perguntou a Rufina.
- Que ?... Que ?... Ora adivinhem!
- Despache-se de uma vez, criatura. No esteja ai a resmoer a gente!
acudiu a Rosaura, que j se achava sobre brasas.
- Que h de ser? Um desaforo!...
- Da ral de Olinda?
- De quem mais?
- Mas ento que foi?
139
- A cousa  de cantiga. Eles mandaram pr em trova... J me esquece
o nome do cujo... Mandaram pr em trova para andar na boca do
mundo.
-  mulher de meus pecados, no falars?
- Que estou eu fazendo, ds que entrei? Agora se no me deixam
acabar, no tenho eu a culpa.
- Pois acabe..
- Diga a trova.
- Isso, no digo. Ento a gente mete assim no caco de repente uma
embrulhada de versos?
- Neste caso o que trouxe voc, gente? perguntou a Rufina.
- Est o que ! disse a Inacinha apresentando o bilhete que tirou do
seio.
- Ah!
Murchou a. orelha ao mulherio que estava  escuta, com as ouas
afiadas para a novidade. Naquele tempo ainda no se contava entre
as prendas de uma boa dona de casa, o saber ler e escrever: era isso
luxo fidalgo, que no chegava a todos. No se estranhe pois o logro
que sofreu nesse momento a curiosidade feminina.
- Marta! disse a Rufina, passado o primeiro pasmo. Toma este papel e
l o que est a.
Ergueu-se a menina para obedecer  me, e aproximou-se da
cantoneira onde bruxuleava a candeia. Belinhas acompanhara a amiga
e por cima do ombro a ajudava a soletrar as palavras escritas em
bastardinho.
Estavam ambas trmulas e com as faces a arder; principalmente a
que tinha de fazer a leitura.
No era qualquer bagatela esta exibio. A travessa Marta no
sentiria to grande acanhamento, se mocinha de hoje, no dia seguinte
ao deixar o colgio e as calas curtas, fosse obrigada a cantar em sala
de baile a mais difcil cavatina de Rossini.
Decorrido o tempo necessrio para que as duas meninas soletrassem
todas as palavras e chegassem ao fim do papel, a Rufina interpelou a
filha:
- Anda, menina!
- Senhora me!... balbuciou Marta.
- L!
-  uma cousa muito feia!
- Mas o que ? perguntaram as outras tinindo de curiosidade.
- Eu no sei!
Que fazes ai com os olhos no papel?
- L tu, Belinhas!
- Eu! Deus me defenda!
- Marta, deixa-te de dengos. L, que te mando eu.
140
Quis obedecer a menina; mas a palavra que lhe espontava no lbio
gentil, recolheu-se num assomo de pudor.
- No posso!
- Oh! buginica! disse Rufina ameaando de longe a filha com um
coque.
- Olhem l, gentes, no seja alguma brejeirada! observou
prudentemente a Josefa.
-  mesmo! Pode sair da uma sujidade!
- Que partes so estas agora! acudiu a Inacinha. Eu c sou mulher de
andar com porcarias?... AI o que tem demais  uma histria cabeluda!
- Esto vendo!... Tem histria cabeluda, senhora! exclamou a Josefa.
- Tenha o que tiver, h de ler, ou eu no me chamo Rufina, gritou a
mulher do almotac levantando-se.
- Eu pelo sim, pelo no, vou tapando meus ouvidos, disse a Josefa
que estava latejando por saber.
- Agora  que te quero ver, sirigaita! dizia a Rufina ameaando a filha
com um belisco. Se tiveres o atrevimento de me respingar, com
certeza te meto no convento, no sei que diga! Anda, deita j para a.
Afinal decidiu-se a Marta, que dum flego, antes que se arrependesse,
leu de afogadilho o contedo do papel.
Todo o mascate  patife,
Labrego, cara de Judas;
E as mulheres do Recife
Tem as pernas cabeludas.
- Desavergonhados! gritou a Senhora Rufina.
- Desaforo!
- J se viu um atrevimento igual?
A grazinada de um bando de maritacas, em roado de milho, quando
lhe disparam um tiro, pode dar uma idia da algazarra que levantou
no congresso feminino a quadra fatal, que ia conflagrar Pernambuco.
Chamar os mascates de patifes, labregos, judas e cousa pior, era sem
dvida uma insolncia; mas no havia estranhar na canalha de Olinda
que ela se despicasse dos eptetos afrontosos que tambm no lhe
poupavam os recifenses.
O que, porm, no tinha nome e tomava as propores de um
atentado sem exemplo, era dizer-se que as damas do Recife tinham
pernas cabeludas. Todos os tratos da inquisio no bastavam para
punir este crime inaudito, que s podia ser expiado na fogueira.
Enquanto serena o alvoroo produzido pela leitura, aproveitamos para
dizer a origem daqueles versos.
O Nuno, que era um grande abelhudo, certo dia espiando pelo buraco
da fechadura, tinha visto na alcova da me uma perna to cabeluda
que a princpio lhe pareceu de tamandu. Mas logo com espanto
141
descobriu que pertencia a certa pessoa que nesse dia estava de visita
em casa da comadre e fora ao quarto para concertar a saia.
Passando-se a Olinda onde a D. Severa o atanazava de perguntinhas,
escapuliu ao rapaz a descoberta da perna cabeluda, que a dama
muito apreciou encarregando logo ao Lisardo de a pr em verso. As
torturas por que passou o nosso poeta nessa ocasio no se
descrevem; tentou ele em princpio descorar o epigrama, mas a ninfa
olindense obrigou-o ponto por ponto a rimar aquela quadra em que
ofendia a formosura sem par da sua adorada Belisa.
A rima foi recitada no sero do Capito-Mor Cavalcanti e muito
aplaudida. No outro dia teve o Cosme vento da cousa e logo tratou de
a meter no bico da gente do Recife, na esperana de ir assim cada
vez mais turbando as guas onde contava pescar. Do como o fez, j
sabemos.
- S enforcados! dizia a Josefa.
- Qual enforcados, senhora! Ainda picados como cabidela para fazer
pastis, ou assados na grelha do Santo Oficio, no pagam esse
desaforamento, exclamou a Rufina.
- Eu como no tenho perna cabeluda!.... disse a Inacinha.
- Quem fala nisso agora, mulher? exclamou a Rufina furiosa. Tenha
ou no,  o mesmo! H de andar como as outras na boca do mundo.
- Mas quem foi o renegado que fez este verso?
- Espere!... No me lembro mais do nome!
- Pois indague, que ele  quem h de tirar a prova do pelourinho de
nossa vila. J me estou regalando de o ver aoitar!
- Eu, se o encontrasse, arrancava-lhe os olhos com estas unhas!
No meio da tempestade levantada pela rima do Lisardo, tinham-se
esgueirado da sala as duas meninas, que foram direitas ao quarto de
Belinhas.
- Voc no disse que ele est esperando? perguntou a Marta.
- Penso que est! respondeu corando a outra.
- Ento  chamar?
- Eu, Marta?
- Pois, Belinhas, quem h de ser?
- Tenho vergonha!
- Ento eu chamo por voc.
E a Marta caminhou para a rtula com ar decidido.
- Est bom; eu vou! tornou Belinhas mais animosa.
Com efeito entreabriu a rtula, e viu junto ao oito uma sombra.
- Anda, Belinhas!
A menina deu um psiu to sumido que no se ouviu a dois passos.
Marta, porm, repetiu o sinal com fora muitas vezes.
142
O nosso Lisardo, assim avisado de repente, esteve a abalar dali, tonto
com a aventura. Mas a voz impaciente da filha do almotac o colou 
parede.
- Venha!...
O nosso poeta ficou imvel.
- Venha j!...
Parou-lhe a respirao:
- Seno fico zangada!
Foi preciso despachar a Benvinda para trazer  fala o poeta, que s
depois de mil sustos e arrependimentos resolveu-se a acompanh-la.
Quando  Lisardo penetrou na alcova, a Belinhas o esperava
encostada na cabeceira da cama, e a Marta escondida por trs do
cortinado ficara de espreita, para animar a amiga a quem ensinara o
recado.
Saiu porm a cousa s avessas; porque o Lisardo depois de duas
topadas que deu ao entrar, e que o iam levando ao cho, embutiu-se
no canto do trum como se fosse uma figura de pau; e a Belinhas
repuxando as sanefas do cortinado, foi-se enrolando de modo que no
se lhe via seno a ponta do p.
Nesse jeito achou-se Marta descoberta, e vendo que os dois
namorados no tugiam, assentou ela de tomar a si a tarefa e com a
sua natural e graciosa petulncia dirigiu-se nestes termos ao Lisardo
imvel e cabisbaixo.
- Saiba o Senhor Lisardo de Albertim que no veio aqui para ficar
assim amuado num canto. Quando Belinhas o chamou foi para
experimentar os seus extremos, porque tendo vindo l de Olinda uns
versos em que se dizem cousas muito ruins das moas do Recife, ao
senhor, que se rendeu  formosura de uma dessas to maltratadas,
cabe responder.
Estremecera o Lisardo lembrando-se da quadra que a D. Severa o
obrigara a fazer, e julgou-se perdido. Marta continuou, mostrando-lhe
os aviamentos de escrever postos sobre o trum.
- Ai est a pena e todo o mais recado de escrita. Arranje-se, que
daqui no sair sem estar pronta a rima. H de ser uma cousa que
belisque as tais bugnicas de Olinda. O senhor h de dizer, oua bem,
que elas so magras como um fuso; e que todo aquele espalhafato
que mostram no  nada seno uma gaiola coberta de panos. Est
entendido, senhor poeta? Pois trate de desempenhar-se da obrigao;
e veremos ento se os seus rendimentos por Belinhas so sinceros, e
qual recompensa merece a sua fineza.
Inclinou-se o Lisardo ao trum, e a musa da pirraa, sob a figura
travessa da gentil Marta, inspirou-lhe contra D. Severa estes versos
que, embora alusivos a todas as olindenses, eram todavia
mentalmente dedicados  ninfa:
143
Escorridas como um fuso,
As damas de Olinda so;
Por fora aquele esparrame,
Por dentro  s armao
De pano, d'osso e arame.
Tendo lido a quintilha, a Marta aplaudiu com uma risadinha brejeira, e
puxando de dentro do cortinado a mo de Belinhas, que resistiu de
leve, a deu a beijar ao nosso poeta.
- Isto  para o senhor; agora para o Nuno.
A menina tirou do seio um raminho de alecrim, que entregou ao
poeta, mas logo pareceu arrepender-se:
- No, no lho d; guarde para si.
Sentiu umas ccegas a Belinhas, que entreabrindo o cortinado acudiu
mui pronta:
- D ao Nuno, d sim, senhor, que isso no lhe pertence.
- Pois d, se quiser; mas no que eu mande.
Partiu afinal o Lisardo; e as meninas voltaram  sala.
Quando ali entraram, acabava o congresso feminino de resolver a
guerra a todo transe, distinguindo-se entre as mais belicosas a
Senhora Rufina, que pouco antes se mostrara to prudente e
conciliadora.
Mas a histria da perna cabeluda posta em verso tinha abespinhado a
venervel matrona, que desde esse momento no respirou seno
vingana, e tanto fez que terminou por desencadear a guerra dos
mascates, apesar de todas as manhas de D. Sebastio.
CAPTULO X
O COSME BORRALHO MOSTRA COMO J NAQUELE TEMPO SUAVA-SE
PARA ARRANJAR UM TABELIONATOZINHO
Enquanto se davam estas ocorrncias, a magna questo da criao da
vila do Recife no adiantava uma polegada nos conselhos de. D.
Sebastio.
"Marcar o passo" - era a manobra favorita do novo Fbio, que
dissipava o tempo em marchas e contramarchas, deixando-se no
meio de suas irresolues governar pelos acontecimentos, em vez de
os governar, como devem e costumam os homens superiores.
Tinha Sebastio de Castro acenado aos nobres de Olinda com a
protelao no cumprimento da carta rgia que mandara criar a vila; e
144
dessa poltica de inrcia contou ele tirar dois proveitos: o de engodar
os pernambucanos, arrefecendo-lhes os assomos de revolta; e o de
trazer pelo cabresto aos mascates, que o cumulariam de bajulaes,
para terem-no a favor.
Ordenava a carta rgia de 19 de novembro de 1709 que o governador
da capitania com o ouvidor-geral fizessem o termo que entendessem
podia caber ao distrito da vila. Essa interveno do magistrado era um
freio salutar que o Rei pusera ao arbtrio de Sebastio de Castro.
Este, porm, achou jeito de iludi-lo, como fazem modernamente os
reis constitucionais com os parlamentos, que se no deixam
corromper de rosto alegre pelas tetias e boas propinas. Mandam-nos
passear como importunos. Assim o fez D. Sebastio com o ouvidor,
como veremos no decurso dos acontecimentos.
Servia ento o cargo de ouvidor-geral da Capitania de Pernambuco, o
Dr. Jos Incio de Arouche, que os de Olinda encareciam por
honradssimo, de nimo reto e mui imparcial; mas no vem fora de
sazo advertir que o magistrado foi acrrimo sequaz dos
pernambucanos.
Era o Dr. Arouche sujeito meo, seco, e teso de porte. Os ossos
repuxavam-lhe a pele encarquilhada, porque desde moo que a inveja
o mirrava. No perdia ocasio de engramponar-se na sua integridade
e longa prtica, o que no o impedia de render-se s prprias
paixes.
No atendia a amigos, porque no os tinha, nem os egostas sabem a
significao dessa palavra, que para eles  apenas um sinnimo de
criado. Mas costumava apaixonar-se de tal sorte nos feitos, que no
era a sua conscincia, seno a sua irritabilidade quem julgava.
Pouco tempo depois de recebida a carta rgia, chamou Sebastio de
Castro a palcio o ouvidor para ouvi-lo sobre a demarcao do novo
termo. Pediu o Dr. Arouche tempo para meditar o assunto; e dias
depois apresentou seu parecer, opinando que se no podia dar  vila
maior termo do que do Forte do Brum  Ponta dos Afogados.
A antiga vila de Olinda, que ento abrangia quase todo o territrio da
atual provncia, se compunha de doze freguesias, das quais trs
urbanas. Ora, segundo o parecer do Dr. Arouche, vinha o Recife a
criar-se em vila com sua nica freguesia, o que no estava no esprito
da carta rgia, e menos no bem dos povos. Mas que se importava o
ouvidor com os povos, desde que agradasse a seus amigos, os quais
lhe conheciam o fraco e no se cansavam de proclam-lo magistrado
integrrimo, tipo e modelo de juizes?
Inteirado do parecer do ouvidor, e depois de o haver meditado em
todas as suas partes, fez Sebastio de Castro ao magistrado esta
observao:
145
- Noto que o senhor ouvidor-geral, pela demarcao que d ao termo,
deixa apenas aos povos do Recife o direito de apanhar mariscos em
s metade do rio!
- Nem outro alvitre seria justo; pois tambm os povos de Olinda, que
so to bons como os povos do Recife e como eles comem mariscos,
s ficam com o direito de o apanhar em a outra metade do rio.
O argumento era de estucha; mas D. Sebastio tinha sempre uma
avenida por onde se espacava.
- O rio pertence ao Recife, senhor ouvidor.
- Pertencer se lho derem, e no h de ser com o meu voto, que por
ora pertence a Olinda, cujo deve ser em parte igual.
- Est bem. Ainda no tenho juzo assentado sobre este particular,
que se carece mui estudado e refletido, como objeto que toca to de
perto  pobreza.
Nesta conformidade resolveu Sebastio de Castro ouvir acerca da
questo ao provedor da fazenda e outros ministros da capitania;
porque era homem que se no decidia sem meter-se antes em uma
barrela de conselho, para lavar da conscincia todos os escrpulos.
Opinaram os informantes que se formasse o novo termo com as
quatro freguesias do Recife, Cabo, Moribeca e Ipojuca; mas no era a
poro de territrio e a comodidade dos povos o que mais preocupava
o nimo do governador, e sim a magna questo do marisco.
Parecia que, sendo o marisco objeto de tamanha importncia, era de
justia, como dizia o ouvidor, reparti-lo entre a pobreza das duas
vilas; mas isso que se figurava to simples, enredava-se com mil
filigranas no esprito do governador a ponto de tornar-se um
inextricvel labirinto ou outro n grdio impossvel de desatar...
As consultas de tantos informantes consumiram os dez meses
decorridos; para dar a ltima demo ao negcio chamara Sebastio
de Castro os ministros e principais a conselho para rever a matria e
assentar-se definitivamente no melhor alvitre.
Mas, durante esse lapso de tempo, no dormia o governador sobre o
caso.
Por ordem sua se lavraram s ocultas e de noite no Forte do Matos as
pedras de cantaria para o novo pelourinho; de modo que, sendo
preciso, se pudesse erigir a vila de um dia para outro.
Naquele tempo no se criavam cidades e vilas como hoje, com uma
penada; era indispensvel a picota, erguida na praa concelheira, s
aclamaes do povo, como padro do governo da terra.
Com o seu peco de ingerir-se em tudo, ia o governador regularmente
nos passeios da tarde ao Forte do Matos examinar o andamento da
obra, e ai entendia com os canteiros sobre o corte das pedras, a
ferramenta e outras minudncias do ofcio; pois foi ele um
enciclopdico, que em tudo falava de Cadeira e dava quinau.
146
Esse negcio do pelourinho era um segredo que no passava do
Secretrio Barbosa de Lima, do Ajudante Negreiros, do almotac,
alm dos canteiros, o. quais estavam prevenidos de que a menor
indiscrio os lanaria nos subterrneos das Cinco Pontas.
Sucedeu porm que na volta da casa do Viana, a Senhora Rufina, que
vinha tinindo, disse para o marido:
- Fique com esta que lhe digo, Senhor Simo: que o tal governador 
um papa-aorda.
A verdade histrica obriga-nos, bem a nosso pesar, a repetir as
palavras descabeladas da virago recifense, sem que por isso deixemos
de catar o respeito devido  memria de D. Sebastio.
O almotac, que nem por sombra suspeitava do epigrama feito 
perna cabeluda de sua cara-metade, ficou estupefato.
- So modos, senhola, de falal do excelentssimo goveinadol, o blao
de El-Lei nesta capitania?
- Eu c, tornou a matrona fincando o punho no quadril, no tenho
papas na lngua, o senhor bem sabe; nem estou mais para aturar as
lrias do paspalho de seu amo; que to bom  um como o outro!
O Sr. Simo Ribas, zonzo com essa desenvoltura de lngua, de que
apenas damos a amostra, assentou de aplacar o fogacho que
ameaava perturbar a paz conjugal; e no achou melhor meio do que
revelar  sua digna esposa o segredo do pelourinho, recomendandolhe,
porm, inviolvel sigilo.
Ora, a Rufina, que ruminava no modo de atiar o governador contra
os olindenses, viu logo todo o partido que podia tirar do negcio do
pelourinho, e no dia seguinte bem cedo aprontou-se para ir 
Inacinha.
Tratava-se de levar a Olinda a notcia do que se estava fazendo no
Forte do Matos. Era uma pedra que metia no sapato dos nobres, com
a esperana de os instigar contra o governador e assim obrigar este a
deixar-se de panos quentes.
Ao entrar na cadeirinha que a esperava no corredor, correu a menina
Marta dizendo:
- Senhora me, veja uma cousa que agora mesmo atiraram da janela!
- Que  isto?
- Um papel, respondeu a menina mostrando. Veio assim embrulhado,
e tem umas cousas escritas.
- Pois destrina l isso! ordenou a Senhora Rufina que estava com
pressa; mas logo arrependendo-se estendeu a mo para tomar o
papel. No, que pode haver ai alguma brejeirada!
- No tenha susto! respondeu Marta sorrindo.
- Ento sabes o que est a?
- Se eu j li! disse a maliciosa menina. Quer a senhora me ouvir?
147
E sem esperar resposta, leu a Marta desta vez com o maior
desembarao a redondilha que na vspera fizera o Lisardo.
- Da c, da c, menina! exclamou a Senhora Rufina nadando em
jbilo. Agora  que as tais remelosas se vo esconjurar! Isso no
passa de artes do Padre Joo da Costa. Ele no  trovista; mas anda
metido com o Tunda-Cumbe que tem o seu jeito, o diacho do galego!
Eu s estou imaginando a cara da tal Severa! A arrenegada ento,
que  mesmo um pau de virar tripas!
Meteu-se afinal a Rufina na cadeirinha que partiu levada por dois
pretos carregadores; e pouco tempo depois parava  rtula da
Inacinha. Quem acudiu ao bedelho foi o Cosme Borralho, que
reconhecendo a mulher do almotac, quis recolher-se; mas era tarde.
Felizmente veio tir-lo dos apertos a prima, correndo a receber na
porta a Senhora Rufina, enquanto o Pisca-Pisca  esconsa enfiava a
garnacha que havia enforcado no garabato da candeia, e compunha
um tanto a frescalhota, pois o nosso escrevente estava, com o devido
respeito, de cuecas, e estas ornadas de dois rombos enormes nas
partes mais rotundas do seu indivduo.
No escaparam  mulher do almotac esses pormenores, que
franziram-lhe a testa, afilando o nariz j de natureza pontudo e
daquele molde que o povo na sua linguagem pitoresca chamou com
muita propriedade nariz de sovela.
Vendo a Inacinha arriscada sua boa fama de viva recatada, arranjou
logo uma peta para explicar a presena do Cosme em sua casa quela
hora e com tamanha sem-cerimnia,
- Este  meu primo, que est de escrevente de cartrio; e como
chegou agora muito cansado l do Monteiro, onde foi por uns papis,
e como estava pingando de suor, coitado!... Ento eu lhe disse que
tirasse a chimarra para refrescar.
Nesse momento no mentia a viva, que o Pisca-Pisca suava deveras
para acertar com a mo na manga direita, cuja cava lhe fugia quando
cuidava acertar, to atrapalhado estava ele com a presena da esposa
do almotac. Tambm de seu lado ele via perdida, no a fama, do que
pouco se lhe dava, mas a prebenda que esperava alcanar dos
mascates como prmio de seus prstimos.
A Senhora Rufina ouvira de pescoo teso e ar empertigado a
esfarrapada mentira que lhe pregara a viva, sovelando com o canto
do olho ao pobre do Cosme Borralho que estava em termos de
desconjuntar o ombro e enfiar-se duma vez ele todo pela manga da
garnacha, como o mais pronto meio de sumir-se!
- Senhora desavergonhada!... gritou afinal a Rufina crescendo para a
viva.
Desabava a borrasca, e bem o conheceu a Inacinha que, sem dar-se
por achada do epteto que a outra lhe acabava de pregar na
148
bochecha, achou modos de arredar o temporal desfeito que vinha
sobre ela.
Pondo-se na ponta dos ps, alcanou o ouvido da Rufina, que no
teve tempo de afastar-se.
- Foi ele que trouxe o verso de ontem.
Operou-se na atitude da mulher do almotac sbita mudana; no
que ela desengatilhasse de todo o caro engravitado pela sua
pudiccia arrufada; mas j no ameaava disparar numa
descaladeira, como as sabia dar a matrona recifense.
- Ento este sujeito tem partes com os de Olinda? perguntou em tom
de juiz, que ela tinha mais que o marido almotac.
- Pois se  escrevente do cartrio! E tambm copia os papis do
licenciado, o Davi de Albuquerque, que  o trampolineiro-mor dos tais
ps-rapados. A senhora no sabe?... O maldito do entrevado, que
antes Nosso Senhor lhe tivesse mirrado a lngua e encarquilhado a
mo para no fazer o mal que est fazendo, e que o h de levar
direitinho ao inferno. Oh! se h de!
Enquanto falava a Inacinha, o Cosme que afinal se havia composto,
fazia-lhe do canto sinais de silncio; mas ela ia por diante sem
importar-se com os esgares do rapaz.
Quanto  mulher do almotac, prestando  tagarelice da Inacinha
ouas distradas, estava ruminando no caso.
Era a Senhora Rufina um politico de primeira fora; basta que, no
tendo nada de bonita, antes sendo sofrivelmente feia, conseguia
meter o seu gadanho na governana por meio do marido. Assim no
trfego da sua quitanda entravam, com os coentros e repolhos da
horta, uns oficiozinhos de justia ou fazenda, e patentes das
ordenanas.
A resulta das cogitaes da matrona foi que no devia transtornar o
seu plano por causa de uma pouca vergonha que lhe estava inchando
os bofes, mas que ao cabo no lhe tocava de perto. Fez ela o que
atualmente esto fazendo todos os dias os chefes de partido. que no
interesse de sua ambio servem-se do talento prostitudo de um
insigne tratante, com quem se atrelam e convivem na maior
familiaridade, como amigos e compadres.
Pensam eles que mais tarde, quando deitarem fora esse torpe
instrumento, podem lavar a mo que o manejou; mas enganam-se,
que essa lepra moral da corruo no h lixvia que lhe apague a
mcula.
- Diz voc, mulher, que foi o moo quem trouxe aquele desaforo da
canalha de Olinda!
- E juro, senhora! Pelas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, se
no for verdade, eu no me arrede daqui! Ele est a, que o diga!...
149
terminou a viva apontando para o Cosme, que encolheu-se como a
ostra na casca.
- Estas cousas no se falam to alto! observou o Pisca-Pisca em tom
submisso, indo  rtula espreitar pelas reixas se algum estava 
escuta.
- Pois ele que trouxe o desaforo h de levar a resposta, tornou a
Rufina. Caiu-me a sopa no mel. Eu vinha mesmo por este particular.
Chegue c, moo!
Aproximou-se o Cosme ainda sarapantado; mas sempre embiocado
na ronha, que no o abandonava nos transes mais arriscados.
- Ora, exclamou a Senhora Rufina,  o Cosme Borralho, o moo do
entrevado!
- O prprio. senhora de minha venerao.
- Pois melhor. Oua c!
Ouviu o Cosme sornamente o recado da Senhora Rufina.
- Eu... eu... Cos... Cosme Borralho, disse o escrevente que gaguejava
quando lhe fazia conta; eu sou o mais humilde servo... servo dos
servos... da Senhora D. Rufina, muito digna e excelente esposa do
senhor juiz almotac; e sempre que precise da insignificncia do meu
prstimo. me ver a seus ps, como o ltimo de seus cativos para
receber as ordens, que  uma honra servir a to virtuosa dama.
Aqui o Cosme deu um torcicolo e fez uma caramunha de lstima:
- Mas veja a senhora que eu, que no tenho eira nem beira, vivo da
rasa do cartrio e mais de alguns magros vintns que tiro de copista
do licenciado. Ora, se l desconfiam que eu ando metido nas
contendas dos senhores mercadores com os pernambucanos, com
certeza me pem na rua a ver navios, sem ter com que comprar um
bocado para a boca.
- No tenha medo, que no desconfiam, disse a Rufina.
- Eu tambm acho! acrescentou a Inacinha.
- Se j eles andam de orelha em p por certas cousas!... Agora se...
se a Senhora D. Rufina, senhora da minha maior venerao, que pode
tudo por seu honrado esposo, o qual  pessoa principal da terra: se a
minha rica senhora quisesse... quisesse ser madrinha deste pobre
coitado, para lhe arranjar um dos ofcios da vila que se vai criar,
ento... ento... j eu estava mais descansado e podia fazer as
cousas com jeito.
- Est dito. Faa o que lhe mando, e conte com o oficio, que se h de
arranjar.
Feita a avena, o Cosme Borralho recebeu as ltimas recomendaes
da Senhora Rufina, e como fosse uma dessas a presteza, botou-se a
rtula para ganhar a rua.
- Espere l, moo! E a trova? disse a mulher do almotac.
150
- Pois a senhora no me deu para a levar? perguntou o escrevente
espantado e metendo a mo no peito da garnacha onde guardara o
papel.
- Dei, sim; mas  que a gente fica sem saber o verso, e depois, como
se h de espalhar?
- Tira-se uma cpia.
Sacou o Pisca-Pisca do bolso da garnacha um desses tinteiros
portteis, feitos de chifre, como usavam ento, e ainda se viam nas
escolas pelos princpios deste sculo. Consistiam em uma boceta alta,
que tinha no tampo um canudo onde se introduzia a pena para
molhar-lhe os bicos.
Os outros petrechos de escrever, trazia-os tambm naquele bolso,
que era uma carteira ambulante. S a pena, aquela faceira pena com
a rama matizada de vrias cores, estava ali provisoriamente, pois o
seu lugar era na orelha direita onde fazia as vezes de insgnia ou
bandeira.
Mas tendo de pr-se  fresca, segundo a verso da Incia, ele
acomodara a sua inseparvel na algibeira.
Sentando-se no poial da janela, com a pena em cruz, e o joelho
levantado para servir-lhe de banca, abriu o Cosme o papel que lhe
dera a Rufina para o ler e copiar. Foi pr-lhe os olhos e pestanejar de
modo que bem justificava o apelido de Pisca-Pisca.
- O que ? perguntou a Rufina desconfiada.
- No... no ... no  nada. Est engraado o remoque!
- No... acha? Elas vo arrenegar-se!  bem-feito! Para que se
metem?... Repita l para a Inacinha, que ainda no ouviu!
As duas aplaudiram e comentaram com muitas risadas os versos,
enquanto os copiava o matreiro do Cosme, que tendo conhecido a
letra do Lisardo, ficou-se com o original, dando  Rufina o traslado.
- Por que no leva o seu? perguntou a matrona.
- Podem conhecer-me a letra.
Esse receio no o tinha o Cosme porque dos trs caracteres de letra
que ele dava como seus, nenhum empregara na cpia, tendo ao
contrrio o cuidado de imitar o do nosso Lisardo, que mal sabia da
tormenta que estava-se armando.
- Ah! outra cousa, moo!... disse de repente a Rufina atalhando a
salda ao Cosme. Quem foi que fez o desaforo daquela trova que voc
trouxe?
- Quem... quem... quem... fe... fe... fez... a... a... qua... qua... qua...
- Sim, sim, a quadra! gritou a Senhora Rufina a quem estava
agastando os nervos aquela amolao.
- No... no sei!
- Por fora que h de saber. Voc que a trouxe.
- Eu... ju...ju... ju.... eu ju...
151
- Estou vendo, homem, que voc no serve para escrivo; gagueja
que no se entende! disse a Rufina em tom decidido.
- Eu no sei, tornou o Cosme, cuja lngua desprendeu-se; mas ouvi
dizer que foi um Lisardo de Albertim, um trovista, que  todo l dos
Cavalcantis.
- Lisardo?...  um camarada do Nuno?
- Isso mesmo!
- Conheo muito! acudiu a Inacinha. Um aluado que anda sempre a
olhar as estrelas! Ele passa por aqui todos os dias com um gibo de
veludo j muito surrado, que perdeu a cor; por sinal tem dois
batoques nos cotovelos. Logo vi que havia de ser um cousa -toa.
- Pois eu prometo-lhe fazer presente de um gibo novo, mas h de
ser de veludo verde de cansano, que  mais chibante.
- Ele no fez por mal! observou o Cosme. Tanto que os seus
rendimentos so c para o Recife, onde est a dama de seus afetos.
- E quem  esta buginica?
- Ele a chama em verso Belisa, que  o anagrama de Isabel.
- A filha da Rosaura do Viana? perguntou a Inacinha.
- Ah! ah!...  a minha afilhada. E ela tem dado confiana a esse
malandro?... Diga-me, diga-me, que lhe quero j negar a bno.
- No; eu penso que ela nem sabe! retorquiu o Cosme apalpando no
bolso o papel da redondilha.
E antes que viesse novo aperto, abriu a rtula, e ps-se a trote.
CAPTULO XI
COMO O NUNO FOI ACRESCENTADO DE PAJEM A ESCUDEIRO, E O
LISARDO REBAIXADO DE POETA A VAGABUNDO
A sala principal da casa de Andr de Figueiredo esto reunidas vrias
pessoas.
Da banda fronteira  entrada v-se D. Lourena Cavalcanti, sentada
em cadeira de espaldar, tendo junto de si um bufete pequeno coberto
de colgadura roxa que arrasta no cho. A esto os recados de que
serve-se a dama naquele momento para escrever cartas.
Do outro lado do bufete, a irm D. Antnia Barbalho, me de Leonor,
fia em uma roca de brana as alvas pastas de algodo que enchem o
cabaz de palha posto a seus ps. Em seu benigno semblante est
pintada a alma tbia e frouxa, que as irms dominam e afeioam como
uma cera.
 esquerda, no intervalo das janelas, l est em tamborete raso, para
se dar ares de donzela, a ninfa olindense, a formosa Cllia, nome este
152
por que era conhecida no Pindo a Senhora D. Severa de Sousa.
Ocupava-se ela com a leitura de seu livro favorito, o Palmeirim de
Inglaterra.
 direita, no longo estrado forrado de panos de arrs com figuras e
ramagens, esto de tarefa as moas da casa e parentas, entre as
quais distingue-se Leonor, pela formosura como pela melancolia; pois
enquanto as outras vo chilreando risos e segredinhos ao ouvido, ela,
de cabea baixa, absorve-se no seu trabalho.
Um escravo de libr postado em cada porta para qualquer chamado e
o mais que for preciso espera as ordens.
Leonor trabalha em uma touquinha de renda, que destina  neta
recm-nascida de sua velha ama, a Brites. Est agora enfeitando-a de
rosas de maravalhas, e essa ocupao lhe encaminha o esprito para
umas saudades, que ela esconde no reflho d'alma para no nas
adivinharem, e que so menos o recordo de uma ventura fruda do
que a viuvez de uma doce esperana.
Sem que ela se apercebesse, to distrada estava, comeou-lhe o seio
a desafogar em suspiros, e aps eles veio um como murmrio de
intenso queixume que se foi desprendendo a pouco e pouco em suave
e ternssima endeixa. Cantava em voz submissa as coplas de um
romance antigo que lhe trouxera.  memria certa conformidade de
pensamentos:
Filha, filha da minha alma,
Com que te batizaria?
As lgrimas de meus olhos
Te sirvam d'gua da pia.
Chamar-te-ei minha Rosa,
Rosa, flor de Alexandria,
Que assim se chamava d'antes
Uma irm que eu queria.
Aqui a voz feneceu para tornar pouco depois repetindo de outra
cantiga em que ento se enleava a fantasia da donzela:
Nada em dor, em dor criada,
No sei isto onde ir ter.
Vejo-vos, filha, formosa,
Com olhos verdes crescer.
No era esta graa vossa
Para viver em desterro;
153
Mal haja esta desventura,
Que ps mais nisso que o erro.
- Que h de voc, Leonor, estar sempre a amofinar-se  toa, com
umas tristezas to sem propsito! disse D. Lourena interrompendo a
cantiga da sobrinha com um tom de repreenso.
- Eu?... exclamou a donzela confusa.
- Ora, que tem que a menina desafogue suas mgoas, D. Lourena?
Antes cante ela suas endeixas, que os zfiros vo desfolhando pelos
ares, do que as congele no seio para se derreterem em aljfares de
sentido pranto.
Assim falou a D. Severa, que bem mostrava na linguagem alambicada
o comrcio potico, que entretinha com o Lisardo.
- Se j  um sestro desta menina fingir-se desventurada e viver s a
lastimar-se desde que o dia amanhece? No sabe outras cantigas
seno essas que falam de desgraas, de pranto, e de quanta cousa h
de triste?
- Nisso de cantiga no h para mim como a da Donzela Guerreira!
exclamou D. Severa com entusiasmo; e soltando a voz de flautim
comeou a gargantear:
Sete anos andei na guerra
E fiz de filho baro,
Mas ningum me conheceu,
S se foi meu capito.
Conheceu-me pelos olhos
Que por outra cousa no;
Foi meu capito na guerra,
Agora o fiz meu baro.
Ouviram-se uns risos abafados, de que no fez o menor caso a ninfa
olindense.
Leonor, que tivera tempo de recobrar-se da perturbao, cuidou em
disfarar o verdadeiro motivo de sua mgoa.
- Pois, minha tia, no temos ns todos razo para afligir-nos com as
desgraas que ameaam esta terra?...
- Que desgraas so estas agora? perguntou D. Antnia  filha.
- Ainda ontem, minha me, a velha Brites me esteve contando que
pela Quaresma, em noite clara, se viu a lua partida pelo meio em
duas bandas, uma no seu natural alumiando o cu, e a outra coberta
de sombra que parecia um d, no que bem estava mostrando as
guerras que ho de acontecer entre Olinda e o Recife, e o luto em que
ficar uma das partes.
154
Estas palavras da moa causaram viva comoo no nimo das
pessoas ali reunidas.
- Tal e qual sucedeu! disse D. Francisca, mulher de Andr de
Figueiredo.
- Eu vi com estes olhos! acrescentou D. Genoveva, casada com
Antnio Tavares.
- Que tem isto? acudiu D. Lourena. Guerra havemos de fazer, que
assim  preciso para defender os foros da nobreza; e sem ela decerto
que no poderemos ganhar a vitria e abater a grimpa dos mascates.
Nem outra cousa significa essa conjuno dos astros, seno a glria
de Olinda por um lado, e a runa do Recife pelo outro.
- Mas h quem diga, minha tia, replicou Leonor, que a parte escura
ficava para as bandas de Olinda.
- No acredite em abuses, menina; que esta lua  pernambucana e
no prognostica males aos filhos que nasceram em sua terra.
- Olha, Leonor, que tua tia sabe estas cousas dos astros, como
ningum.
- Sei, minha me, sei que a tia D. Lourena  muito versada em todas
as sete artes liberais, mas tenho uma cousa que est me dizendo... E
ento quando me lembro da milagrosa imagem de Nossa Senhora do
, que o ano passado, na vspera de Sant'Ana, suou sangue, o que
todos disseram logo ser pressgio de grandes perturbaes, com
guerras, mortes e toda a sorte de desastres!.
- E por sinal, que se passou a sua imagem do altar que teve na Igreja
de So Joo para a Capela do Santo Cristo da S, disse D. Francisca.
- Para ver se a, perto do Senhor Crucificado, ela intercedia com seu
bento Filho para arredar de ns estas calamidades, acrescentou D.
Genoveva.
Ouvira D. Lourena as razes da sobrinha e das cunhadas com o
modo grave e refletido que lhe era natural; tanto mais porque os
pressgios de que tratavam as damas eram tirados de fatos notrios
e atestados por pessoas de toda a f.
Ainda hoje dura a tradio, conservada por Sebastio da Rocha Pita e
o Padre Manuel Leito, que deles do notcia pelo mesmo teor ou com
pouca diferena.
- Sem dvida que muitos males esto a cair sobre esta terra, disse D.
Lourena; e antes dos prognsticos divinos, j era dado aos
prudentes antev-los nos humanos desgnios, pela soberba e
arrogncia dos mascates nestes ltimos, tempos. Mas esses males
vm mandados do cu para castigar a culpa de agasalhar miserveis
aventureiros, e para expurgar a nossa terra dessa praga vil de
forasteiros, que a est danando. Nossa Senhora do O, que 
pernambucana e tem altar erguido nesta terra que regamos com o
nosso sangue para a arrancar aos hereges e flamengos, e conserv-la
155
ao Padroado de Cristo; Nossa Senhora do  e sua corte celeste no
ho de desamparar os defensores da f e cavaleiros da cristandade.
Se ela suou, a milagrosa imagem, no foi de lstima por ns, mas sim
de pesar e tristeza por ver que se esto abatendo os antigos brios
pernambucanos, por modo tal que j no haver quem preserve esta
terra de ser presa dos franceses, se, como se afirma e eu creio,
andam eles correndo a costa e preparando-se com grandes empresas
a acomet-la, que, isto dizem, j chegou aviso de Lisboa ao
governador.
Por esta amostra imagine-se o papel importante que devia
representar D. Lourena nas assemblias polticas dos parentes. Se
vivera em nossos dias, com a sua literatura e disposies para a
oratria, com certeza j se teria mandado anunciar a rufos de tambor
para a prxima conferncia popular.
-  desenganar, senhora, acudira D. Severa. Enquanto no aparecer
nesta terra de Olinda outra herona como D. Clara, que arvore a
gineta das damas, os negcios ho de andar baralhados. Mas no
tarda muito que no vejam aparecer aqui mesmo em Olinda uma Ala
das Donzelas com seu capito, que h de escurecer a fama de Mem
Rodrigues e da sua dos Namorados.
- O capito, j se sabe quem ? tornou D. Lourena com um sorriso
em que a acompanharam as outras,.
No lhe respondeu D. Severa, porque voltando-se para chamar o seu
pajem de estrado, o qual como se devem recordar no era outro
seno o brejeiro do Nuno, que de mascatinho virara donzel,
apercebeu-se a dama da ausncia do rapaz. Levantou-se logo e foilhe
na pista.
Pouco havia que sara da sala, e ainda as outras se riam dos
arreganhos marciais da ninfa, quando o lacaio da entrada veio com
recado de segredo a D. Lourena, a qual deitando os olhos para o
corredor, viu aparecer no fio da porta fechada a meio, um pedao de
cara de fuinha que se havia de jurar ser a do Cosme Borralho.
- Est a o moo do senhor licenciado Davi de Albuquerque, disse o
escravo  puridade.
- Leva-o para o oratrio, que j ai vou, respondeu a dama.
D. Lourena deu tempo a executar-se sua ordem e saindo por uma
porta do interior, dirigiu-se ao lugar indicado que era o mais
reservado e onde se tratavam os negcios de monta.
Entretanto D. Severa corria toda a casa  busca do Nuno, mas no lhe
viu nem a sombra.
O brejeiro do rapaz, que era um azougue, aborrecido da estao a
que o obrigava a D. Severa, em p atrs de sua cadeira como pajem
de estrado, no perdia ocasio de escafeder-se e ganhar a rua ou
quintal. Naquele dia achando aberta a casa do trem, aproveitou a
156
ocasio to suspirada, e armando-se de uma grande catana, comeou
a esgrimir contra uma armadura completa que, posta no meio da casa
e enfiada no seu cabide, parecia um guerreiro antigo armado de ponto
em branco.
Saltava o endemoniado moo como uma pulga em volta da panplia e
desfechava-lhe cada cutilada, que feria logo na coiraa e sobretudo no
capacete.
- Defende-te, vilo... gritava ele. Que seno te corto em talhadas com
esta espada como uma melancia! Em guarda, ajudante das dzias!
Olha este golpe terado!... Zs!... E este de ponta!... Traspassado,
barbudo do inferno!... Rende-te ou morre, negro, negreiro, negro!...
No meio deste fero combate em que o Nuno imaginava estar
pelejando com o Ajudante Negreiros, o homem de sua especial birra,
ouviu ele um rumor do lado da escada, e receando que lhe andassem
 cata e o pilhassem na embrechada, foi espiar ao corredor, e bispou
o Cosme que subia os primeiros degraus.
Veio-lhe a curiosidade de saber que novidade trazia o Pisca-Pisca
quela casa, onde ele afirmava que no punha os ps; e separandose
pesaroso da catana ficou de espreita ao escrevente a quem viu
entrar para o oratrio, onde com pouco foi ter a D. Lourena.
No podendo escutar o que passava dentro, ps-se de planto na
escada para cortar a retirada ao Cosme e falar-lhe; sobretudo
desejava ter novas do que ia pelo Recife depois que de l se partira.
Infelizmente a D. Severa que voltava desenganada de o achar, veio
esbarrar com ele e arrecadou-o:
- Ora, muito bonito! Estou eu a procur-lo, e o senhor a peraltear!
Fique sabendo que um pajem bem ensinado deve estar sempre junto
da dama cujo , como seu caudatrio e donzel, para defend-la e
servi-la a um seu aceno.
O Nuno recebeu o sabonete de cara murcha, mas assomando-lhe a
natural petulncia, levantou a crista contra as pieguices da dama que
pretendia faz-lo de menino.
- Saiba tambm a senhora que eu estou pronto a servi-la e tenho
nisso muito gosto, mas h de ser como seu escudeiro e homem
d'armas; que l essa histria de pajem e donzel  para os pirralhetes
de quatorze anos, e eu c j sou um homem.
- Quede a barba?
- A barba! Isso arranja-se, ainda que se pode bem dispensar, e a
prova  que D. Antnio Filipe Camaro, que foi insigne capito, no
tinha um fio, nem a sua descendncia; e mais eu posso comprar dois
mustachos bem fornidos para compor o rosto, como o moo que faz
de Fero Brigoso, na farsa do Juiz da Beira.
- Mas no v voc, Nuno, que um pajem  mais prprio para uma
dama?
157
- Pois eu de pajem no fico, nem que me serrem!
- Est bom! Fica sendo meu escudeiro.
- Isso  outra cousa.
Nisso esgueirou-se pelo corredor o Cosme que saa do oratrio, e
desceu as escadas a trote mido. Quando o Nuno se pde
desembaraar e lhe foi no encalo, j no o avistou.
D. Severa entrou na sala ao tempo em que D. Lourena, de volta do
oratrio e sentando-se de novo ao bufete, lia um papel que trouxera.
Era a fatal redondilha que a menina Marta obrigara o Lisardo a
escrever na cmera de Isabel.
D. Lourena, no se podendo chamar gorda, era uma senhora
reforada, que no seu porte cheio de dignidade dava uma idia da
matrona romana. Os versos no se podiam pois referir a ela; o que a
disps a achar-lhes chiste.
Olhou sorrindo para a D. Severa que lhe andava sempre a disputar as
primazias.
- Quer ver, prima D. Severa, at onde chega o desaforo da ral dos
mascates? Pois no mandaram pregar nas esquinas estas rimas
desavergonhadas?
Oua:
Escorridas como um fuso,
As damas de Olinda so;
Por fora aquele esparrame,
Por dentro  s armao
De pano, d'osso e arame.
Foi grande o escndalo das damas, especialmente das magras;
nenhuma, porm, como D. Severa, que erguendo-se de golpe e
atirando para trs com um couce a longa cauda, enristou a trunfa e
bateu o p:
-  uma vingana daquele vilo descorts!... Do tal Sebastio de
Castro!... Como no achou entre as nobres damas de Olinda os
requebros das descoladas l do Recife, manda-nos agora difamar por
seus rimadores. Mas ele que no se meta!
Nesse instante soou na rua tropel de cavaleiros. Um troo de gente
armada parou  porta da casa de Andr de Figueiredo, e o Sargento-
Mor Leonardo Bezerra Cavalcanti, com seu filho Manuel, subiram ao
sobrado em busca do capito.
Entretanto o Nuno, que voltava da caa que em pura perda tinha dado
ao Pisca-Pisca, avistou l do outro lado,  esquina da Ladeira do
Varadouro, o Lisardo que vinha em busca da casa, mas que avistando
a cavalgada, arrepiou caminho.
158
Esperou o mascatinho que o poeta se resolvesse a ganhar a casa,
cosendo-se  parede; queria comunicar-lhe a grande nova de ter sido
pela D. Severa acrescentado de pajem a escudeiro e homem d'armas.
O Lisardo, porm, vinha triste e abatido, para o que tinha sobras de
razo. Na vspera,  ave-maria, fora como de costume fazer de p de
muro no beco, em adorao  rtula de seus amores; mas quando ele
esperava aquele rufo suavssimo de unhas rosadas nas reixas de
madeira, e aquele coar da luz de uns olhos feiticeiros atravs das
grades, abriu-se a gelosia com mpeto, para logo fechar-se, batendolhe
trs vezes com tanta ira, como se o estivesse castigando. Era o
que se chama vulgarmente bater com a porta na cara.
Nessa manh repetira-se a crueldade da rtula, mas com um
suplemento que ps o remate  desventura do nosso trovador; e foi
que, insistindo ele em abrandar com a humildade de sua pacincia e a
melancolia de sua compostura os rigores da tirana gelosia, veio de
embaixada a negra Benvinda despach-lo por este teor:
- Moo, siga seu caminho, aqui no Recife tudo tem perna cabeluda!
Foi um relmpago que ofuscou a alma do Lisardo; quando caiu em si,
a negra se tinha sumido e a rtula fechada estava muda como uma
campa, e o era, de seu finado amor.
Belisa lera a quadra que ele havia feito por ordem de D. Severa, e
com razo se julgava ofendida. Como, porm, soubera ela do autor, 
o que no atinava o Lisardo, que estava bem longe de suspeitar das
inteligncias do Cosme Borralho com a Senhora Rufina no Recife e
com a D. Lourena em Olinda.
- Que te aconteceu por l, que me pareces um farricoco, carregando
tua prpria tumba, pois a cara que trazes no  doutra cousa? disse o
Nuno ao poeta com a sua costumada galhofa, que desta vez era o
disfarce da comoo ao ver o semblante abatido do amigo.
- E no te enganas, Nuno!  uma tumba, o que ests vendo e no
mais o infeliz que ontem era.  a tumba de uma alma que nasceu
para a dor, e no viveu seno para comear desde o primeiro instante
a morrer aos poucos. Uma esperana a consolava na sua agonia e a
prendia a este mundo por um tnue fio de ouro. Esse fio rompeu-se, e
a alma acabou por finar-se.
Nuno abraou-o com efuso.
- Mas dize-me, que houve que assim te mortifica?
- Belisa aborrece-me.
- Juro eu que no!
- Aborrece-me, e tem razo, porque a ofendi.
Ia o Lisardo referir ao amigo sua desventura, quando apareceu no
saguo, onde j ento se achavam os dois moos, D. Lourena, que
andava no trfego da casa, dispondo o agasalho para os acostados de
159
seu primo Leonardo Bezerra, que lhe pediu o aboletasse ali at a
noite.
Avistando o poeta, repuxou-se a barbelha de D. Lourena, com o
assomo imperioso que tomava o seu colo nos momentos de rigor;
aproximou-se a dama com um modo to severo que os moos
estremeceram:
- Os ingratos so como as varejas, pois assim como estas
empeonham o corpo que as sustenta, eles vendem os protetores que
os agasalham. Voc, Lisardo, que tantos anos foi um familiar desta
casa onde nunca lhe faltou o necessrio, acolhido pelos nossos com
bondade, esqueceu todos estes benefcios, e fez-se com suas rimas
fmulo e servial dos mascates, a troco de alguma vil esprtula.
O Albertim, sucumbido, quis protestar neste ponto; no lho deixou a
matrona.
- To negro procedimento devia arred-lo para sempre desta casa
cujas portas dora em diante lhe esto fechadas. Se foi para ouvi-lo
que tornou, pode desde j ir-se; e  o mais prudente, porque em
chegando o Capito Andr de Figueiredo e sabendo da sua gentileza,
no h de ter a moderao de que usei.
Albertim sorriu-se, como deviam sorrir os mrtires atravs das
chamas da fogueira e, curvando a cabea, afastou-se com a dignidade
da resignao, que  mais respeitvel do que a do orgulho.
Nuno estava atnito; no atinava bem com o que se passava ali
diante dele; parecia-lhe que expulsavam o Lisardo, mas por que
motivo? Nesse estado apenas pde balbuciar uma palavra ao ouvido
do amigo quando este lhe passou junto:
- Espera-me l foral
Logo que D. Lourena arredou-se, correu o rapaz  rua; mas apesar
de todas as pesquisas no descobriu Albertim.
CAPTULO XII
NO QUAL SE DESEMBRULHA O EMARANHADO E PROFUNDISSIMO
CASO DO MARISCO
Estamos em frente ao Palcio das Torres.
Assim chamava-se naquele tempo os paos que o Conde de Nassau,
prncipe da casa de Orange, fez construir para sua residncia na
cidade Maurcia, e que depois da restaurao ficaram para habitao
de recreio dos governadores portugueses.
Ocupavam na ponta setentrional da antiga Ilha de Santo Antnio o
mesmo stio onde se acha atualmente o palcio da presidncia, em
160
que sucessivas reparaes e acrscimos transformaram a primitiva
construo.
Naquela poca ainda apresentava o aspecto senhoril de um castelo
torreado, no estilo flamengo e de arquitetura superior na elegncia e
solidez  grosseira alvenaria que introduziram no Brasil nossos avs,
os portugueses, j na decadncia de sua efmera civilizao.
Compunha-se o edifcio de um corpo quadrado, em dois altos
pavimentos alumiados por grandes arcadas. A frente era defendida
por um reduto com duas cintas de canhes, uma ao longo da escarpa
e outra a cavaleiro.
De cada lado projetavam-se dois pavilhes com as suas canhoneiras
tambm guarnecidas, e aps eles elevavam-se em quatro pavimentos
as duas torres quadradas cujos coruchus dominavam todo o vale do
Beberibe, desde os outeiros de Olinda at as veigas de Santo Amaro.
No mais alto sobrado viam-se as atalaias; e logo abaixo nas ameias
dormiam os morteiros que haviam defendido outrora contra o valor
lusitano a cidadela flamenga.
Tal era o Palcio das Torres, como o pintam as estampas daquele
tempo. A, nas casas ainda adereadas com luxo de prncipe, faziam
os governadores constante residncia, o que foi o primeiro escndalo
para os nobres moradores de Olinda.
O Senado representou a El-Rei, o qual expediu vrias cartas rgias
ordenando que os governadores assistissem na cidade com os
ministros; mas estas ordens do rei velho tiveram o mesmo efeito que
hoje produz a soberania do povo menino.
Os governadores continuaram a morar no Recife e s iam a Olinda
para tomar ares ou para assistir s festas de Estado que celebravamse
na catedral, e  qual mais de um fez-se conduzir debaixo de plio.
Atravessemos a ponte levadia abaixada sobre o largo fosso, e que
mais parece dormente a julgar pela ferrugem das correntes que a
prendem s colunas da frontaria. Entremos o prtico do castelo e
passando pelo saguo em abbada vamos ter  sala d'armas.
Deixando  direita as portas de comunicao para o pavimento trreo
e em frente  arcada que abre sobre o ptio, subamos a escada que
fica  direita, e que nos leva em dois lanos a uma antecmara do
sobrado.
A esto os lacaios do governador que dirigem os visitantes  prxima
alpendrada corrida em volta do ptio sobre colunas de jacarand to
bem torneadas e burnidas, que figuram basalto.
Trs lados dessa galeria esto desertos e silenciosos; no quarto,
porm, comeam a enxamear entre os oficiais de sala do governador,
a gente da governana, e muita outra da principal da terra que
vinham ao jube domine, sem falar da chusma interminvel de
161
pedintes que nesses dias caiam sobre o governador como um
mosqueiro sobre uma frma de acar.
So nove horas da manh.
A concorrncia era mais numerosa ainda que de costume, porque
sendo este dia marcado pelo governador para a junta na qual se havia
de decidir definitivamente a questo da vila, que era um caso de
monta, ou como se diria hoje uma questo de gabinete, aguara-se a
curiosidade, e todos que tinham entrada no palcio l foram na
esperana de colher alguma cousa.
Enquanto no aparece D. Sebastio, aproveitemos a ocasio para dar
uma ligeira notcia do que eram ento as antecmeras de um palcio.
No lano da galeria franqueado aos estranhos viam-se grupos de
moradores que rodeavam alguns dos oficiais de sala, para ouvir desse
orculo do governo as novas de importncia ou para simplesmente
participar do contacto palaciano, o qual para certa gente  um estofo
indispensvel.
Oficiais de sala chamavam-se ento certos indivduos que os
governadores nomeavam para ficarem de estado  sua pessoa; e
como esse oficio no tinha assento na folha, e por conseguinte no
vencia salrio nem propinas, eram para ele escolhidos de preferncia
os que tinham praa na milcia, ou que desfrutavam alguma tena e
merc.
Esses oficiais tinham aposento no pao, serviam ao mesmo tempo de
camareiros e escudeiros para fazerem sala ao governador, como para
o acompanharem em qualquer cerimnia e a passeio. Da vinha sua
designao, a que eles correspondiam  risca desfiando as longas
horas do dia naquela galeria ou nos repartimentos baixos, sem
ocupar-se em cousa, seno til, ao menos sria.
O tempo que lhes deixava de folga o planto da sala, despendiam-no
em medir com o compasso das pernas os soalhos alcatifados,
recontando pela centsima vez umas anedotas palacianas que j
tinham mofo, mas em que eles achavam sempre um chiste particular
que provinha de forte sabor corteso.
A no ser que chegassem novas do reino, o nico assunto da prtica
desses plastres era D. Sebastio de Castro. - "O homem acordou." -
"Est almoando." - "Vai aos fortes". - "Ainda no jantou." - "Sai a
passeio." - "Entrou para o gabinete." Tais eram os graves
acontecimentos que preocupavam exclusivamente esses indivduos,
muitos dos quais tinham famlia.
Se acontecia que D. Sebastio espirrasse, esse fenmeno tornava-se
o tema da palestra por muitos dias. "Estar enfermo o homem, cuja
sade robusta no conhece achaques?" - dizia um. - "Quem sabe se
esse intempestivo defluxo no trar alguma perturbao grave no
regime do palcio?" exclamava outro. - "A reuma  traioeira, e no
162
seria mau chamar-se logo o fsico em tempo", opinava terceiro. - "Os
grandes desastres nascem muitas vezes de pequenas causas, e deste
catarro pode provir a perda da capitania, que os pichelingues andam
na costa", prognosticava o quarto. - "Fora com os agouros; o espirro
sempre foi um sinal de boa sade", conclua o quinto.
D. Sebastio de Castro, afora os oficiais do costume de seus
antecessores, nomeara mais uns dois ou trs que tinham outra
incumbncia especial, alm de fazer sala. Esses espalhavam-se pelas
ruas do Recife e Olinda, onde sua posio lhes dava entrada em
qualquer casa; correndo a coxia, iam colhendo quanta novidade e
mexericos topavam no caminho, e com essa bagagem voltavam a
palcio.
Era pela diligncia de tais alvissareiros que D. Sebastio andava
sempre bem informado de tudo quanto ocorria nos dois povoados e
do mais que inventava a maledicncia. Assim, quela hora, j ele
tinha de cor as duas trovas do Lisardo, e sorria-se do paralelo que
faziam a perna cabeluda da Rufina com o canio da D. Severa.
Apreciava Sebastio de Castro em alto grau os seus oficiais da sala.
No os podia dispensar. Quando saa a cavalo a percorrer as
fortificaes, para fazer mostra e alardo de sua atividade, levava-os
de roldo,  desfilada, por barrocas e corcovas. Fazia-os apanhar sol e
chuva, de cabea exposta ao tempo, sem a menor considerao. 
calva dos pelados ou s cs dos velhos. Deixava-os a curtir fome e
sede, enquanto ele examinava uma frandulagem qualquer que
encontrava em suas excurses.
Mas quem penetrasse no interior de Sebastio de Castro conheceria
que para o fidalgo esses oficiais, com raras excees, no eram
homens, porm uma cousa entre o criado e o animal: uma espcie de
moblia de palcio. No lhes tinha a menor estima; quando muito
sentia por eles a afeio do hbito que tomamos a um traste pela
comodidade que nos presta.
Se algum morria, era uma contrariedade e nada mais. Mandava por
um companheiro dar os psames  famlia, e  noite para distrair-se
comparecia ao sarau da nobreza ou dos mascates.
Entretanto contava-se que, se acontecia adoecer algum dos seus
criados de quarto, saa ele com toda a comitiva, pondo de parte as
cousas do Estado, para visit-los ao leito. Estes fatos eram depois
referidos e comentados com muitos louvores  caridade do fidalgo.
Na extremidade da galeria estava uma sala com as paredes cobertas
de lambis e alcatifada com um tapete da Turquia e cadeiras
estofadas de veludo de Utrecht: restos j rafados das galas
primitivas. Para esta sala entravam os homens da governana, que
deviam compor o conselho e iam ali esperar as ordens do governador.
163
Estavam todos mais ou menos impados e repletos de sua importncia
como homens que tinham de dar o seu voto sobre a profunda,
intrincada e campanuda questo do marisco.
D. Sebastio estava naquele momento  mesa do almoo, que ele
despachava com a presteza de um soldado. Essa particularidade,
junta a seus hbitos frugais, apesar da profuso e variedade do
servio, tinha desde o princpio de seu governo causado reparo.
O Padre Joo da Costa, quando soube que o fidalgo tinha esse
costume de que lhe resultava ficar afrontado depois da comida,
augurou mal do governo porque em sua opinio um homem que no
comia bem, e no digeria melhor, no podia conduzir
convenientemente a nau do Estado.
Sebastio de Castro, a quem freqentemente damos o dom que ele
no tinha, apesar de ser da primeira fidalguia dentre Douro e Minho,
mas que de todos recebia por unnime aclamao, era exemplar no
seu viver privado. Das virtudes que fazem o homem de bem,
nenhuma lhe negara a natureza, apesar de j lhe ter o atrito do
governo gasto algumas.
Logo ao romper d'alva estava a p; e depois de composto fechava-se
no gabinete que tinha em uma das torres, onde empregava no estudo
as primeiras horas do dia. Se dermos crdito a Sebastio da Rocha
Pita, era muito versado em cousas de guerra, que aprendera com seu
tio Diogo de Caldas Barbosa, nas lutas da liberdade do reino.
- Algumas vezes saa muito cedo a visitar os fortes e prover sobre o
regimento da terra, no que era de uma atividade incansvel; mas com
a sofreguido de tudo ver por si e remediar, acontecia, o que  muito
comum, catar os argueiros nos olhos dos pequenos e no enxergar as
traves que lhe metiam pelos seus o secretrio e o ajudante.
Na mesa era sbrio. Seu prato usual consistia em um frango cozido
com papas de arroz  moda da ndia, e que l chamavam canjas, mas
no entrava nelas caril ou alguma outra especiaria. Raro bebia vinho;
e seu postre no passava de goiabas, confeitas  maneira da
marmelada, doce que j ento se fabricava em Pernambuco de
superior qualidade.
Ergueu-se Sebastio de Castro da mesa, e dirigiu-se  galeria. Um
criado disparou para correr-lhe o reposteiro e anunci-lo; mas no lhe
deu tempo o fidalgo, que apareceu de repente no meio dos ministros
reunidos para a junta, produzindo neles uma confuso e
atarantamento de que se no mostrou apercebido.
Recebendo a cortesia que lhe vinha apresentar cada um deles, e
retribuindo com igual ateno, passou  galeria onde o esperava a
chusma de visitas e pretendentes. Ai ouviu de p o recado ou
peditrio de cada um, com uma pachorra, que raros teriam em sua
posio. Quando se pde desvencilhar dessa interminvel audincia,
164
encaminhou-se  sala do governo onde j estava reunida a junta a
que ia presidir.
Era um vasto aposento sobre o comprido, esclarecido por janelas que
davam para o rio e das quais se gozava a pitoresca vista de Olinda.
Uma longa mesa coberta de arrs verde corria de uma  outra ponta;
na cabeceira via-se a cadeira de espaldar reservada para o
governador e aos lados bancos rasos cobertos de estofo, onde j
estavam sentados os ministros que se ergueram  entrada de D.
Sebastio.
 direita do governador ficava o Secretrio Barbosa de Lima que
expandia-se como uma papoula aos raios do sol.  esquerda, o
Ajudante Negreiros, sempre de viseira cada. Seguiam-se desta e
daquela banda uns escreventes ou amanuenses que o governador
tinha a fantasia de chamar a pretexto de ajudarem ao secretrio, e
cujo real prstimo era tomar os rinzes ao Barbosa de Lima se, por um
caso estupendo, ele se lembrasse de soltar os panos. Um desses era
imberbe; os outros j tinham sua barbica; mas no se induza da que
saiam da adolescncia, pois j estavam maduros.
Nesse trao havia sem duvida uma predestinao; pois a barba  o
emblema das virtudes viris, como sejam a independncia e energia.
Sentado D. Sebastio, mandou ao Barbosa de Lima que expusesse a
questo, e este desempenhou-se da tarefa com a sua habitual
facndia, mostrando a suma gravidade e ponderao do negcio do
marisco, pois era o principal recurso da pobreza do Recife, que, em
ocasies de penria, da somente tirava o alimento.
Acabada a exposio, fez o governador um leve sinal com a cabea; e
os ministros, cada um por sua vez, comeando pelo almotac,
disseram seu parecer acerca do caso. Enquanto falavam, D. Sebastio
ocupava-se em encher uma folha de papel de grutescos de toda sorte,
onde se viam de envolta ramagens esboadas, cabeas de
passarinhos e outras bobagens.
No daremos aqui a ntegra das tenes de cada ministro, como no-la
transmitiu a crnica, pois consumiria muito papel. Basta saber-se que
o almotac provou com farta cpia de textos que, sendo o marisco
aqutico de sua natureza, devia caber de direito aos povos do Recife,
os quais habitavam as praias, e no aos povos de Olinda que era uma
cidade montanhosa. O almoxarife, fundado na opinio de Avincena e
Trincaveili, foi de voto que o marisco era um alimento indigesto e
pouco nutritivo, pelo que no tinham os povos de Olinda justo motivo
para reclamarem a outra metade do rio; antes deviam agradecer o
beneficio que lhes faria Sua Excelncia, preservando-os de cruezas de
estmago, flatos e outros achaques. O provedor tratou o caso ab ovo
e demonstrou cabalmente com a autoridade de insignes gramticos,
que o marisco era fruto do mar, como estava dizendo a palavra
165
marisesca, sca do mar; e, estabelecido esse ponto, concluiu que
todos os crustceos do rio provinham do oceano e entravam pela
barra do Recife, pelo que s ao Recife competia apanh-lo. Quanto ao
Viana, na sua qualidade de provedor dos defuntos, discorreu
largamente, com a tal voz de carreto; mas ningum percebeu o que
disse; devia ser cousa muito profunda e digna da maior ponderao,
porquanto os ministros ali mesmo julgaram necessrio dormir sobre o
caso.
Nesse nterim o Ajudante Negreiros ouvindo desusado rumor na
praa, obtida a vnia do governador, ergueu-se da mesa e assomouse
 janela para inquirir da causa dessa agitao.
Fronteiro a palcio estava postado um cavaleiro petio e magrio,
armado de todas as peas, capacete, gorjal, couraa, grevas,
espaldeira braais e guante, com o ginete estacado e a lana em
punho. No elmo trazia ele por timbre uma aspa de vermelho com
cinco estrelas de ouro, e na cota de malha o escudo dos Barros,
campo vermelho, trs bandas de prata e sobre o campo nove estrelas
de ouro.
Outro cavaleiro tambm armado de todas as peas, e das mesmas
cores, se adiantara at o prtico e batendo trs vezes no escudo com
o conto da lana, clamou em voz alta:
- Ouam todos este repto. O cavaleiro das estrelas, por mim, seu
escudeiro, te desafia a ti D. Sebastio de Castro Caldas a combate
singular, onde te provar  lana e  espada, a p e na estacada,. que
s um cavaleiro desleal, pois no sabes guardar a cortesia s damas.
O escudeiro, retrocedendo, foi colocar-se atrs do cavaleiro das
estrelas; donde com pouco avanou de novo para repetir o repto. Foi
da terceira vez que o ajudante chegou e o ouviu.
Depois disso o cavaleiro com o escudeiro deu trs voltas  praa, e de
cada uma delas, parando em frente  janela de palcio, gritou com
uma voz esganiada:
- Perante todos proclamo covarde D. Sebastio de Castro, que no se
atreve a sustentar o seu dito em combate leal.
Esta cena a principio passara desapercebida para os oficiais de sala e
mais gente que estava em palcio; quando lhe deram ateno, foi tal
a surpresa, que ningum se lembrou de intervir, e j se retiravam
cavaleiro e escudeiro, quando o ajudante que descia as escadas de
tropel, montou a cavalo e foi-lhes no encalo.
Tomando a dianteira ao cavaleiro, gritou-lhe o ajudante:
- Levanta a viseira!
- Se vens da parte de D. Sebastio para conhecer o cavaleiro diante
de quem ele fugiu, olha!
E levantada a viseira, o Negreiros ao ver a cara bem sua conhecida de
D. Severa, disparou s gargalhadas, e deu de esporas ao cavalo para
166
tornar a palcio e contar o caso grotesco ao governador. Mas
entornou-se-lhe o caldo, porque ao passar rente com o escudeiro,
este, que no era outro seno o brejeiro do Nuno, agarrou-o pelo
taco da bota e o revirou da outra banda.
Ao mesmo tempo com a ponta da lana picava o rapaz a anca do
cavalo de D. Severa, e partiam ambos  disparada. Mas inda assim
podia sair-lhes salgada a graa, se no momento em que o ajudante
erguia-se do tombo, esbravejando como um touro, no desembocasse
da ponte uma numerosa cavalgada. que se aproximava cercada de
grande ajuntamento de gente a p.
Descobrindo  frente da cavalgada o pendo da cidade de Olinda, nas
mos do procurador do Senado, Estvo Soares de Arajo, conheceu
o ajudante que havia novidade, e adiando para mais tarde a desforra
do desacato inaudito que sofrera, tratou de inquirir do motivo do
acompanhamento.
Acabava Sebastio de Castro de levantar a junta, declarando que 
vista dos pareceres resolveria em tempo, quando chegou aodado o
ajudante a comunicar-lhe que a vinha o Senado de Olinda com as
varas dos ofcios e pendo alado para representar sobre negcio de
urgncia, o qual ele suspeitava ser o prprio da criao da vila do
Recife.
Saiu o governador a receber os juizes e oficiais; com eles vinha o
Ouvidor Arouche e alguns nobres de Olinda dos mais exaltados, alm
do povo com seus procuradores em frente.
Ento o Coronel Domingos Bezerra Monteiro, vereador mais velho que
servia de juiz ordinrio, adiantou-se e falou nestes termos:
- Senhor governador, aqui vem o Senado da cidade de Olinda, com a
nobreza e povo, por seus procuradores nomeados, representar contra
a deliberao que tomou Vossa Senhoria de criar vila no Recife, para
o que sabe-se com bom fundamento que se esto lavrando em
segredo no Forte da Madre de Deus as pedras do pelourinho.
No pde de todo ocultar Sebastio de Castro a contrariedade ao ver
devassado o seu plano; mas sem desconcertar-se, ouviu impassvel e
com uma compostura cheia de dignidade todo o arrazoado do juiz de
fora.
Sua resposta foi breve e consoante com a autoridade de que se
achava revestido:
- Como governador desta capitania hei de cumprir as ordens de El-
Rei, meu senhor, a quem o Senado e povo de Olinda devem
obedincia e sujeio, e o senhor juiz ordinrio, primeiro que
ningum. est na obrigao de encaminh-los a este preceito.
Aqui o sargento-mor, Leonardo Bezerra Cavalcanti, rompeu com um
desabrimento imprprio do lugar e da pessoa a quem se dirigia.
167
- Pois fique sabendo Vossa Senhoria que, se pode por seu arbtrio
erguer o pelourinho do Recife, podemos ns os pernambucanos com a
justia que nos assiste derrub-lo, e assim o protestamos.
Logo acudiu o Alferes Manuel Bezerra em reforo ao pai, e seguiramse
outros discursos sediciosos e palavras de arrudo, com inslito
desacato  autoridade do governador.
Sebastio de Castro recolheu-se ao interior do palcio, e logo aps
quando retirava-se o Senado de Olinda,  porta do palcio,
apresentou-se o Ajudante Negreiros com uma ronda de soldados da
guarda:
-  ordem do senhor governador e capito-general, prendo ao
Sargento-Mor Leonardo Bezerra Cavalcanti e seu filho, o Alferes
Manuel Bezerra Cavalcanti.
Momentos depois do ajuntamento, que passava pela ponte de volta a
Olinda, ergueu-se uma voz a cantarolar esta quadra muito conhecida
ento:
O Mendona era Furtado,
Pois dos paos o furtaram;
Governador governado,
Para o reino o despacharam.
A chusma repetiu a copia em coro, e outra voz alternou:
A peste j se acabou:
Alvssaras,  gente boa!
O Xumbregas embarcou,
Ei-lo vai para Lisboa.
Estas eram de uma cantiga popular, em voga uns quarenta anos
atrs, e alusiva ao Governador Jernimo de Mendona Furtado de cujo
apelido os garotos e praceiros tinham feito remoques e trocadilhos.
Esse, o quarto governador da capitania, se malquistara com a nobreza
e povo pelas muitas extorses que praticava; sobrevindo a peste das
bexigas, a miualha entrou a cham-la pela alcunha de xumbregas,
que tinha o sujeito. Chegou a ponto a animosidade da gente da terra,
que na tarde de 31 de julho de 1666 ao sair o governador do palcio
de Olinda, tomou-lhe o passo o juiz ordinrio que o prendeu, fazendoo
recolher a palcio em custdia, at que o remeteram para Lisboa
com o sumrio da devassa.
Foi este fato que deu tema  cantiga, a qual o popular nunca mais
esquecera e gostava de repetir sempre que se desavinha com os
governadores, como aviso do que podia suceder.
168
CAPTULO XIII
EM QUE O NUNO SE PREPAROU PARA CAVALARIAS ALTAS A CUSTA
DO ENXOVAL DE D. SEVERA
No quintal de Andr de Figueiredo, para o Carmo um lano mais
comprido da por baixo das janelas que deitava casa, havia grande
rebulio.
A estavam cerca de dez homens. Todos eles dessa casta mestia de
sangue indgena e africano, com sua mescla de europeu, a qual pela
petulncia e agilidade mereceu dos colonizadores o nome de cabras,
de que fizeram depois os vindios um epteto afrontoso para os
naturais, os quais lhes responderam conforme a artinha no mesmo
caso com a alcunha de chumbos, por aluso ao pezunho do galego e 
sua chanca de meia arroba.
Felizmente j l vo longe estes cimes, e queira Deus que no
tornem, para que possamos, ambos os povos, auxiliar-nos na obra do
progresso da humanidade e da regenerao de nossa raa, a quem a
Providncia no reservou debalde a mais rica poro da Amrica.
Vestiam estes homens bragas estreitas de lona, e sobre elas uma
espcie de albornoz de bertangil sem capuz e de mangas curtas; por
chapu um cofo de palha de coco e por calado a sola do p, que sem
dvida no cedia na rijeza  melhor alpercata de couro de anta.
Quem estudasse bem esse trajo veria nele j muito pronunciada a
transio do clssico vesturio peo do sculo dezessete para a
camisa e ceroula do nosso matuto, mais em harmonia com o clima e
os costumes indgenas.
Essa gente ocupava-se em vrios misteres, mas anlogos; estes
esfregavam com cinza, areia e limo o metal de velhos jaezes para
tirar-lhes a espessa crosta de ferrugem, enquanto aqueles untavam
de sebo o correame, que de seco e rijo menos parecia couro do que
pau. Outros malhavam sobre uma bigorna porttil, desfazendo as
mossas dos terados e arneses, os quais bem mostravam o servio
que tinham prestado na guerra holandesa.
 parte, alguns aparelhavam cabos que metiam nas choupas para
fazer chuos e virotes. Mais adiante os ltimos pensavam os cavalos,
e iam-nos arreando  medida que os outros davam prontos os jaezes.
Alm dessa gente, havia ali, mais para dentro do alpendre, uns trs
rapazes que pelo jeito eram algibebes ou pelo menos arranhavam no
ofcio, porque um deles armado de enorme tesoura cortava sem d
por uma pea de serafina vermelha que rolava pelo cho, e atirava os
retalhos aos dois companheiros, os quais desunhavam-se a coser ou
antes alinhavar com ponto de palmo.
169
Finalmente no meio desta labutao, dirigindo a faina e acudindo a
todos os grupos, andava o nosso Nuno, arvorado em escudeiro de D
Severa, e empenhado em mostrar que, apesar de filho, neto e bisneto
de mascate, no nascera para caixeiro, mas sim para homem de
armas e brigador. O brejeiro tomara uns ares de importncia e
caminhava to empavonado na sua categoria de escudeiro, que
ningum reconheceria nesse soldado arrogante e desempenado o
antigo moo, que andava pelas ruas de borjaca ao lombo e cvado
embaixo do brao.
-  s homem dizia dali um cabra.
- Escute c, dom escudeiro! gritava outro.
- Que  isto l? perguntava o Nuno.
- Para que serve toda esta trapalhada de freio, brida e no sei que
mais? Eu c, d-me um cabresto, e ver como tenteio o bicho, sem
precisar disto.
- Eu tambm no me ajeito com esta camisa de ferro. .. Parece que
est a gente enfrascado!
- Pois quem no quiser assim, bradou o Nuno impaciente, v
despejando o beco.  o que no falta por ai, mariolas que estejam
morrendo por um pataco.
Em vista deste argumento peremptrio, os cabras embucharam as
suas razes, mas ficaram resmungando contra essas invenes de
arneses e couraas de que eles no compreendiam o prstimo,
destros como eram a cavalgar em plo e a brigar quase nus.
Esta azfama em que estava o Nuno, carece de uma explicao.
J vimos como D. Severa, vestida de cavaleiro e acompanhada de seu
escudeiro, lanara trs vezes em frente de palcio um desafio a D.
Sebastio de Castro pela afronta feita s damas de Olinda, mandando
pregar pelas esquinas do Recife a redondilha descorts e chocarreira:
ato este que a ninfa olindense qualificara de vilo, e de sua alta
recreao atribura ao governador, pela razo de que na scia dos
mascates nada se fazia seno por vontade dele.
Dessa faanha da ninfa olindense ningum soube em Olinda porque
ela teve o cuidado de arranjar um passeio ao engenho da tia,. e em
caminho, no casebre de uma velha cabocla, operou a sua
transformao com a. armadura e aviamentos que levara o Nuno 
garupa em uma burjaca.
De volta a Olinda, o Nuno se props demonstrar a D. Severa que
nesses tempos rsticos aquela cavalaria andante tornava-se muito
arriscada, porquanto podia sair-lhes ao encontro um tero de gente
armada, que sem nenhum respeito s regras da nobre arte da
esgrima, os iria monteando a tiro de arcabuz; e a prova ai estava no
risco por que passaram de serem filados pela guarda do governador,
que acudira em auxlio do ajudante.
170
O melhor alvitre era armar D. Severa uma companhia de que ela seria
o capito, e ele Nuno o alferes, e com a qual alm de muitas outras
proezas poderiam uma tarde prender o Sebastio de Castro, numa
volta do passeio, como fizera outrora o tio da dama, o Andr do Rego
Barros, com o Mendona Furtado.
Achou D. Severa excelente a lembrana. do moo escudeiro, e
abrindo os cordes da bolsa, tirou do mealheiro reservado para o
enxoval do casamento trs das doze moedas que l dormiam desde
trinta anos e entregou-as ao Nuno para a leva da companhia. Com
esse dinheiro assoldara o escudeiro os dez cabras, comprara em um
armeiro aquela velha ferragem, e tratara um algibebe de Olinda para
enroupar a sua gente.
Enquanto o Nuno andava atarefado com os aprestos da companhia, D.
Severa, debruada  janela, assistia  faina, deleitando-se j com a
idia de comandar ela esse esquadro e reviver a fama de D. Clara
Camaro.
Ao lado da dama apareceu Leonor que ficou surpresa da lida em que
achou a tia e assustada com os preparativos guerreiros.
- No me dir, minha tia, para que  esta leva de gente armada?
-  para desagravar-nos a ns, damas de Olinda, j que os cavaleiros
de hoje esquecem o que devem a seus brios e s regras da ilustre
ordem da cavalaria, to desprezada agora em nossa terra!
- Ento vamos ter briga?
- Se tanto carecemos dela! A guerra, menina,  que faz os heris e as
heroinas.
- Jesus! tia, no diga tal. A guerra traz tantas desgraas!
- Maiores proviriam da relaxao em que vivem os pernambucanos e
que acabaria por entregar a terra aos hereges.
Neste ponto foi o dilogo interrompido pelo sbito aparecimento de
um velho que surgiu no terreiro, sem que soubesse algum donde
sara ele.
- Deus o guarde, senhor escudeiro!
- Que procura, meu velho?
- Saber o senhor, que dizendo-me ali um rapaz da ribeira, que sua
merc anda assoldando gente para uma companhia, eu ento vim me
oferecer tambm...
- Para qu? perguntou o Nuno.
- Para o que for preciso.
- Enganou-se, meu velho, ns c precisamos de soldados e no de aio
para crianas.
A resposta do Nuno tinha seu chiste, pois o velho, alm das cs que
lhe cobriam as tmporas e o caro bamboleava sobre as pernas
trpegas, batendo com a cabea como um cameleo.
- Ora o caruncho querendo fazer-se de duro! disse um dos cabras.
171
- Sua bno, pai av! acudiu o outro.
E todos de rir e galhofar:
- Folguem, rapazes, folguem; que esto na sua vez. Tambm eu j fui
moo. Este surro velho, que esto vendo, no seu tempo, ningum
lhe fazia frente. Pois a guerrilha do Capito Rebelo, chamado o
Rebelinho, era toda de gente escolhida...
- Visto isto, foi voc soldado do Rebelinho? observou o Nuno.
- Como diz, senhor escudeiro. Um dia, ainda me lembro como se
fosse hoje, o capito tinha l sua aventura, que isso de mancebos, e
mais ele que era um guapo cavalheiro, acerca de amores  como rosa
de Alexandria que nunca est sem flor.
-  galante o velho! disse D. Severa.
- Mas o Rebelinho? perguntou o Nuno.
- Sim, como ia dizendo, tinha l sua aventura; e ento uma noite
chamou. me: - "Anda c." "Pronto, meu capito." - Calar as patas
dos cavalos com botas de palha, foi um instante e toca a todo o
galope. Era madrugada quando chegamos. Os flamengos andavam de
refestlo. O capito no titubeou; foi um raio que passou entre eles.
Quando correram sus, acharam a porta guardada, que l estava eu; e
trs, zs, zs, era um sarilho de espada como nunca se viu. A dama,
que tivera aviso, logo saiu da cmera, j apercebida para a jornada,
de sorte que o capito foi tomando-a nos braos, saltando a janela e
cavalgando.
- Disto j se no v nestes tempos de agora! disse D. Severa para a
sobrinha. Leonor que desde o princpio ao ouvir o nome de Rebelo,
sentira-se presa de uma comoo estranha e no tirava a ateno do
velho, estremecera mais de uma vez sob o relance d'olhos que lhe
deitava aquele em certos pontos de sua narrativa.
- Foi-se o capito com a dama, e voc como safou-se?.
- Dois botes de espada, um  direita, outro  esquerda; e um pontap
na candeia! A ficamos todos da cor de seu mestre...
- L dele!
- E eu, este  meu caminho!
- J vejo que voc foi um Ferrabrs de Alexandria.
- No digo tanto; mas fui um soldado que sabia seu ofcio, e ainda
no o desaprendeu. Tome-me o senhor escudeiro a seu servio, que
se no h de arrepender.
- guas passadas no movem moinho. Voc, que  antigo, deve de
conhecer o rifo. No h de ser com as bravatas do tempo dos
holandeses que havemos de ensinar os mascates, seno com boas
cutiladas...
- Este brao, apesar da tremura, ainda arranha!
- V-se andando, meu velho, que temos mais que fazer.
172
- Sempre quero mostrar que ainda no estou molambo que se bota
fora.
E o velho apanhando uma das catanas que rolavam pelo cho,
apanhou-a como quem entendia do ofcio e fez com a espada um
molinete que ningum por certo esperaria de semelhante podo.
Riu-se Nuno desses floreios, e levando a mo  cinta, cruzou o ferro,
certo de em dois tempos desarmar o velho, mas saiu a cousa s
avessas, pois foi a sua espada que saltou-lhe da mo.
- Oh! senhor escudeiro, no d barrigadal
- E ento, o velhinho no  da carepa?
Apanhou o Nuno a espada e vinha cego sobre o velho para despicarse,
mas este, como se o grande esforo que fizera o houvesse
extenuado, se abordoara a um tronco d'rvore para no cair, e mal
podia tomar flego.
- Eis em que do as fanfarronadas! disse o Nuno.
O velho, como que envergonhado da sua bravata, foi-se esgueirando
pelo corredor, no sem lanar um olhar significativo a Leonor cujas
faces se cobriam de uma lividez mortal.
Sob aquele disfarce, reconhecera a donzela Vital Rebelo, sobretudo
quando brandindo a espada, o velho perfilou o talhe; da aventura do
tempo dos holandeses compreendeu ela que o marido se preparava a
arranc-la do poder de seus parentes, e dava-lhe aviso por aquele
meio em falta de outro.
E no se enganara. Vital no contando seno consigo, resolvera
libertar sua mulher do cativeiro em que a traziam e, antes de levar a
cabo a empresa, julgou prudente explorar o campo e dar aviso a
Leonor. Com esse fito se disfarou, valendo-se do pretexto que lhe
ofereceu a leva do Nuno.
Deixando Olinda, foi o alferes em busca de seu cavalo, que ficara
oculto em uma palhoa de pescador perto do Brum, e s  tarde
ganhou o Recife. Ia dispor as cousas para realizar o seu plano naquela
mesma noite.
Vital receava que de um momento para outro as cousas polticas se
baralhassem de modo a trazer um rompimento entre os nobres e os
mascates; o que no deixaria de estorvar-lhe a empresa, pelo reforo
de que se haviam de cercar os moradores de Olinda.
Naqueles dias passados o negcio parecia ter chegado ao desenlace
com a imprudncia do Leonardo Bezerra e seu filho, de que se tratou
no capitulo anterior. Quando chegou a Olinda a notcia da priso dos
dez pernambucanos, a voz geral foi pelo levante.
Mas um oficial de sala do governador fora a visita em casa do capitomor,
e ai afirmou que Sebastio de Castro no se tinha decidido ainda
a favor dos mascates, pelo que fora rematada indiscrio dos
olindenses o provocarem a medidas de rigor. Acrescentava que, ainda
173
assim, a priso dos dois Bezerras no tivera por causa o desacato de
palcio, mas um homicdio que eles haviam perpetrado na noite
antecedente.
A ltima acusao, sabia-se em Olinda que tinha todo o fundamento,
pois fora para tomar uma vingana brbara de pretendidas ofensas
que o coronel e seu filho tinham na vspera chegado  casa de Andr
de Figueiredo com um troo de gente armada.
Essas insinuaes de palcio serenaram os nimos, e os trouxeram 
concrdia. O sargento-mor e o filho tiveram carta de seguro para se
livrarem soltos da querela, e as cousas voltaram ao p em que
anteriormente se achavam, e nas quais as desejava por muito tempo
ainda Sebastio de Castro que era avesso a toda complicao ou
crise, como se diz na atual aravia poltica.
Os mascates, que j contavam infalvel o despique do governador
contra a arrogncia dos nobres de Olinda, ficaram de orelha murcha.
A Senhora Rufina, essa, quando soube que o seu plano tinha gorado,
enfiou, e arregaando o vestido at  canela, calada com meia azul
de Guimares, exclamou:
- Aquilo  um songamonga de um papa-aorda! Mas deix-lo comigo,
que eu lhe chegarei a mostarda ao nariz!
Bem nos pesa trasladar para aqui estes destemperos de lngua da
varoa recifense, mas a verdade histrica assim o exige.
- Era a Senhora Rufina mulher decidida. Se ela tinha cabelo na perna,
como o abelhudo do Nuno andou enredando das recifenses l por
Olinda, no sabemos; mas que o tinha na venta, isso podemos
assegur-lo.
Sem mais rodeios mandou chamar o Tunda-Cumbe que lhe viesse
falar quela mesma tarde.
Esse Tunda-Cumbe era um labrego, h anos chegado do reino, sem
eira nem beira, nem ramo de figueira. Chamava-se ele Manuel
Gonalves, e tinha a cara lanhada por um gilvaz, trofu de certas
faanhas pelas quais deixara na terra fama de parteiro jubilado.
Apenas desembarcado, os patrcios o arranjaram de feitor para o
engenho Cumbe, do Sargento-Mor Matias Vidal, em Goiana, e a tais
artes fez, que os negros um belo dia o amarraram a um toco de pau e
assentaram-lhe tremenda pisa, que eles na sua lngua de Angola,
chamam tunda. E dai veio ficar o Manuel Gonalves batizado por
Tunda-Cumbe.
A sova de pau no o desgostou do oficio de feitor, que ainda serviu
por algum tempo na Vrzea; depois fez-se almocreve de peixe, que ia
comprar  ribeira e andava pelas portas a vender em um cargueiro.
Mas como era homem de dar e tomar, e dessa ltima qualidade fazia
prova plena a tunda de Goiana, ocupava-se o latago em outros
negcios, que lhe rendiam mais que a regatice, embora lhe custassem
174
s vezes um arranho na pele ou alguma escovadela no lombo. Para
isso tinha ele o couro rijo, e a fvera macia.
Em todos os tempos agitados h dessa estofa de gente, que a fortuna
se compraz de agarrar pela orelha e atirar no meio dos
acontecimentos, donde no  raro v-los subir pelos degraus das
honras e do poder. O nosso Manuel Gonalves estava fadado a
representar um papel importante na Guerra dos Mascates, e a
histria, que o viu almocreve de peixe naquele ano de 1710, devia
dois anos mais tarde encontr-lo coronel e cavaleiro do hbito de
Cristo, com as congratulaes que da parte de El-Rei lhe dirigiu o
governador.
Tal foi o homem com quem teve a Senhora Rufina larga prtica no
telheiro da cacimba; do que a se passou, no reza a crnica.
Isto ocorria dias antes daquele em que Vital Rebelo disfarado em
soldado velho fora a Olinda, e que se contava 17 de outubro.
CAPTULO XIV
DA ESPCIE DE MOSTARDA QUE A SENHORA RUFINA LEVOU AO
NARIZ DO GOVERNADOR, E DO ESPIRRO QUE SAIU
Quando Vital chegou  porta do Recife, pouco faltava para quatro
horas.
Morava ele da outra banda do rio, lugar que fora outrora o Carmo
Velho, e que os holandeses chamavam Boa Vista, de uma quinta que
a construiu o Conde Maurcio de Nassau, nome esse que os nossos
conservaram.
Para ganhar a casa atravessou o Recife e veio sair  Porta de Santo
Antnio, donde passando a ponte tomou para o Rosrio na direo de
Cinco Pontas, que era ento o caminho da Boa Vista, pois ainda no
existia a ponte, e a passagem se fazia pelo aterro dos Afogados.
Ao voltar para o Rosrio, avistou o mancebo uma cavalgada que
atravessava de So Francisco para as Trincheiras.
Era o Governador Sebastio de Castro e sua comitiva. Saa ele ao
costumado passeio da tarde e dirigia-se para as Cinco Pontas pela
Rua das guas Verdes.
Ao chegar por meio dessa rua. e no momento em que o fidalgo
voltava-se para falar ao Barbosa de Lima, ouviu-se a detonao de
dois tiros disparados de uma rtula onde ainda se pde ver um froco
de fumaa.
175
Os oficiais e soldados da guarda arremeteram contra a rtula, mas
nada encontraram. A casa desabitada desde muito tempo, estava
deserta.
Todavia, se tivessem corrido logo ao quintal, ainda avistariam dois
vultos de cara pintada que escaparam-se pela cerca com os
mosquetes fumegantes, e que momentos depois eram vistos
atravessarem de corrida da Rua do Horta para o Rosrio na direo da
Praia, onde, a ser verdade o que espalhou-se mais tarde, os esperava
uma canoa.
O governador estava ferido; o que, derramando o susto e a
consternao nas pessoas da comitiva, dera azo  fuga dos espoletas.
Apenas se pde obter uma liteira, foi ele transportado para palcio e
entregue aos cuidados dos fsicos da terra.
Os ferimentos eram na coxa direita, onde viam-se quatro escoriaes,
que no pareciam ter a menor gravidade por serem quase
superficiais. No pensavam porm desta sorte os garnachas que
abanavam magistralmente a doutoral guedelha resmungando um
latinao:
- Vulnus intoxicatus!...
Com o alicate, um dos da mestrana, extraia das escoriaes
partculas brancas e cristalizadas, que aproximava  luz da janela,
onde cada um, limpando as canastras e cavalgando-as de novo no
beque, procedia ao profundo e escrupuloso exame.
- Mercurius sublimatus corrosivus! disse afinal o deo dos guedelhas
erriando as grossas sobrancelhas como dois acentos circunflexos.
- Ita vero! afirmou o segundo, alongando  guisa de ponto de
admirao a j esguia caraa.
- Sane quidem! ecoou o terceiro esparramando as bochechas na mais
doutoral interjeio.
Elucidado devidamente o abstruso caso com formidvel reforo de
latim e suculentas ilustraes de Boheravio e outros luminares da
cirurgia, foi decidido pela junta dos fsicos, e anunciado em boletim,
"que o estado de Sua Excelncia, o Senhor Capito-General D.
Sebastio de Castro, devia se considerar melindroso e gravssimo,
visto como os ferimentos, embora rasos, eram feitos por balas ocas,
cheias de um veneno terrvel, o sublimado corrosivo com que os
sicrios contavam empeonhar o precioso sangue do excelentssimo
governador, e assim assegurar por uma morte infalvel o xito de seu
nefando e sacrlego trama, mas a Divina Providncia, que vela sobre
os destinos dos povos, permitiu que os assassinos no empregassem
nos mosquetes a carga suficiente, de modo que, sendo as feridas
superficiais. restava essa esperana de salvao para o excelentssimo
enfermo, sendo ela todavia to precria que a sapientssima junta no
se animava ainda a formular um diagnstico favorvel".
176
Para que o leitor possa aquilatar bem desta sandice doutoral, vamos
confiar-lhe um segredo, que at agora escapou s laboriosas
investigaes do Instituto Histrico, deixando na sombra a verdade
sobre o fato culminante da Guerra dos Mascates.
O tal sublimado corrosivo que a mestrana achou na perna de
Sebastio de Castro, aqui  puridade, no era outra cousa seno sal
de cozinha, com que o Tunda-Cumbe e seu companheiro tinham
carregado os mosquetes a mandado da Senhora Rufina. A mulher do
Simo Ribas, que no fundo e apesar dos eptetos um tanto pitorescos
com que o mimoseava, no tinha raiva ao Sebastio de Castro, e s
inquijilava com ele por quere-lo mais homem e mais governador,
especialmente depois do desaforo da perna cabeluda; a digna
almotac, bem longe de atentar contra a vida do fidalgo, maquinara
nesse meio de despertar-lhe os espritos vitais, fustigando-lhe a pele.
O sal a fazia a vez da pimenta: com a diferena que a aplicao do
primeiro era mais consoante com a dignidade do cargo.
Hoje em dia, dado o desconto aos costumes, ainda se usa do mesmo
processo empregado pela Senhora Rufina para intrigar um partido
com o supremo dispensador das graas. Em vez de tiros de sal dados
de emboscada na esquina da rua, faz-se isso mais limpamente com
artigos mascarados de gazetas annimas.
Ao tempo em que a mestrana destrinava o caso cirrgico, os
estadistas jubilados proviam ao caso poltico. Foi sumria a
deliberao, pois urgiam as circunstncias melindrosas da repblica,
que  a cousa de ns todos.
O Barbosa de Lima que por gosto e necessidade falava portugus
correntio, abriu a conferncia com um texto latino, res vestra agitur,
que arregalou o olho ao Negreiros, o qual dando um puxo 
memria, sacou o exemplo da artinha do Padre Mestre Antnio
Pereira: Vita, decus et anima nostra in dubio sunt. O almotac que
era rigorista acrescentou - ou in dubio est. Quanto ao almoxarife, no
ajustando-se ao caso o nico texto de Tcito que ele salvara do
naufrgio de seu latinrio, apoiou com a cabea.
Ficou assentado que em desagravo do negro, infame e execrando
insulto que sofrera a Majestade na excelentssima pessoa do senhor
governador e capito-general, seu brao rgio, cumpria dar um
exemplo tremendo que ficasse para memria; e como medida
preliminar ordenou-se a priso imediata dos principais de Olinda. Esta
providncia era ainda reclamada pela salvao comum; pois quando
os rebeldes ousavam atacar a primeira autoridade da capitania, o que
no atentariam contra os subalternos?
Bem se v que os estadistas no ficavam atrs dos fsicos. Se estes
haviam pressuposto a existncia de balas para afirmarem que eram
177
ocas e cheias de sublimado corrosivo, aqueles davam por averiguado
que os autores do brbaro desacato eram os nobres de Olinda.
Entretanto a notcia do atentado se havia derramado pelas ruas,
incutindo na populao o espanto, acompanhado do vago terror que
pressagia as catstrofes.
Os animosos pensavam nas conseqncias funestas desse crime que
ia acender a guerra civil e cobrir de luto e runas a j decadente
Capitania. Os pusilnimes s pensavam na prpria segurana e
estremeciam ao menor rumor, cuidando que os ps-rapados, depois
de terem ferido o governador, se espalhavam pelas ruas decididos a
deixarem tudo raso.
Entre estes ltimos distinguia-se o nosso Capito Miguel Correia, que
apesar do lombo macio e da gineta das ordenanas, no podia de
modo algum vencer a instintiva repugnncia por tudo quanto lhe
cheirava a chamusco. Por isso, quando veio a primeira nova
surpreend-lo na rua, tratou de meter-se em casa do mercador Viana,
onde alm das paredes, contava ele com os esconderijos do vasto
armazm.
Na sala encontrou a Senhora Rosaura e a filha, que tambm estavam
assustadas com a notcia, e espiavam pela rtula  espreita de algum
conhecido para inquirir sobre os pormenores do caso. O mercador ao
primeiro aviso correra a palcio, donde ainda no voltara; e assim,
em falta do Nuno, tinham enviado como batedor a Benvinda.
A chegada do capito foi pois acolhida com satisfao at pela
formosa Belinhas, que de ordinrio o recebia de longe com uma
graciosa carranca, mas nesse momento chegava-se perto com o
rostinho alvoroado de curiosidade. Se no fossem uns calafrios que
lhe corriam pelo fio do lombo e uns repuxamentos que lhe pregavam
a barriga no espinhao, o nosso Miguel Correia se animaria a desejar
novos barulhos, que lhe trouxessem esses ares da graa de sua
futura.
- Diga-nos o que sabe, Sr. Miguel Correia? foi a pergunta com que a
Rosaura lhe abriu a porta.
- Eu, senhora, s sei dos tiros, e que o senhor governador l foi ferido
.para palcio.
- Talvez a esta hora esteja com Deus.
- Que me diz, senhora? exclamou o capito cujas pernas comearam
a abanar.
- No ouviu tocar ao Santssimo? Pois foi para o senhor governador.
Pelo que falava uma gente que passou, parece que envenenaram as
balas.
- Jesus! Que malvados!
- O senhor ento ainda no foi a palcio? perguntou Belinhas com
reparo.
178
- Ainda no... Eu... eu quis ir... mas como havia de ter muita gente,
pensei que... que no era bom... podia atrapalhar.
- Pois deve ir! tornou a moa.
- A senhora acha?
- Um capito de ordenanas! Para que serve ento esta espada se no
 para defender o seu general? disse a moa com desdm.
A Senhora Rosaura, que tinha corrido  rtula por ouvir um
burburinho, exclamou:
- Ai, minha Nossa Senhora, que l vem uma tropa!
- E  para c! disse Belinhas lanando os olhos  rua.
- Para c?... balbuciou o capito procurando com a vista a porta do
interior.
- Ser dos nossos? Deus o permita! tornou a Rosaura.
- H de ser, h de ser, disse o Miguel Correia recobrando-se com essa
idia Aposto que foi o Viana que pediu ao ajudante para guardar sua
casa...
-  me, gritou Belinhas,  de Olinda!... E estamos cercados.
O bando de homens armados, em nmero de vinte, desembocando na
Rua da Moeda, dirigiu-se rapidamente  casa do mercador Viana,
onde acabava de pr cerco, apeando-se logo um cavalheiro que
parecia o cabo.
Esta esquadra no era outra seno a que o Nuno estava na manh
daquele mesmo dia esquipando e arreando no quintal da casa de
Andr de Figueiredo. O que de mais notvel havia nela eram os
trajos. Vestiam os sujeitos uma pantalona, como ainda h pouco
tempo se via nos palhaos dos circos, o que lhes dava o aspecto de
marmanjes de sungas vermelhas, marchetados de estrelinhas de
amarelo fingindo ouro.
A cabea traziam-na coberta com uma carapua de l azul, que
esticada por dentro com arames, tomava a feio de um funil. Quanto
s pernas e ps, no usavam meias nem sapatos, mas uma espcie
de polaina preta de original inveno.
Fora o caso que no querendo os cabras admitir cousa que se
parecesse com calado, pois era o mesmo que pe-los, aventou o
Nuno met-los at o joelho em um tijuco preto que depois de seco
fingia botas de longe, sem estropiar os seus soldados.
Tendo concludo os aprestos de sua companhia, lembrou-se o
escudeiro da D. Severa de sair com ela para adestr-la desde logo; e
seriam quatro horas da tarde quando aquela mascarada desfilou pelas
ruas de Olinda com grande alvoroo da meninada, que tomou a cousa
por festa mourisca.
Seguiu o bando pelo istmo com direo s portas do Recife, onde o
Nuno queria dar mostra da sua luzida esquadra.
179
Antes de chegar ao Forte do Brum, h no istmo uma pilastra
conhecida por Cruz do Patro que serve de baliza aos mareantes
quando demandam o porto. Passando por ali, ouviu a tropa alguma
cousa que excitou-lhe a ateno. Era uma espcie de salmo ou
recitativo, pronunciado por uma voz dbil e extenuada. Dir-se-ia um
canto de igreja, talvez um responso, to lgubre eram os acentos
daquele ritmo.
Os cabras se benzeram, esconjurando o mau agouro; e Nuno, um
tanto agitado apesar da sua temerria impetuosidade de rapaz,
adiantou-se para averiguar o caso.
Sentado no respaldo da pilastra, pela face do mar, via-se um homem
com o olhar engolfado no vasto horizonte que se abria pela
imensidade do oceano. Seus olhos pasmos e hirtos pareciam exalar os
ltimos lampejos d'alma que se estava desatando do seu espojo
mortal, para embeber-se no cu. Moviam-se frouxamente os lbios
desatando aqueles salmos tristes, em que de perto se reconhecia a
cadncia soluante de uma trova.
Era s o que a vida ainda no desamparara nesse corpo j quase
morto, que a no ser a pilastra onde se derreava, estaria rojando no
cho. Mas esse mesmo crepsculo da vida, que ainda pairava nos
olhos e nos lbios do infeliz, bruxuleava j, apagando-se intermitente
como o claro de lmpada a extinguir-se. Ao ver-lhe o semblante que
jaspeava a lividez da morte, Nuno deu um grito, e apeando-se rijo
correu ao moribundo.
- Lisardo!
O poeta no pde volver os olhos para o amigo; mas um raio
perpassou-lhe no rosto, como a luz de um sorriso.
- Acudam! gritou o Nuno para sua gente. Depressa!  preciso salvlo!
Vo buscar o licenciado!
Um dos cabras mais decididos aproximou-se, e tirou do cs da
pantalona uma borracha delgada e comprida que facilmente se
acomodava ao corpo  guisa de cinta, e na qual trazia a inseparvel
branca, sua fiel companheira. Para ele, como para muita gente, esse
era o elixir milagroso capaz de ressuscitar um morto.
Assim tratou sem mais cerimnia de introduzir o gargalo da borracha
na boca do poeta e despejar-lhe um gole. Reanimou-se de sbito a
fisionomia do moribundo, mas logo aps caiu ele estorcendo-se de
dores e soltando gemidos pungentes no meio dos quais escapou-se
afinal uma palavra que parecia sair das entranhas dilaceradas:
- Fome!.,. A fome!
- Morto de fome, meu Deus! gritou o Nuno. Corram! A Olinda...
Voem!... Ah! Lisardo!... Pois, no me tinhas a mim!
180
CAPTULO XV
O NUNO ESTRIA-SE NA CARREIRA DAS ARMAS PELO RAPTO DAS
SABINAS
Com pouco chegou um dos camaradas trazendo um coco verde, que
apanhara ali perto. A gua e depois a gelia reanimaram o Lisardo, e
deram-lhe foras para esperar a refeio que veio de Olinda, e
constava de uma aorda e vinho.
Instado por Nuno, o poeta referiu-lhe em poucas palavras o segredo
de sua desesperada posio:
- Naquele mesmo dia, em que  tua vista me correram de Olinda,
como um ingrato e falso, tornando ao Recife. para beber nos olhos
dela um conforto de que precisava, fui tambm despedido a seu
mandado como um mendigo importuno!
- Belinhas?...
- Ela!.
- Soube no sei como, que eram meus os versos contra as damas de
Olinda... E eram; mas tinha-os feito por ordem de D. Severa; e
jamais com inteno de ofender aquela que eu adorava como a luz de
minh'alma.
Nuno cogitava.
- Ento, concluiu o poeta, pensei que j no tinha que fazer na terra e
chegando aqui, me deixei morrer. Por que me chamaste de novo a
este mundo, onde nada mais sou do que um espectro?
- Hs de ser marido de Belinhas, que o mando eu! exclamou o Nuno
com um entono picaresco.
Um dos camaradas passou para a garupa do outro, e no cavalo
devoluto acomodou-se o Lisardo, que apesar da fraqueza pde
manter-se na sela.
Por ordem do azougado rapaz, seguiu a esquadra para o Recife, que
achou em alvoroto com a nova do horroroso insulto feito ao
governador.
Em vez de hesitar no plano que traara, o Nuno ao contrrio mais se
apressurou.
J vimos como chegou  casa do pai, onde no o conheceram nem a
me, nem a irm, por causa da viseira que trazia descida; pois o
escudeirinho no relaxava a couraa e capacete, que apesar de j no
serem da moda, davam-lhe ares mais guerreiros.
Foi reconhecendo Lisardo, que a menina Belinhas soltara o grito de
espanto, que afugentou da sala, como sombras que se evaporam, a
Senhora Rosaura e o insigne Capito Miguel Correia.
181
A. menina, porm, deixou-se ficar ainda que trmula e perturbada.
Apesar do susto, sentia uma vontade irresistvel de saber o que
desejava ali aquela tropa que tinha por um dos cabos o Lisardo.
Entrou na sala o Nuno, com um tremendo espalhafato guerreiro, de
arrastado de espada, batido de esporas e roncarias de peito, puxando
pelo brao o Lisardo que fazia o possvel por desvenclhar-se da
corriola.
- A Senhora Isabel Viana, ou a menina Belinhas, que no Parnaso 
conhecida por Belisa, est presa  minha ordem por ter praticado
certa ingratido com o seu poeta e adorador aqui presente. E como
to brbaro crime no h de ficar sem punio, vai a r deste passo
acompanhar o Senhor Lisardo de Albertim  primeira igreja, onde
conjugar com ele o verbo matrimnio. Tenho dito.
Belinhas, que havia conhecido a voz do irmo, riu-se mau grado das
garotices do rapaz; e consentiu, toda envergonhada, que ele pusesse
na mo fria e trmula do Lisardo a ponta de seus dedos mimosos.
Pensava ela que tudo aquilo no passava de uma comdia, e tinha
razo; mas. a comdia no acabava ali.
Enquanto na sala isto ocorria, os cabras, entrando no armazm por
ordem de Nuno  busca de uma liteira, deram com uma pipa de
torneira assentada sobre o tendal a jeito de escorrer o lquido.
Um dos cabras logo ps-se de gatinhas a mamar naquela teta
apojada e os outros impacientes esperavam sua vez. Um, porm,
mais sfrego deitou os olhos ao redor e descobriu um pichel de lata:
- Isso de bica atrasa muito. Eu c vou com o. pcaro  fonte.
Dito e feito. Trepando no cavalete para deitar o tampo dentro, viu
com surpresa que j a pipa fora arrombada; porm maior foi seu
espanto descobrindo ali uma cabea.
- Ol, temos conserva!
- Que histria  essa?
- Uma cabea de molho!
- Um corpo inteiro!
- Oh! diabo!
- No me matem! murmurou a pipa. Eu prometo...
Sabidas as contas, era o nosso Capito Miguel Correia que se pusera
de conserva na pipa do vinho.
O que lhe valeu foi a pressa com que estava o Nuno, a quem no
fazia conta a volta do pai. Bem desejava ele dar um abrao  me,
porm temia as ternuras da velha.
Dois cavalos da tropa foram metidos nos varais da liteira, que em
poucos momentos ficou prestes.
- Toca a andar. Senhor Lisardo de Albertim, oferea o brao  sua
dama.
182
O nosso poeta, que ainda no proferira uma palavra, estava alheio a
quanto se passava em torno e enlevado na contemplao de Belinhas.
- Onde me quer voc levar, Nuno?
-  casa de Marta.
- Sem a me?... No vou.
- Vais, te digo eu, que no estou para ver o Lisardo morrer segunda
vez!
- Ele?... balbuciou a menina lanando ao amante um olhar de
exprobrao.
- Quem traz dentro de si morta toda a esperana, j no  mais
homem.,  s fantasma de uma alma penada que pede a sepultura,
disse Lisardo.
A menina enxugou uma lgrima, e Nuno aproveitando-se da comoo,
tomou-a nos braos quase sem resistncia e levou-a  liteira, que
logo partiu para Santo Antnio.
A menina gritou pela me; esta, porm, escondida na cozinha, no a
ouviu.
A casa do Perereca estava fechada. Ao rijo bater da lana do Nuno
acudiu um escravo, que ficou espantado vendo a patrulha.
- Arreda, tio, quero entrar.
- O senhor no est a
- E a mulher?
- Tambm foi com ele para palcio.
- E a filha?
- Essa est ai, sim senhor.
-  quanto basta.
Entrou o Nuno com o costumado arreganho e esparrame na sala onde
estava Marta.
- Venho buscar a menina por mandado de sua me.
- Para palcio?
- Sim! roncou o cavaleiro.
Marta, aborrecida e assustada de estar sozinha em casa, preparou-se
logo e entrou na liteira onde ainda mais contente ficou por encontrar
Belinhas.
Nesse momento um vulto que viera da Penha e esbarrara com a casa
cercada de gente armada se esgueirava ao longo da cerca. O Nuno o
descobriu e deu ordem de agarr-lo:
- Que  isto, Cosme? Foge dos amigos?
- Eu... eu... Nuno...
- Tenho que agradecer-lhe umas amizades que fez aqui ao nosso
Lisardo. Ponham-no de garupa; e olho no meco.
A tropa de novo ps-se de marcha, mas em vez de tomar para o lado
do palcio, seguiu pela praia na direo dos Afogados; e pouco depois
183
atravessava a Boa Vista, caminho de Santo Amaro. O Nuno preferira
para voltar a Olinda esse rodeio que era mais seguro.
Marta, que j sabia pela amiga quem era o faanhudo cavaleiro
armado de ponto em branco, e desconfiava da embrechada, vendo
assomarem as torres do palcio ao longe, pela esquerda, abriu a
cortina da liteira:
- Oh! senhor, este no  o caminho do palcio.
- No; mas  o da Igreja de Santo Amaro.
- E que vamos ns l fazer?
- A senhora vai desposar-se com o escudeiro Nuno, Peitod'Ao; sua
amiga com Lisardo de Albertim, nobre trovador olindense.
- Eu no quero, no quero, no quero! disse a menina batendo com a
mozinha fechada na borda da liteira.
- Quero eu; e basta.
- Eu te mostrarei!
E a gentil menina escondeu-se amuada dentro da liteira, para fugir ao
olhar do Nuno, que nesse momento ela detestava.
Entretanto chegava o peloto a Santo Amaro, e acampava em frente
da ermida.
Tinha anoitecido, mas fazia um desses luares esplndidos do Norte
que parecem auroras boreais.
O Nuno despachou dois cabras em busca do capelo, ou de qualquer
outro padre mais prximo, com ordem terminante de traz-lo ali,
ainda que fosse amarrado.
Enquanto se fazia a diligncia, deixou ele o Lisardo com alguns
homens de guarda  liteira, e afastou-se com o Cosme Borralho e um
dos cabras para o mato vizinho. Ali chegando, mandou pelo camarada
cortar um grande molho de cansano.
- Cosme Borralho, meu amigo, voc desde certo tempo a esta parte
anda cheio de maus humores.
- No h tal!... acudiu o escrevente.
- E por falta de mezinha, essa reima est-lhe atacando a lngua com
achaques de enredeiro e maldizente.
-  um falso testemunho, Nuno; no acredite!
- Pois eu no hei de acreditar que voc anda achacado? Se no fosse
por molstia, o Cosme, nosso camarada, havia de andar intrigando o
Lisardo aqui no Recife e em Olinda?
- Juro que no fui eu!
-  doena, no digo? Sou seu amigo, Cosme; quero cur-lo dessa
ruim praga. Dispa-se at ficar em plo para levar uma fricozinha
com que voc sara logo.
- De cansano? exclamou o escrevente sarapantado.
-  uma planta medicinal; produz na pele umas coceiras que acabam
com as comiches da lngua.
184
- Est bom, Nuno, j voc se divertiu com suas chacotas; agora
deixe-me ir.
- Alto l! Desate os cales.
- Nuno!
- Deixe-se de sestros. Se voc no quer que eu, seu amigo, lhe sirva
de enfermeiro, e lhe aplique o emplastro com todo o cuidado, ento
deixo-o nas mos deste machacaz e com ele se avenha.
O Cosme engrolou, sofismou, e remanchou quanto pde; mas afinal
fazendo boa cara  m fortuna resignou-se a levar a surra de
cansano, que o Nuno administrou-lhe conscienciosamente.
- V consolado, Cosme, que voc agora fica so como um pero.
O escrevente fez uma careta de raiva, mas no a viu o Nuno, cuja
ateno nesse momento foi reclamada por clamores que partiam do
lado da povoao. Correu ele  ermida, inquieto acerca da liteira.
Ao chegar  praa a achou cercada por um bando armado; e viu que
uma peleja renhida se travara junto  liteira, onde o Lisardo esgrimia
uma catana com o desespero de um cego. De um salto achou-se o
rapaz ao lado do amigo, pronto a morrer com ele.
Nesse ponto, porm, um cavaleiro que escoltava uma formosa dama
apareceu na praa.
- Que temos? perguntou o cavaleiro com o tom imperioso.
Os assaltantes dominados por aquela voz recuaram, suspendendo o
combate; e as cortinas da liteira abriram-se de repente, mostrando o
lindo rostinho de Marta, amarrotado do susto:
- Primo Vital Rebelo, acuda-nos!
- A menina Marta?
- A prpria.
- Que faz por aqui?
- Isso  uma histria.
Do como ai se achava o Rebelo, vamos sab-lo.
Testemunha do insulto que sofrera o governador, Vital depois do
primeiro momento dado  surpresa e desgosto que lhe causava o
triste acontecimento, pensou que seu plano ficaria frustrado se o no
realizasse imediatamente. Correu  sua casa da Boa Vista,, fez
montar a gente que j tinha preparada, e correu a Olinda.
A nota do desacato j ai tinha chegado e a todos deixara atnitos. O
bispo, os principais da nobreza, e entre eles Andr de Figueiredo,
tinham acudido pressurosos a palcio para visitar o governador e dar
solene testemunho de que no tinham a menor parte no criminoso
intento.
A escolta de Vital Rebelo chegou  Rua de So Bento sem o menor
contratempo. Leonor estava  janela. Vital subiu, arrebatou a esposa
nos braos e desceu  rua. Ai montou-a no palafrm que a esperava,
e partiram de Olinda pelo caminho de dentro para evitar encontros.
185
Na frente ia uma ronda para segurar o caminho, e evitar a Leonor o
susto de achar-se envolvida em alguma peleja. Foi essa vanguarda
que, vendo gente armada no ptio, cercou-o com inteno de
aproximar-se  liteira, ao que se ops o Lisardo.
Sabedor das faanhas do Nuno, o Vital mais ou menos atinou com a
explicao daquela salsada; alm de que o Nuno no se fez rogado
para confessar. A pergunta do que ali fazia quela hora respondeu:
- Estou  espera de um padre para casar Belinhas com Lisardo, e
Marta comigo.
- E o consentimento de meu primo Simo Ribas e do Senhor Viana, j
o deram?
- Em tempo de guerra, no h necessidade disso. Estas damas foram
libertadas por mim e podem dispor livremente de sua mo.
Riu-se Vital.
- Pois que estamos em tempo de guerra, declaro-os meus
prisioneiros, e ponho estas damas sob a proteo de minha esposa.
Vinde D. Leonor, que vos apresento uma linda priminha, a quem no
conheceis, e sua amiga, que no  menos formosa. Vereis que no
Recife tambm como em Olinda viam, as rosas.
A resistncia era impossvel. Nuno o reconheceu vendo os seus
sequazes agarrados pela gente de Vital, mais numerosa e melhor
armada. Assim teve ele de entregar-se prisioneiro como o Lisardo, e
acompanhou a liteira  casa do alferes na Boa Vista.
Marta, que estava desesperada com a diabrura do Nuno, ficou um
tanto desconsolada por no ver at onde iria o atrevimento do rapaz,
e Belinhas a acompanhava nesse pesar.
Por aquele tempo eram presos ao sair de palcio o Capito Andr de
Figueiredo e Lus Barbalho, escapando de igual sorte muitos outros
dos principais de Olinda, que lograram fugir a tempo.
CAPTULO XV
NO QUAL SE ACABA A CRNICA JUSTAMENTE QUANDO IA COMEAR
A GUERRA DOS MASCATES
Amanhecera o Recife em alvoroo.
Os moradores desde o nascer do sol percorriam as ruas em bandos,
com ares festivos e trajos domingueiros.
A maior afluncia era para o Largo da Cadeia, no centro do qual viase
uma fbrica recente,  semelhana de coluna, que se havia erguido
durante a noite, e ali estava coberta por um grande pano de rs
desde o cimo at a sapata.
186
Esse objeto excitava no mais alto ponto a curiosidade da populaa
que parecia contempl-lo corno um trofu. Nesse momento, nenhum
dos arruadores lembrava-se da infmia e dos tratos com que o
ameaava talvez o sinistro monumento.
Era um pelourinho..
Depois do desacato  sua pessoa, decidiu-se o governador a castigar
a rebeldia dos pernambucanos, a quem seus ntimos injustamente
imputavam o crime. Ameaados de sorte igual  de Andr de
Figueiredo e outros os principais da nobreza tinham fugido de Olinda e
andavam foragidos pelos engenhos, onde os buscavam as escoltas
que Sebastio de Castro lhes mandara no encalo.
Uma das medidas em que logo se cogitou como a mais prpria para
bater a arrogncia dos nobres, foi a da imediata criao da vila do
Recite e como as pedras do pelourinho desde muito estavam lavradas
no Forte da Madre de Deus, dispuseram-se as cousas para a
cerimnia.
Era este o dia destinado para a festa da proclamao da vila e por
isso o povilu do Recife, ancho e presumido de si regozijava-se pelo
triunfo que haviam alcanado sobre a velha e fidalga Olinda.
Por volta das oito horas da manh, desfilou pela Rua de So Francisco
o prstito que saa do palcio e dirigia-se a Praa da Cadeia. Abria a
marcha, sobre o seu andor, a imagem de Santo Antnio, o padroeiro
da futura vila a que se ia levantar a povoao do Recife
Seguiram-se logo as irmandades das duas freguesias com seus guies
e balandraus, e aps elas o Santssimo Sacramento que o vigrio de
So Pedro Gonalves conduzia debaixo do plio, acompanhado pelos
ministros de El-Rei, oficiais, milicianos, e mais pessoas da governana
da terra Sebastio de Castro, ainda enfermo dos ferimentos no
assistia a cerimonia e fazia se representar pelo Secretrio Barbosa de
Lima e o Ajudante Negreiros.
No couce, os teros de infantaria, em um dos quais o dos homens
brincos empunhava a gineta de capito o nosso Miguel Correia,
bizarro e desempenado como devia ser um guerreiro curtido em vinho
da Figueira.
Chegada a procisso em frente  cadeia, deu trs voltas ao redor do
largo, e entrou a cerimnia religiosa. Em um altar volante que se
levantara em face do pelourinho, e onde foi depositado o sacrrio,
celebrou-se a missa que terminou com a bno do padro da vila.
Concluindo a consagrao, o ministro segurou uma ponta do pano de
rs, que abrindo-se descobriu o pelourinho. Ento o Dr. Lus de
Valenzuela Ortiz que substitura na ouvidoria ao Dr. Arouche, subiu.
os degraus de pedra, e do alto aclamou a vila com as palavras do
costume:
- Real, real, por El-Rei de Portugal!
187
Repetido mais duas vezes este brado, e em todas correspondido pela
multido, disse afinal o ouvidor:
- Est criada a vila de Santo Antnio do Recife!
Ai prorromperam os vivas e clamores festivos, subindo ao ar os fogos
de artifcio que se dispararam de vrios pontos da cidade, e os
repiques alegres dos sinos de todas as igrejas.
Passou-se a lavrar o auto da criao, e para esse fim arrumaram
junto ao pelourinho uma banca onde veio aboletar-se a figura sempre
esconsa e refolhada do Cosme Borralho. O Pisca-Pisca tocara a meta,
obtendo por empenho da Senhora Rufina a serventia do ofcio de
tabelio do novo concelho.
Nessa qualidade fora chamado para fazer na cerimnia as vezes de
escrivo da Cmara, enquanto se no elegia quem servisse o ofcio.
J de todo livre dos efeitos do cansano, o Cosme enfronhado em
garnacha nova, trazia a cavalo na orelha direita uma pena de ganso
com a rama to garrida e matizada, que parecia uma bandeira.
Lavrado o auto, lido perante o povo e assinado pelos ministros,
oficiais e gente principal, mandou o ouvidor apregoar a conselho
chamando os vizinhos e moradores para a eleio dos juizes,
vereadores, almotacs e mais oficiais da nova Cmara.
Juntos na casa do concelho os homens bons da nobreza e povo, que
se tinham dado a rol anteriormente, procedeu-se  escolha dos
eleitores que deviam formar os pelouros, servindo neste ato de juiz
ordinrio o Simo Ribas, por nomeao do ouvidor.
Teremos outra vez ocasio de assistir a uma eleio do tempo do rei
velho, e ento veremos que as tricas e manejos da cabala tm origem
mais antiga do que geralmente se pensa.
As janelas esto abertas; h dentro alegre burburinho, e toda a casa
respira tal ar de festa que at a parede da frente parece mais
sarapantada, ou para usar da frase do estudante, mais perereca do
que de costume.
Se a miualha que se apinha na frente e invade as portas e janelas,
nos deixasse olhar para dentro da sala, veramos duas filas de damas
e meninas, todas no maior apuro, com roupas de seda e cintos
broslados de prata e ouro.
Felizmente abre-se neste momento a chusma para dar passagem ao
Sr. Simo Ribas, o qual volta do conselho, onde acaba de ser eleito
juiz ordinrio, e vem entufado como um peru de roda. Acompanhamno
seus amigos, o Viana e o Costa Arajo, que tambm saam do
pelouro de vereadores, e o Rev. Padre Joo da Costa, alm de outros
mercadores da primeira plana.
Entremos aps eles, com o nosso Cosme Borralho, o qual vem ao
cheiro do banquete com que o chefe dos mascates se prope a
festejar a sua eleio.
188
Passada a primeira confuso produzida pela entrada do dono da casa
e aodamento com que o foram receber  porta seus hspedes e
parentes, podemos dar uma breve descrio da sala que apresenta
todas as mostras de grave cerimnia.
Em frente acha-se o venerando almotac, como seus dignos colegas e
amigos, enfronhado em um gibo carrana de belbute, com uma volta
de laada, cujas tiras pendentes ao peito tm as amplas propores
de toalhas.
Traziam todos a indispensvel cabeleira rua e alto bengalo de rotim
com casto de prata dourada, o que naquele tempo era um trao
imprescindvel no trajo senatorial. Com essas cabeleiras e bengalas, a
crermos o autor dos Mrtires Pernambucanos, tinham os respeitveis
senadores de serem escovados algumas semanas depois pelo
Capito-Mor Pedro Ribeiro da Silva.
A esquerda alinha-se pelo estrado uma fila de damas entre as quais,
alm de Leonor cuja formosura cativa a ateno, distinguem-se logo a
Senhora Rufina pelo seu empertigamento, e a Senhora Rosaura pela
pachorrenta gordura. Entre as respeitveis matronas ficavam suas
filhas, nesse dia mais lindas que nunca. Ambas tinham a cabea
baixa, mas uma no tirava a vista do cho, e era Belinhas, enquanto
os olhinhos travessos de Marta andavam bisbilhotando todos os
cantos da casa.
 direita estava arrumada de p a chusma dos convidados Via-se a
toda a espcie de cara, como toda a casta de vesturio, desde o
casquilho alfacinha e o folgazo do minhoto at o arrevesado galego,
que ainda no tivera tempo de polir-se ao atrito da boa roda.
Tambm l apareciam no meio dessa galeria reincola os tipos da
terra, como fossem o sertanejo e o matuto, representados em alguns
exemplares preciosos que os mascates haviam atrado a seu partido.
Quando o venerando ex-almotac e agora juiz ordinrio tomou
assento, Vital Rebelo que se achava na sala e havia saudado 
chegada, foi ao interior da casa, donde logo voltou, guiando dois
mancebos, em que apesar do trajo garrido, fcil era conhecer o Nuno
e o Lisardo.
O ex-escudeiro de D. Severa tinha perdido todo o seu arreganho
marcial e caminhava sobre brasas, enquanto o tmido e sensitivo
poeta expandia-se nessa atmosfera de sala para a qual nascera sua
alma.
Seria fazer pouco na perspiccia do leitor, supor que ele j no
percebeu do que se trata. Todavia sou capaz de apostar que ainda
no atinou com a verdade inteira; e se assim no , feche o livro, pois
sabe mais do que ele.
A noite em que Vital Rebelo de volta de Olinda com sua noiva
aprisionou os dois casais de namorados em Santo Amaro, no cuidou
189
seno em dar-lhes hospitalidade, e de to boa vontade e por modo
solcita, que se no lembrassem eles nas horas mortas de bater a
linda plumagem, sobretudo o Nuno, afamado por suas estrepolias.
O mais do tempo, consagrou-o  sua felicidade. E quem, depois de
um ano to curtido de amarguras e desesperos, lhe podia pedir conta
dessas poucas horas de egosmo? E demais, devia ele deixar s
naquela noite a sua Leonor, a esposa querida que acabava de
conquistar ao dio dos parentes? No seria exp-la a qualquer
temerrio arrojo dos nobres, excitados pelo sentimento da vingana e
pelo rebramo do orgulho ofendido?
No outro dia, cedo; depois de tomar todas as precaues necessrias
para defender sua habitao de qualquer assalto de fora, como para
guardar a sada aos seus prisioneiros, partiu ele a cavalo para casa do
primo Simo Ribas, com quem teve uma longa prtica.
O resultado dessa prtica foi partirem imediatamente as Senhoras
Rufina e Rosaura para a casa de Rebelo; e trazerem em cadeirinhas
bem fechadas as filhas, que j choravam perdidas ambas, supondo-as
roubadas pelos ps-rapados, sedentos de vingana contra os
mercadores.
Quanto ao Nuno e ao Lisardo, continuaram hspedes de Vital Rebelo
at aquele dia em que o mancebo, fornecendo-lhes trajos de gala e
cavalos ajaezados, os trouxera  casa do Simo Ribas, onde os
achamos neste momento.
Vital Rebelo tomou pela mo ao Nuno e levou-o  presena do Viana,
que o esperava com severa carranca. Ajoelhou o filho aos ps do pai,
e balbuciou algumas palavras pedindo-lhe perdo de sua culpa e a
restituio da bno.
- Est perdoado, disse o Viana em bartono, dando ao filho a mo a
beijar. Levante-se, e agradea ao Sr. Vital Rebelo que intercedeu em
seu favor.
Voltou-se o Nuno para o alferes o qual lhe deu um abrao. O Viana
continuou.
- A pedido do mesmo Sr. Rebelo consinto que sente praa na milcia
com o posto de alferes que ele cede em seu benefcio.
Desta vez foi o Nuno que abraou com entusiasmo seu protetor.
Agora chegue-se c, moo, disse a Senhora Rufina, e oua-me bem.
Voc est muito criana ainda para casar...
- Dezoito anos... quis protestar o Nuno.
- Dezesseis, menino! acudiu a Senhora Rosaura.
- Est vendo. L para os vinte, se comportar-se como homem, no
digo que no. At ento pode ver sua noiva, na missa aos domingos,
ou aqui em casa nas quatro festas do ano.
Marta, ao ouvir falar em noiva, fez-se de lacre e Nuno escondeu a
careta que lhe merecera o programa da Senhora Rufina.
190
Entretanto Rebelo, que no conclura ainda a sua misso de patrono
dos namorados, fora buscar o Lisardo para apresent-lo ao Viana.
- Quanto ao senhor, disse o mercador, fica em minha loja no lugar de
caixeiro que deixou o tonto de seu camarada, e nessa qualidade, se
me servir bem e for regrado, trabalhador e econmico, prometo-lhe a
mo de minha filha Isabel aqui presente.
-Poltanto, acrescentou gravemente o Simo Ribas, no plecisa mais
fazel velsos.
- Contra os de Olinda, pode fazer, acudiu a Senhora Rufina.
- Nada de versos; tornou o Viana. Aprenda-me a fazer contas e a
conhecer o valor dos algarismos. Com isso sabe-se tudo.
- Tem lazo, tem muita lazo o meu lespeitvel amigo. Vamos pala a
mesa que nos espela.
Deixemos que o excelente Senhor Simo Ribas e seus convidados
festejem nas delcias do suculento banquete o triunfo alcanado pelos
mascates com a criao da vila; e aproveitemos estas ltimas pginas
para dar alguma breve noticia dos outros personagens da crnica.
Toda a nobreza abandonara Olinda e se refugiara nos engenhos, onde
preparava-se no s para a resistncia, como para a desforra que em
poucos dias ia comear com o levante do Capito-Mor de Santo
Anto, Pedro Ribeiro da Silva.
D. Severa acompanhara os parentes, inconsolvel pela perda de seu
poeta e de seu escudeiro, porm ainda mais por no ter podido
chamar Sebastio de Castro a combate singular, onde se despicasse
da afronta que ele mandara fazer  sua beleza.
Poucos dias depois da criao da vila do Recife, Vital Rebelo
aproveitando a sada de um navio para a Bahia, levou a sua querida
Leonor s pitorescas assomadas do Salvador, onde se deslizou serena
e florida a sua primavera nupcial.
Induziu-o a esta viagem, no somente o desejo de desvanecer no
esprito de Leonor a lembrana da oposio de seus parentes, como a
previso dos sucessos que iam enlutar. a capitania, e nos quais, ele
presente, no podia eximir-se de tomar uma parte dolorosa ao
corao de sua esposa.
Efetivamente, a revolta dos pernambucanos tomara de dia em dia
maior incremento.
Sebastio de Castro, j de todo restabelecido dos ferimentos,
comeava a sentir em palcio o isolamento, infalvel sintoma dos
desastres iminentes. As catervas de homens tm o mesmo instinto
dos rebanhos que pressentem o temporal, e fogem ao perigo.
Ele reconheceu, ento j tarde, o erro. Seu imenso poder e a sua
poltica dissolvente haviam tudo esmagado e diludo em torno dele;
de modo que no dia da provana, quando se julgava cercado de
191
amigos e aliados, no viu ao redor seno miragens de sua prpria
vontade, que ele animara com seu prestgio e com este se apagavam.
No eram homens aqueles vultos que ainda povoavam as salas do
palcio; e sim os manequins do governo ainda movidos pela mola da
ambio e da cobia. Mas como a corda do maquinismo estava
prestes a acabar, j os movimentos eram frouxos e incertos.
O Barbosa de Lima acompanhou-o at o ltimo instante com uma
fidelidade nunca desmentida; mas continuou no cargo de secretrio, e
nele atravessou todo o perodo da guerra dos mascates, at 1712 em
que partiu para Lisboa.
Espalharam ento que fora a mandado dos mascates e ganhando
pingue esprtula, mas isso no passou de uma das muitas calnias
to freqentes naquele tempo e a que no escapou o prprio
Sebastio de Castro, apesar de seu proverbial desinteresse.
No  este o momento de referir os sucessos que puseram termo ao
governo de Sebastio de Castro Caldas, e que pertencem  crnica
seguinte. Esta termina com o primeiro e efmero triunfo dos
mascates, e com a instalao da vila do Recife.
Anteciparemos porm este ponto: que Sebastio de Castro mostrouse
na adversidade o varo forte de Horcio, a quem as runas de seu
fastgio no esmagam, mas ao contrrio exaltam, como um pedestal.
 o destino dos homens fadados para a dominao. O poder e a
fortuna os expande; e eles absorvem ou repelem quantos se lhe
aproximam. O revs e a desgraa os concentra, e ento eles acham
dentro em si um mundo onde se isolam.
Na noite em que Sebastio de Castro embarcava na rampa de palcio
para transportar-se a bordo do navio que devia conduzi-lo  Bahia,
diversas pessoas o acompanhavam.
Destas, algumas eram os principais mercadores que, temendo as
represlias dos nobres, fugiam  m fortuna; outras eram gente da
governana e oficiais de sala que desempenhavam pontualmente uma
obrigao de seu ofcio, vindo prestar ao fidalgo aquele ltimo dever.
S uma era estranha ao governo, e desconhecida para aquela gente.
Sebastio de Castro Caldas reconheceu Carlos de Enia, seu antigo
secretrio, e compreendeu que o trazia ali o desejo de render a
homenagem de seu respeito  adversidade, j que, no lhe era dado
conjur-la.
***************
192
SOBRE O AUTOR E SUA OBRA
Jos de Alencar, advogado, jornalista,
poltico, orador, romancista e teatrlogo,
nasceu em Mecejana, CE, em 1o de maio de
1829, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em
12 de dezembro de 1877.  o patrono da
Cadeira n. 23, por escolha de Machado de
Assis.
Era filho do padre, depois senador, Jos
Martiniano de Alencar e de sua prima Ana
Josefina de Alencar, com quem formara
uma unio socialmente bem aceita,
desligando-se bem cedo de qualquer
atividade sacerdotal. E neto, pelo lado
paterno, do comerciante portugus Jos Gonalves dos Santos e de D.
Brbara de Alencar, matrona pernambucana que se consagraria
herona da revoluo de 1817. Ela e o filho Jos Martiniano, ento
seminarista no Crato, passaram quatro anos presos na Bahia, pela
adeso ao movimento revolucionrio irrompido em Pernambuco.
As mais distantes reminiscncias da infncia do pequeno Jos
mostram-no lendo velhos romances para a me e as tias, em contato
com as cenas da vida sertaneja e da natureza brasileira e sob a
influncia do sentimento nativista que lhe passava o pai
revolucionrio. Entre 1837-38, em companhia dos pais, viajou do
Cear  Bahia, pelo interior, e as impresses dessa viagem refletir-seiam
mais tarde em sua obra de fico. Transferiu-se com a famlia
para o Rio de Janeiro, onde o pai desenvolveria carreira poltica e
onde freqentou o Colgio de Instruo Elementar. Em 1844 vai para
So Paulo, onde permanece at 1850, terminando os preparatrios e
cursando Direito, salvo o ano de 1847, em que faz o 3o ano na
Faculdade de Olinda. Formado, comea a advogar no Rio e passa a
colaborar no Correio Mercantil, convidado por Francisco Otaviano de
Almeida Rosa, seu colega de Faculdade, e a escrever para o Jornal do
Commercio os folhetins que, em 1874, reuniu sob o ttulo de Ao correr
da pena. Redator-chefe do Dirio do Rio de Janeiro em 1855. Filiado
ao Partido Conservador; eleito vrias vezes deputado geral pelo
Cear; de 1868 a 1870, foi ministro da Justia. No conseguiu realizar
a ambio de ser senador, devendo contentar-se com o ttulo do
Conselho. Desgostoso com a poltica, passou a dedicar-se
exclusivamente  literatura.
193
A sua notoriedade comeou com as Cartas sobre a Confederao dos
Tamoios, publicadas em 1856, com o pseudnimo de Ig, no Dirio do
Rio de Janeiro, nas quais critica veementemente o poema pico de
Domingos Gonalves de Magalhes, favorito do Imperador e
considerado ento o chefe da literatura brasileira. Estabeleceu-se,
entre ele e os amigos do poeta, apaixonada polmica de que
participou, sob pseudnimo, o prprio Pedro II. A crtica por ele feita
ao poema denota o grau de seus estudos de teoria literria e suas
concepes do que devia caracterizar a literatura brasileira, para a
qual, a seu ver, era inadequado o gnero pico, incompatvel 
expresso dos sentimentos e anseios da gente americana e  forma
de uma literatura nascente. Optou, ele prprio, pela fico, por ser
um gnero moderno e livre.
Ainda em 1856, publicou o seu primeiro romance conhecido: Cinco
minutos. Em 1857, revelou-se um escritor mais maduro com a
publicao, em folhetins, de O Guarani, que lhe granjeou grande
popularidade. Da para frente escreveu romances indianistas,
urbanos, regionais, histricos, romances-poemas de natureza
lendria, obras teatrais, poesias, crnicas, ensaios e polmicas
literrias, escritos polticos e estudos filolgicos. A parte de fico
histrica, testemunho da sua busca de tema nacional para o romance,
concretizou-se em duas direes: os romances de temas
propriamente histricos e os de lendas indgenas. Por estes ltimos,
Jos de Alencar incorporou-se no movimento do indianismo na
literatura brasileira do sculo XIX, em que a frmula nacionalista
consistia na apropriao da tradio indgena na fico, a exemplo do
que fez Gonalves Dias na poesia. Em 1866, Machado de Assis, em
artigo no Dirio do Rio de Janeiro, elogiou calorosamente o romance
Iracema, publicado no ano anterior. Jos de Alencar confessou a
alegria que lhe proporcionou essa crtica em Como e porque sou
romancista, onde apresentou tambm a sua doutrina esttica e
potica, dando um testemunho de quo consciente era a sua atitude
em face do fenmeno literrio. Machado de Assis sempre teve Jos de
Alencar na mais alta conta e, ao fundar-se a Academia Brasileira de
Letras, em 1897, escolheu-o como patrono de sua Cadeira.
Sua obra  da mais alta significao nas letras brasileiras, no s pela
seriedade, cincia e conscincia tcnica e artesanal com que a
escreveu, mas tambm pelas sugestes e solues que ofereceu,
facilitando a tarefa da nacionalizao da literatura no Brasil e da
consolidao do romance brasileiro, do qual foi o verdadeiro criador.
Sendo a primeira figura das nossas letras, foi chamado "o patriarca da
literatura brasileira". Sua imensa obra causa admirao no s pela
qualidade, como pelo volume, se considerarmos o pouco tempo que
194
Jos de Alencar pde dedicar-lhe numa vida curta. Faleceu no Rio de
Janeiro, de tuberculose, aos 48 anos de idade.
Obras:
I Romances urbanos:
Cinco minutos (1857); A viuvinha (1860); Lucola (1862); Diva
(1864); A pata da gazela (1870); Sonhos douro (1872); Senhora
(1875); Encarnao (1893, pstumo).
II Romances histricos/ indianistas:
O Guarani (1857); Iracema (1865); As minas de prata (1865);
Alfarrbios (1873); Ubirajara (1874); Guerra dos mascates (1873). III
Romances regionalistas: O gacho (1870); O tronco do ip (1871); Til
(1872); O sertanejo (1875).

